Agência Tatu inova com jornalismo de dados no Nordeste

porEvandro Almeida Jr
Jul 13, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Os cinco membros da equipe Agência Tatu sorridentes em volta de uma mesa

“Jornalismo de utilidade pública com foco em dados”, é assim que o fundador da Agência Tatu, Lucas Thaynan, descreve seu empreendimento em Maceió, Alagoas.

Empreendedorismo universitário

Em 2015, em meio a uma paralisação na Universidade Federal de Alagoas, centenas de alunos se viram ociosos. Num grupo da turma de jornalismo, uma professora enviou um curso de jornalismo de dados do Centro Knight. Thaynan se inscreveu e gostou muito do que aprendeu. 

Apareceu uma oportunidade de apresentar uma visualização de dados valendo um treinamento na sede do Google em São Paulo. Thaynan fez a apresentação e conseguiu. “Éramos oito e eu o único estudante e ainda por cima no quarto semestre”, conta. 

Passaram-se dois anos de mais cursos e idas a São Paulo até que surgiu a ideia de seu trabalho de TCC (trabalho de conclusão de curso) ser um programa de visualização de dados sobre a política em Alagoas. Duas amigas, Graziela França, Micaelle Moraes, se juntaram à ideia e ajudaram a ampliar a projeto. Nasceu então a Agência Tatu em abril de 2017 com foco em cobertura de dados no estado

Crescimento e prêmios

“Vimos a oportunidade de nos inscrevermos para prêmios regionais de jornalismo na categoria estudante, para ao menos pagar os custos”, conta Thaynan. No primeiro ano foram duas vitórias e um segundo lugar. A Agência ganhou tanto prêmio que tem até uma aba especial no site

“Não aprendi a empreender na faculdade. Foi na prática”, afirma Thaynan. O projeto conta com cinco pessoas e chama a atenção por ser um projeto novo porém com impacto forte na região com republicação de conteúdo em outros veículos.

Na eleição de 2018 fizeram uma parceria com o site TNH1, de grande audiência em Alagoas. “Foi o primeiro projeto mesmo que ganhamos dinheiro como empresa. Criamos um projeto bonitinho e oferecemos. O TNH1 aceitou de cara”, conta Thaynan. 

Com gráficos e infográficos informavam citações no Twitter, temas de interesse público além de análises de buscas no Google Trends. “Tínhamos a preocupação de tornar os dados bem compreendidos para o público, diz. 

Todos os membros da agência participaram de alguma forma de treinamentos devido a seus trabalhos com dados. Thaynan, por sua vez, foi selecionado para a 1ª Jornada Galápagos de Jornalismo representando Alagoas. 

Jornalismo de utilidade local

Em 2019 criaram um aplicativo para informar em quais postos de Maceió havia combustível mais barato. O aplicativo deu certo e continua funcionando com 8.000  downloads. 

Com base nessa ideia, surgiu o projeto “Onde tem álcool em gel?” criado com inteligência artificial durante a pandemia de COVID-19. Nele o usuário encontra a marca do produto, endereço do local de venda e até o telefone para saber se há em estoque antes de sair de casa. “Foi um pouco trabalhoso, mas devido a experiência do aplicativo foi um sucesso”, afirma Thaynan.

Em média o site tem 20.000  acessos anuais. Com o projeto, foram 50.000 acessos em dois dias e em uma semana o site até saiu do ar devido ao aumento do fluxo de visitas, segundo Thaynan. 

Para Pedro Burgos, coordenador do curso de pós-graduação do Insper, iniciativas regionais de dados tem um impacto mais forte na população do que uma de um grande veículo. 

“Durante a pandemia, as redações nos grandes centros podem se ocupar por fazer dashboards com números de infectados em todos os estados, mas talvez um mapa de ‘como ajudar na sua cidade’ seja mais útil para quem está em Maceió, por exemplo”, diz Burgos. “E como as redações locais estão passando por dificuldades, cada vez mais vamos ver inovações na área — não só de jornalismo de dados, mas de outros nichos — surgindo de empreendedores conectados às universidades, terceiro setor ou empresas de tecnologia.” 

Outro projeto da Agência Tatu, o Monitor Covid-19, vem atraindo audiência. Uma parcela da audiência vem das redes sociais, especialmente do Instagram. A equipe percebeu que ali é um meio importante de fazer publicações que se complementam com as informações do site. 

Monitor Covid-19: casos de Alagoas
Monitor Covid-19. Captura de tela do site da Agência Tatu.

Sustentabilidade financeira 

“O principal desafio da gente hoje é monetizar a Agência com um novo modelo. Aqui vivemos outra realidade e nos formamos sem recurso para tocar isso”, lamenta Thaynan. Os cinco integrantes da Tatu têm outros trabalhos e não se dedicam exclusivamente à agência.

Um caminho de monetização apontado por Thaynan é o de projetos específicos. Já que o desafio é diário em fazer jornalismo em Alagoas, segundo ele.

“Todos os veículos tem ligação política e nós queremos nos manter sem esse carimbo. Estamos pensando que as pessoas podem sim bancar o jornalismo e estamos pensando nessas alternativas”, afirma o fundador. 

Por que Tatu?

Duas razões: “É um animal típico aqui do nordeste e também por representar uma base de nosso trabalho, que é cavar a informação”, finaliza Thaynan.


Evandro Almeida Jr é jornalista móvel. Ele é graduado pela FIAM FAAM e integrante da Red LATAM de Jóvenes Periodistas do Distintas Latitudes

Imagem principal: Graziela França, Géssika Costa, Lucas Maia, Yasmin Pontual e Lucas Thaynan da Agência Tatu. Crédito: arquivo pessoal.