Blog convidado: Webinário sobre 'Panama Papers' ilumina investigações inovadoras

porStephen Kirker
Jun 19, 2016 em Jornalismo investigativo

O lançamento do "Panama Papers" me pegou de surpresa.

Não deveria, porque eu falei com Chris Roper na véspera do lançamento da reportagem para um perfil em um dos programas de rádio que apresento na África do Sul. Chris é diretor da African Network of Centres for Investigative Reporting (ANCIR), uma equipe que teve um papel importante em desvendar o "Panama Papers".

Mas eu não tinha ideia do que estava iminente, apesar de ele ter mencionado a investigação durante a nossa conversa.

Como tudo aconteceu? Tive a sorte de participar de um webinário do Dow Jones, organizado pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), que ofereceu alguns insights sobre as pessoas e os processos envolvidos. A experiência me surpreendeu.

Eu descobri um conjunto de jornalistas incrivelmente dedicados espalhados pelo mundo. E tenho que dizer que acho que a dedicação é absolutamente essencial para dar sentido a essa carga de informações no maior vazamento de dados da história.

Aprendi que se quero me tornar um jornalista investigativo decente, vou ter que desenvolver uma obstinação e uma crença de que o que estou perseguindo será gratificante. Mesmo que não seja.

É uma crença em encontrar a verdade mesmo se não há nada "noticioso" nela.

Aprendi sobre confiar além da própria rede também.

Notavelmente, através das relações que já existiam, os braços dessa rede de troca de informações expandiu em todo o mundo.

Talvez ainda mais notável foi que ninguém abriu a boca antes de publicar no mesmo dia. Durante os meses peneirando os dados, os jornalistas que trabalharam no material foram capazes de interagir uns com os outros. Foi assim que as conexões entre um funcionário corrupto em um país puderam ser ligadas a uma empresa em outro. Um jornalista ajudou o outro. 

Rastrear nomes reais e dinheiro é o que se resumiu o projeto. Embora muitas das pessoas ligadas à cadeia de dinheiro offshore são notórias ou famosas de outras formas, o "Panama Papers" revelou algumas das maneiras pelas quais essas pessoas não pagaram impostos, como expatriaram dinheiro dos contribuintes possivelmente obtido de forma corrupta. Forneceu a prova do que foi suspeito durante anos e a arma final que muitos jornalistas e o público estava procurando.

Também descobri que houve uma série de discussões sobre o nome para o turbilhão que estava prestes a ser desencadeado. Naturalmente, como jornalistas, só posso imaginar o "debate" editorial envolvido.

Uma das pessoas em nosso grupo de discussão fez um comentário válido de que algumas histórias, especialmente em nosso âmbito africano, talvez pudessem ter sido melhor trabalhadas. Mas isso pode ser baseado em uma perspectiva que é informada por um ambiente de imprensa livre e acesso a recursos de apuração de reportagem (quase) atualizados. Alguns dos jornalistas que investigaram os dados trabalham em circunstâncias muito mais exigentes e foram motivados simplesmente pelo desejo de expor a corrupção em seus países no que fosse necessário. Alguns jornalistas foram pagos por seus esforços, pois são freelancers que trabalham por quase nada de qualquer maneira. Eles teriam sido incapazes de participar de outra forma.

Eles participaram -- e enquanto algumas investigações podem ter sido um pouco leves no início -- revelaram as pepitas brilhantes sob as quais encontrou-se um tesouro. Como sabemos, o primeiro-ministro da Islândia renunciou depois de seus investimentos no exterior terem sido revelados e o seu equivalente britânico também teve que navegar uma situação difícil referente a um dinheiro da família. O valor da democracia aberta que aumenta a partir dessas revelações não está em questão. E enquanto alguns líderes tiveram que enfrentar a pressão, há outros cuja impunidade também foi exposta. Jornalistas simplesmente têm que continuar a futucar.

A única coisa que parece clara para mim é que um projeto como esse teria sido quase impossível antes que o mundo fosse instantaneamente e (quase) completamente conectado. Imagine uma pessoa ter que enviar por fax essa quantidade de material por todo o mundo? Ou ter uma discussão de conferência em diferentes fusos horários? Ou conferir um daqueles milhares de pontos de esclarecimento que inevitavelmente surgem?

Que o poder de investigações coletivas seja bem-vindo. Nós todos temos as ferramentas necessárias em nossos bolsos. Crie conexões, colabore e confie.

Nota do editor: Stephen Kirker é estudante da Wits University's school of journalism em Joanesburgo. Ele assistiu ao webinário do Dow Jones e ICFJ como parte de uma aula de Jeff Kelly Lowenstein.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Steven Depolo