BBC usa chatbots para dar contexto em notícias complexas

byRicardo Bilton
Feb 28 in Jornalismo digital

Mesmo que não tenham mudado o mundo da forma como alguns esperavam, os chatbots tornaram-se uma maneira interessante para experimentar com as notícias. Contudo, alguns desafios grandes impedem sua adoção generalizada. Um problema é acostumar os usuários ao formato; o outro é ganhar os repórteres.

O BBC News Labs e a equipe de jornalismo visual da BBC estão tentando resolver ambos os problemas com uma única solução: um aplicativo personalizado de bot-builder projetado para facilitar o máximo possível que os repórteres criem chatbots e insira-os em suas matérias. Em poucos minutos, um repórter da BBC pode inserir o texto de um artigo, definir as perguntas que os usuários podem clicar e publicar o bot, que pode ser reutilizado e adicionado em qualquer outro artigo relevante. Os repórteres da BBC podem até mesmo reutilizar "explicadores" que já existem em conversas baseadas em bots.

De maneira que, nesta matéria sobre um erro de digitação no convite ao último discurso "State of the Uniom” (em vez de "State of the Union”), um módulo diz: "Donald Trump assumiu a presidência prometendo mudar a cara da política americana e transferir o poder 'de volta para as pessoas'". Este chatbot da BBC permite que você pergunte: o que o presidente Trump conseguiu em seu primeiro ano? "Três perguntas potenciais são oferecidas. (Como são as classificações de aprovação do presidente? Como a economia está sob o presidente Trump? E o presidente mudou os números de imigração?) Escolha uma pergunta e uma interface de bate-papo se expande com respostas. ("Ele é um dos presidentes mais impopulares na era moderna".) Com cada resposta, uma ou mais novas questões aparecem como opções; o chatbot de Trump contém mais de uma dúzia no total).

Grant Heinrich, desenvolvedor da BBC que liderou a iniciativa de bot da organização (e um dos criadores do Brexit Bot da BBC) disse que a maioria dos programas de bot atualmente no mercado não responde às necessidades dos jornalistas. "O nosso é muito mais projetado em torno do fluxo de trabalho do repórter do que a maioria dos software que eu vi", disse ele. "É realmente projetado em torno da situação de ter um prazo importante a cumprir, e adaptar e entregar informação que o jornalista já tem em um bot que pode ser reutilizado.”

Para a BBC, os robôs representam uma nova maneira de alcançar e informar os leitores que não estão profundamente interessados em notícias complicadas, disse Heinrich. Um bot recente foi construído para ajudar usuários a entender como o aumento acentuado dos empréstimos pessoais pode afetá-los. A BBC também usou a tecnologia para ajudar o público a se atualizar sobre a situação na Coréia do Norte e entender o mais recente surto de gripe. E esses bots podem ser reutilizados em qualquer artigo que os repórteres acham que se beneficiará de informações mais profundas; o chatbot sobre o primeiro ano do Trump foi reutlizado em pelo menos 10 matérias da BBC.

"Esses tópicos, como o Brexit, são complicados, e os bots são projetados para ajudar a desmistificá-los", disse Heinrich. "Os leitores podem ser um pouco mais jovens ou entrar no meio da história. É possivel que não saibam quem são as pessoas importantes ou qual é o tema central. Os jornalistas estão muito mais envolvidos nessas histórias diariamente e um leitor de 16 anos não terá tanto conhecimento."

O BBC News Labs e a equipe de jornalismo visual da BBC calibraram e testaram várias partes do projeto do bot, como a colocação do módulo de bot nas páginas, o design do bot e se os módulos do bot devem aparecer nas páginas por padrão ou se devem obrigar usuários a clicar em um guia antes de usá-los. As equipes também querem determinar a eficácia dos bots nas últimas notícias, ou mesmo na cobertura de entretenimento, como a premiação do Oscar. Outra variação nos atuais módulos de bot em desenvolvimento agora é um recurso de linha do tempo, que permitirá a usuários se atualizar sobre eventos-chave que levam à história atual sobre a qual estão lendo. As equipes também estão explorando maneiras de identificar em que momento as pessoas param de interagir com um bot, particularmente um ponto detalhado que cobre um tópico complexo, o que os permitirá avisar os usuários se a história mudar.

Contudo, algumas lições já se tornaram claras. Por um lado, a BBC descobriu que cada bot tende a atrair um subconjunto pequeno, mas altamente engajado, de usuários que passam muito tempo interagindo com os módulos. Em outras palavras, certos tópicos que os bots cobrem podem não ser relevantes para a maioria das pessoas, mas aqueles que estão interessados em seus tópicos "devorarão qualquer coisa que os explique", disse Heinrich. "É essa audiência que essas coisas estão visando."

Em última análise, Heinrich disse que é importante que as organizações de notícias sejam realistas sobre o que os chatbots podem realizar. "Eles não são aplicáveis em todas as matérias e definitivamente haverá histórias onde não vale a pena o esforço de construí-los", disse Heinrich. "Mas se você tiver uma matéria muito complicada, e quer que as pessoas entendam o básico muito rapidamente, eles são muito bons. Nosso objetivo não é provar aos leitores que o chatbot é a onda do futuro para todas as formas de jornalismo."

Este artigo foi publicado originalmente no Nieman Lab e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem sob licença Pexels via John Jackson