Como fazer jornalismo de soluções sobre assédio sexual

porIsabella Garcia
Apr 20 em Engajamento da comunidade
Isabella Garcia lidera debate

Jornalistas e membros do público reuniram-se na Biblioteca Knight da Universidade de Oregon na semana passada para uma conversa sobre o impacto do assédio sexual em sua comunidade, com ênfase nas respostas efetivas que a comunidade criou para combater o problema. As participantes compartilharam soluções e intervenções contemporâneas que fizeram diferença na esteira do movimento #MeToo.

O evento de engjamento comunitário #MeToo fez parte do curso de jornalismo de soluções da Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade do Oregon (UO), uma universidade líder do ensino de cursos de jornalismo de soluções.

"Há uma tendência crescente no jornalismo que diz que apenas reportar sobre os problemas não é suficiente, porque deixa os leitores ansiosos, deprimidos e sem saber como responder", disse a instrutora do curso, Kathryn Thier. Esta tendência levou ao estabelecimento do jornalismo de soluções, que requer apurações rigorosas sobre as respostas aos problemas sociais.

"Em vez de se sentir deprimido quando algo negativo é revelado, você pode realmente ver o que pode fazer a respeito", acrescentou Thier.

O curso de jornalismo de soluções da UO faz parte do Catalyst Journalism Project, um programa voltado para o desenvolvimento de cursos para estudantes de jornalismo que estimula uma rigorosa reportagem investigativa e de soluções. Thier e outros membros do corpo docente de jornalismo, Nicole Dahmen e Brent Walth, iniciaram o projeto em 2017.

Kathryn Thier
Professora Kathryn Thier ouvindo a conversa.

 

Thier ensina jornalismo de soluções na universidade há vários anos, mas nunca focou em um tópico específico até este curso. Depois de acompanhar a cobertura do movimento #MeToo, ela notou que estava centrada principalmente em torno do acusado, em vez das sobreviventes, e ela questionou se a reportagem tradicional, que foca no problema, estava na verdade prejudicando as sobreviventes. Como a hashtag #MeToo continuou a dominar as redes sociais, Thier viu uma oportunidade de aplicar o jornalismo de soluções à questão do assédio sexual.

O curso apresentou os fundamentos do jornalismo de soluções, juntamente com discussões sobre a ética da cobertura do #MeToo, e resultou em seis matérias sobre os esforços dentro do Oregon para combater o assédio sexual. Os tópicos incluem programas de educação sexual no ensino médio, esforços direcionados para desconstruir a masculinidade tóxica e iniciativas do governo para regularizar o atraso nos kits de estupro não testados e fornecer apoio a sobreviventes do tráfico sexual.

No entanto, como muitas vezes é o caso, o trabalho dos alunos não parou depois que suas matérias foram publicadas. O evento de engajamento da comunidade #MeToo forneceu a oportunidade de levar a conversa adiante além da reportagem inicial.

Os alunos do curso abriram o evento revelando o que aprenderam através de reportagens sobre formas de combater a agressão sexual. Em seguida, fizeram uma discussão interativa sobre os próximos passos.

Erin Leslie, que assistiu ao evento, aproveitou a oportunidade para aprender sobre soluções e expressou sua frustração com reportagens tradicionais baseadas em problemas.

"Não me diga que há um problema a menos que haja uma maneira de consertar isso", disse Leslie.

Leslie ouviu falar sobre o evento através de sua chefe Meredith Holley, advogada especializada em ajudar vítimas a denunciar o assédio sexual no local de trabalho, sem ter que deixar o emprego. Holley também foi o foco de uma das matérias de soluções que resultaram da aula.

"Quando eu estava sofrendo assédio sexual, procurei soluções e não as encontrei por mais de um ano", disse Holley. "Ter um foco jornalístico em como resolver o problema realmente resolve parte da retórica de que não há solução."

Discussion table led by Isabella Garcia.
Isabella Garcia lidera uma mesa redonda.

 

Hannah Kanik, aluna do curso, junto com os colegas de turma, Ariana Sinclair e Ruben Estrada, trabalhou para reportar sobre como o Oregon foi capaz de resolver seu atraso nos testes dos kits de estupro, conhecidos como kits SAFE.

“Apurar a matéria a partir de um ângulo de soluções informa outros estados sobre essa solução, então talvez eles possam adotá-la também e fazer uma mudança substancial e duradoura”, disse Kanik.

Considerar o impacto do jornalismo é um importante pilar do jornalismo de soluções, um campo de jornalismo que é comumente mal entendido como “leve” ou menos rigoroso do que reportagens tradicionais. No entanto, fóruns abertos como o da Universidade de Oregan têm o benefício de desfazer esses mitos.

Nolan Good, um repórter do Daily Emerald da Universidade de Oregon entrou no evento sob o equívoco comum de que o jornalismo de soluções significava repórteres inserindo suas próprias opiniões sobre como resolver problemas em seu trabalho.

Depois de ouvir sobre o processo que os alunos aplicaram em cada matéria, Good ficou surpreso com o rigor de suas apurações, entrevistas e pesquisas. Percebendo que era, na verdade, um processo complexo, ele questionou por que o jornalismo de soluções não era mais popular nas redações.

"Estou me perguntando por que não fazemos isso o tempo todo", disse Good.


Imagens cedidas pela Escola de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Oregon