Ano de eleições: inteligência artificial como ferramenta contra fake news e social bots

porJéssica Cruz
Jun 10, 2018 em Diversos

"A gente está se preparando para uma eleição no Brasil, que a gente tem a oportunidade de ter pela primeira vez, aqui e no mundo: uma eleição bem preparada para lidar com esses malefícios da tecnologia, como fake news, social bots e macro-targets”, afirmou Rodrigo Helcer, CEO da Stilingue, empresa de tecnologia especializado em inteligência artificial, durante a palestra “IA & Eleições no Brasil” no Festival Path, um evento sobre criatividade e tecnologia que aconteceu em São Paulo nos dias 19 e 20 de maio.

De acordo com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, 49 por cento dos brasileiros em 2016 usaram a internet como fonte de informação. Outra pesquisa, coordenada pela Fundação Getúlio Vargas, analisou discussões no Twitter durante o último debate eleitoral da TV Globo para Presidência da República nas eleições de 2014. Durante o primeiro turno, 6,29 por cento das interações no Twitter foram feitas por social bots, perfis controlados por softwares, que criaram uma massificação de posts para manipular as discussões nas redes sociais. No segundo turno, a proliferação de social bots foi ainda pior: representaram 11 por cento dos posts.

A Stilingue foi criada para monitorar conteúdo de redes sociais e imprensa utilizando inteligência artificial, que entende a língua portuguesa e resume essa grande quantidade de informação. Para essas eleições, empresas de marketing e publicidade e propaganda irão utilizar essa tecnologia para criar a marca de políticos e administrar a reputação dos candidatos.

“Inteligência artificial aproxima os eleitores dos políticos, o eleitor vai ser mais ouvido, mais protegido e estará mais próximo de seus candidatos. Isso tudo está relacionado a descentralização do poder da informação”, explica Helcer.

Depois de casos como a eleição do Trump, o Brexit e mais recentemente as denúncias com a Cambridge Analytica envolvendo o Facebook, Helcer afirma que há um grande desafio para construir a imagem de bom moço da Stilingue:

“Ser tratado como vilão está relacionado ao medo das pessoas sobre o que a IA pode fazer. A Stilingue trabalha para mostrar que atrás da inteligência artificial existe inteligência real, que precisa assumir a responsabilidade pelo o que a tecnologia faz”, ele diz.

E os benefícios da inteligência artificial já podem ser vistos no Brasil.

Rosie: a robô da Operação Serenata de Amor

Em 2016, três cientistas políticos de Porto Alegre estavam tentando decidir em quem votar nas eleições municipais. No entanto, eles perceberam que acessar informações dos munícipios seria muito complicado, devido a falta de transparência de muitas cidades. Por isso, decidiram investigar a contabilidade de deputados federais no Congresso Nacional.

“A gente percebeu uma grande brecha para trabalhar com inteligência artificial e dados abertos em todo o Brasil. E essa carência não era só no jornalismo, mas também nas agências públicas de controle e no próprio governo”, explicou Irio Musskopf, um dos criadores da Rosie.

Rosie é um software – e perfil no Twitter – que analisa os requerimentos de reembolso de cada um dos 513 deputados federais. De acordo com o regulamento interno da Câmara dos Deputados, cada deputado pode ter reembolso de cerca de R$44.000 por mês com alimentação, passagem de avião, gasolina e outros. Todo gasto precisa ser relacionado com suas funções parlamentares e para seu próprio consumo.

“A Rosie olha para gastos fora do padrão, como altos preços de refeição ou gastos realizados no mesmo dia em três diferentes estados do Brasil, e nós temos pessoas checando essas informações se necessário, porque não queremos apontar imoralidades, mas sim, ilegalidades”, explica Musskopf.

Quando a Rosie percebe um gasto que parece suspeito, ela posta essa informação no Twitter. Em 2018, a Operação Serenata do Amor, como o projeto é chamado, vai ser expandido para o resto do Brasil. A ideia é olhar para as dispensas de licitações nas 100 maiores cidades do país.

“Não existe dados abertos ou padrão na publicação dessas dispensas, então esse foi nosso primeiro problema a ser resolvido”, conta ele. 

O projeto da Rosie tem seis profissionais contratos – que são mantidos por crowdfounding e pela organização sem fins-lucrativos Open Knowledge Brasil – e mais de 100 voluntários já ajudaram na codificação da Rosie. Até o final deste ano, a estimativa é que mais 200 GB de informação sejam coletadas das cidades. Porto Alegre já passou por esse processo e os dados estão publicados no diario.serenata.ai.

Fortalecendo o jornalismo com novas tecnologias

Sobre o desafio que os jornalistas terão para cobrir as eleições do Brasil este ano, Musskopf declara: “Jornalistas precisam admitir e ser transparentes com os leitores de que uma parte das discussões nas redes sociais não é real. No Brasil, temos o PegaBot, um software que estima uma probabilidade de aquele perfil social ser um social bot. Essa ferramenta deve ser usada pelos jornalistas.”

Helcer também considera a tecnologia como uma importante ferramenta para os jornalistas durante a cobertura dessas eleições. “Eu não vejo como um jornalista moderno pode fazer um jornalismo de qualidade sem a ajuda da tecnologia, e nesse caso, da inteligência artificial”, afirma. 

Todas as discussões sobre fake news e suas consequências colocam de volta no jornalismo a responsabilidade e a credibilidade para informar de forma correta a população. E as novas tecnologias irão ajudá-los a resumir grandes quantidades de dados e informações, a checar fake news nas redes sociais, a automatizar processos, ou seja, a conseguir as melhores histórias a serem contadas.

Imagem sob licença CC no Flickr via Radio Interativa