Como jornalistas podem testar fatos falsos por conta própria

por Adi Eyal
Feb 1, 2017 em Fact-checking e verificação

Na era da pós-verdade, onde os fatos são muitas vezes manipulados ou simplesmente inventados, uma ampla gama de organizações de verificação de fatos surgiu em todo o mundo.

Os verificadores de dados geralmente usam dados, fotos, crowdsourcing e outras técnicas de verificação. Gostaria de sugerir uma ferramenta adicional para a caixa de ferramentas do verificador: reductio ad absurdum -- assumir que a afirmação é verdadeira e segui-la para ver o que dá. Além de desafiar alegações falsas, esse tipo de argumento tem um benefício adicional de produzir conversas interessantes em festas.

Um bom exemplo é esta excelente matéria de 2016, na qual a AfricaCheck examinou a infame e frequentemente citada estatística de que "uma mulher é estuprada a cada 26 segundos na África do Sul". Este número vem circulando há muitos anos, muitas vezes atribuído às Nações Unidas.

Com base nesse número, um cálculo rápido revela que a África do Sul sofreria 1,2 milhão de estupros anuais, um número incrivelmente alto para um país de 51 milhões de pessoas, de acordo com o censo de 2011.

A investigação da AfricaCheck revelou o Rape Crisis Center como a fonte original da estimativa de "26 segundos". (Para ser justo, o Rape Crisis Center tem sido mal citado, pois seu cálculo original incluiu estupro de homens e mulheres). Veridicando a mesma notícia, o BuzzFeed realizou algumas impressionantes pesquisas arqueológicas na internet e encontrou esta campanha constrangedora em 1999, apresentando a atriz Charlize Theron citando a estatística e o que significa para os homens sul-africanos.

Então eu pensei que valia a pena verificar este número com uma abordagem diferente. Antes de começar, porém, uma advertência: a África do Sul sofre níveis muito altos de violência sexual. Estupro é um tema sensível; no entanto, este artigo lida com estatísticas, e os números por sua própria natureza desumanizam as pessoas. Estou ciente de que corro o risco de parecer insensível neste artigo. Porém, minha intenção é incentivar o pensamento crítico e espero demonstrar como outros jornalistas podem usar matemática simples e reductio ad absurdum como uma forma de expor afirmações falsas.

(Para aqueles interessados ​​em seguir a matemática em maior detalhe, verifique o adendo na parte inferior deste artigo).

A alegação é que uma mulher é estuprada a cada 26 segundos na África do Sul. Isso equivale a 2,3 estupros por minuto, o que nos leva a 138 estupros por hora, o que leva a 3.323 estupros por dia. Com 365,25 dias por ano, acabamos com 1,213,753 mulheres estupradas na África do Sul por ano.

Esses números são muito altos. De acordo com o censo de 2011 da África do Sul, havia 26.581.770 mulheres no país.

Tendo em conta esses números, qual é a probabilidade de qualquer mulher ser estuprada em um determinado ano? Para calcular isso, precisamos assumir que em qualquer ponto do tempo, todas as mulheres são igualmente suscetíveis de serem estupradas. Em outras palavras, não levamos em conta o nível de criminalidade em uma área, status socioeconômico, idade ou qualquer outro fator possível que possa fazer com que o estupro de uma mulher seja mais provável do que de qualquer outra.

Portanto, se existirem 26.581.770 mulheres na África do Sul, podemos calcular a probabilidade de estupro em um determinado ano dividindo um por esse número -- 0,00000376 por cento.

Mas lembre-se, estamos trabalhando com a suposição de que há mais de 1,2 milhões de estupros anualmente. Qual é a probabilidade de uma mulher evitar se estuprada por um ano inteiro? Faça a matemática e acabamos com 4,46 por cento. Isso é próximo de uma em cada 20, e é basicamente a essência do cálculo do Rape Crisis Center.

E se olharmos para isso por um longo período de tempo? Qual é a probabilidade de uma mulher sul-africana ser estuprada pelo menos uma vez em 10 anos? Os cálculos abaixo nos levam a vários anos:

 
Idade de uma mulher sul-africanaProbabilidade de uma mulher ser estuprada uma vez na África do Sul 
14,46 por cento
1036,6 por cento
2059, 8 por cento
3074,5 por cento
4083,9 por cento
5089,8 por cento
58.8393,18 por cento

 

Em outras palavras, ao longo da vida média de uma mulher sul-africana, ela tem 93,18 por cento de chance de ser estuprada. Essa é uma afirmação incrível.

Embora seja claro que a violência sexual é um problema sério na África do Sul, o número "26 segundos" parece exagerado. O raciocínio por trás da estimativa do Rape Crisis Center é que muito poucas mulheres realmente reportam o estupro -- assim, a organização estima que apenas uma em cada 20 reporta o crime. Embora meus cálculos não tenham refutado suas suposições, colocam alguma dúvida sobre a veracidade da reivindicação.

Como sabemos, as estatísticas são frequentemente usadas para fazer reivindicações com base em estimativas. Como jornalistas, não devemos sempre aceitá-las pelo seu valor nominal. Vale a pena tomar uma abordagem cética e interrogar os números que fazem declarações excessivamente ousadas.

Ambos AfricaCheck e BuzzFeed foram longe para refutar a estatística de "26 segundos". Eu também pude fazer mais ou menos o mesmo simplesmente fazendo a conta por mim mesmo. Verificação de fatos nem sempre tem que ser algo sofisticado: uma abordagem de lápis e papel também pode ir longe para testar se certas alegações resistem ao escrutínio.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Robert Couse-Baker. Infográfico produzido by Sam Berkhead.