Como a emissora Fusion pretende ser a primeira rede de TV digital

porMaite Fernandez
Oct 08 em Jornalismo digital

Tim Pool ficou conhecido no jornalismo por ser o cara que usou drones e wearables para fazer transmissão ao vivo de eventos noticiosos, como a ocupação de Wall Street em 2011, as manifestações no Oriente Médio e os protestos mais recentes em Ferguson, Missouri. 

Aos 28 anos, Pool está deixando seu trabalho como produtor da Vice Media para se tornar o diretor de inovação de mídia na Fusion, uma rede de notícias e entretenimento na TV paga com foco na geração do milênio, que foi lançada em outubro do ano passado como uma joint venture da Univision e a ABC News. 

Como parte de seu novo trabalho, Pool vai construir uma unidade de notícias de última hora que vai usar tecnologia de forma inovadora. Ele vai continuar com a sua cobertura ao vivo, mas também vai trabalhar em estreita colaboração com a equipe de tecnologia para desenvolver ferramentas internas que irão ajudar a Fusion a cobrir notícias no futuro, disse Daniel Eilemberg, diretor digital da Fusion. 

"O que Tim faz é uma coisa muito original", disse Eilemberg. Ele reconheceu que pode haver desafios em integrar a cobertura de Pool na cobertura de notícias da TV tradicional. "Muito disso é uma abordagem que dá prioridade digital à notícia, mas isso será um dos desafios divertidos e interessantes para nós, trabalhar na integração de tudo isso em nossa cobertura de notícias na TV. Eu estaria mentindo se dissesse que tenho todas as respostas agora."

Longe de ser uma reflexão tardia, a rede está apostando pesadamente em seu braço digital. Comandado por Eilemberg, o departamento alistou outros grandes nomes como Felix Salmon da Reuters, Anna Holmes da Jezebel e Hong Qu, ex-executivo do YouTube e Upworthy. 

"A meu ver, o digital é, por um lado, um lugar natural e importante de estar. Estamos falando a um público do milênio; esta é uma geração que passa o tempo principalmente em seus dispositivos móveis, em redes sociais digitais, por isso temos de criar um conteúdo que é nativo para as plataformas ", disse Eilemberg. 

A ideia de Eilemberg é criar conteúdo engajante em torno de sua programação, o conteúdo que pode ser multiplataforma, o que significa fazer mais do que apenas pegar programas de TV e colocar os clipes online. 

"Isso significa criar conteúdo que é nativo para o sistema digital que pode ser hospedado no YouTube e ser compartilhado em redes sociais para tentar direcionar o tráfego, audiência e engajamento para a tela de TV", disse ele. 

Um exemplo disso foi a cobertura da Copa do Mundo. 

Para cobrir o evento mais compartilhado nas redes sociais na história recente, a Fusion blogou ao vivo  e usou o "honeycomb" (favo de mel), um agregador social, construído no site de futebol da Fusion que permitiu trazer conteúdo de mídia social baseado na localização e influência.

 

Durante a Copa do Mundo, dois a três editores de uma vez pesquisaram e acompanharam todos os 12 estádios onde o torneio ocorreu em busca de certos elementos-chave, como hashtags e a influência de pessoas no estádio. 

"Então, assim que uma pessoa que tem uma grande influência social compartilhava material nas mídias sociais, fomos capazes de ver isso, pegar e adicionar contexto para o que está acontecendo e colocar em nosso agregador social", disse ele. 

Para Eilemberg esta era a coisa mais parecida com a experiência de estar lá. Através da agregação de todas as atualizações de mídias sociais, "você experimenta o Brasil através dos olhos de milhares de pessoas que estavam lá compartilhando sua experiência no local." 

Trabalhar no "honeycomb" durante a Copa do Mundo provou ser muito divertido, mas o diretor digital da Fusion vê potencial para aplicar esta tecnologia para cobrir outras histórias mais sérias, como zonas de conflito ou protestos. "Pegamos a Copa do Mundo para brincar com isso antes de implementá-lo com notícias de mais sérias", disse ele. 

Esta abordagem a mídia social para cobrir a Copa do Mundo teve muito a ver com o engajamento do público, uma métrica que a Fusion presta muita atenção agora. 

"Nós estamos tentando fazer crescer a nossa influência social e engajamento que temos com o público. Temos grandes programas, grandes talentos, e uma das coisas que precisamos melhorar é em conseguir um diálogo mais forte nos dois sentidos com o nosso público", disse ele. 

Aprendendo com Animal Político 

Quando se trata de engajamento público, Eilemberg tira lições de sua experiência com Animal Político, uma empresa de mídia nascida nas redes sociais que abrange a política e os acontecimentos atuais no México. Cofundada por Eilemberg, a empresa começou em 2010 com a conta de Twitter "Pájaro Político" (Pássaro Político"), um personagem fictício. "Foi operado exclusivamente no Twitter antes mesmo de lançar um site", disse ele. 

O pássaro irreverente mexeu com o público, especialmente mais novo. "Foi como um personagem. Ele tinha uma voz, tinha uma personalidade, tinha um jeito de abordar as questões... e responder ao povo. Essa foi uma conversa muito diferente e uma experiência muito diferente do que o público tinha com a mídia tradicional, e as pessoas responderam a isso", disse ele. 

Quando eles lançaram o site, Animal Político, um ano depois, ele veio com seguidores e um público muito engajado. O site atinge 4 milhões de usuários únicos mensais, e Eilemberg disse em uma entrevista anterior, que espera alcançar rentabilidade neste ano. 

Seu sucesso veio do entendimento de que os hábitos de consumo de mídia da nova geração são radicalmente diferentes. 

"Os hábitos de consumo de mídia de uma geração mais jovem que cresceu em digitais... que aprenderam a se comunicar de forma nativa por estas coisas, que são informados através de seu feed de redes sociais ou através dos seus amigos... é apenas um tipo muito diferente de consumo de mídia", disse. 

"Algumas marcas de mídia têm feito um trabalho realmente excepcional se adaptando. Outras empresas de mídia não têm feito um ótimo trabalho nesta mudança de paisagem e falam com eles de uma forma muito diferente."

Maite Fernández é diretora de comunicação da ICFJ. Ela fala inglês e espanhol e fez mestrado em jornalismo multimídia pela Universidade de Maryland.

Imagem cortesia de Alexander Rentsch no Flickr sob licença CC