Como lidar com dilemas éticos sobre conteúdo gerado pelo usuário

porJulie Posetti Jessica Sparks and Alice Matthews
Oct 28, 2014 em Diversos

"A polícia local confirma que há uma situação com um atirador ativo em um shopping center. O conteúdo gerado por usuários vai ser a única fonte de conteúdo antes de suas equipes poderem chegar lá. Um produtor identifica alguém no centro de compras. Você pode ver que eles têm um bom ponto de vista, porque já tuitaram uma foto do que parece ser corpos no chão. Se for verificada, esta seria a primeira imagem de dentro. Como você procederia?"

Esse é um dos dilemas éticos relacionados com Conteúdo Gerado pelo Usuário (UGC, em inglês) apresentados por um painel de especialistas no International Newsroom Summit em Amsterdã, Holanda, na semana passada. O painel, com o correspondente Steve Herrmann da BBC, Fergus Bell da AFP e o diretor de comunicações do Google para a Europa, Oriente Médio e África, Peter Barron, foi moderado pela estrategista de mídia social da Agência da ONU para Refugiados, (ACNUR, em inglês), Claire Wardle. Jessica Sparks e Alice Matthews examinaram as questões sobre conteúdo de usuário que devem engajar as redações eticamente. 

Aproveitando o Conteúdo Gerado pelo Usuário 

"As pessoas se sentem confiantes para contar histórias. Elas querem mostrar que estavam lá, querem fazer parte da notícia e contar essa história [e] quanto mais UGC veem, mais sentem que querem contribuir", Fergus Bell, editor de mídia internacional social e UGC da AP, disse ao World Editors Forum.

Ele disse que quando o público reconhece que pode se envolver no processo noticioso, as redações são presenteadas com uma infinidade de conteúdo rico. 

"Nós não sabemos o que este conteúdo vai ser ainda e isso é emocionante e uma oportunidade." 

Claire Wardle disse que o conteúdo gerado pelo usuário ainda é uma área em crescimento, mas tem um grande potencial de oferta de conteúdos recolhidos e produzidos em meio à ação, que, caso contrário, não existiriam. 

"Cada vez mais as melhores fotos são aquelas captadas por testemunhas no local do crime com um telefone habilitado para câmera. No momento em que uma equipe profissional chega, a 'ação' muitas vezes já acabou", ela disse ao World Editors Forum. 

"As redações devem aproveitar essas fotos, e em seguida, fornecer o contexto para as imagens e a história." 

Fornecer contexto do UGC é na prática um grande desafio para a redação em ritmo acelerado que dá prioridade ao digital. Como o UGC ainda é uma área nova, as normas ainda estão em desenvolvimento. 

Responsabilidade para os criadores de conteúdo 

"É certo pedir [aos usuários] para ir e filmar alguma coisa? Se eles se machucarem ou algo acontecer com eles, qual é o nosso dever de cuidar deles? Somos responsáveis ​​por eles? "Fergus Bell perguntou. 

Ele disse que a gestão de UGC se resume a "resolver suas normas antes de ter que lidar com isso". Estas normas devem abordar questões como dar crédito e consentimento informado. 

Bell disse que os usuários estão cada vez mais conscientes dos seus direitos. 

"Eles entendem que possuem esse conteúdo, então eu acho que isso é algo que temos de abordar enquanto indústra [de jornalismo] muito rapidamente - como lidamos com as permissões e se seria permitido transmitir algo sem permissão." 

Um estudo global do TOW Center sobre UGC na TV e online por Claire Wardle revelou que os produtores de UGC não recebem o crédito devido. 

"Apenas 16 por cento das testemunha oculares na mídia foi creditada e [houve baixos níveis de categorização] ou seja, explicando que as fotos foram tiradas por alguém não relacionado com a redação." 

Em muitos casos, o conteúdo foi atribuído a uma plataforma (por exemplo, Twitter ou Facebook) em vez do criador real. 

O conteúdo pode aparecer em uma variedade de plataformas, incluindo mídias sociais e aplicativos móveis de websites. Steve Herrmann, editor da BBC News Online, disse que quando é publicado digitalmente, o conteúdo pode assumir uma vida própria e aparece em muitos contextos diferentes. 

"Não é mais tão simples como saber que está indo para um jornal em um lugar específico ou uma determinada parte de um programa de TV." 

Ele disse que é importante para ambos jornalistas e criadores de conteúdo compreenderem os parâmetros. 

Responsabilidade para com o público 

Steve Herrmann disse que verificação é o principal desafio quando se trata de conteúdo gerado pelo usuário. 

"O maior desafio de todos é estabelecer que algo é verdadeiro e reter a confiança do público num momento em que a informação está se movendo tão rápido que pode ser muito, muito difícil de verificar." 

Ele disse que, embora a velocidade do ciclo de notícias torne difícil a verificação, as redações precisam se certificar de que estão certas antes da publicação ou transmissão. 

"Ou, pelo menos, se você não tem certeza, precisa ser muito claro [sobre isso]." 

No entanto, Claire Wardle disse que a frase "nós não podemos verificar de forma independente isto" está fazendo um desserviço para o público. 

"Enquanto não resolvemos isso, vamos ter conteúdo sendo disseminado muito rapidamente com essas ressalvas, e isso não é transparente", explicou, indicando que é preciso haver mais transparência ao lidar com UGC. Wardle disse que as redações tiveram que correr para recuperar o atraso com a enxurrada de conteúdo de testemunha e não tem certeza se estão administrando corretamente. 

Fergus Bell argumenta que a precisão ainda deve ter prioridade em relação à velocidade: "(As redações) serão perdoadas se estão certas e um pouco mais lentas, ao invés de erradas e rápidas." 

"Dado o estado da indústria de mídia, não precisamos dar ao público uma razão para nos deixar ou para desligar ou não confiar em nós. Portanto, todos os erros são perigosos, porque você pode perder a confiança que tem com o público em um piscar de olhos."

Com essas preocupações em mente, os dilemas éticos apresentados por Wardle para a conferência na Holanda valem uma consideração mais profunda pelos jornalistas e editores. Veja as apresentações abaixo (em inglês) com hipóteses éticas digitais para testar sua redação.

Este post foi publicado no blog "World News Publishing Focus" do WAN-IFRAN e é reproduzido na IJNet com permissão. WAN-IFRA é uma organização de imprensa global que promove a imprensa livre, jornalismo de qualidade e integridade editorial. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Scott Ableman