Agência Mural floresce cobrindo favelas de São Paulo

porPatrick Butler
Dec 14, 2019 em Notícias locais
Equipe da Mural em Paraisópolis

Em 2010, Vagner de Alencar era um dos 20 jovens moradores de favelas de São Paulo que fizeram um curso de jornalismo oferecido por Bruno Garcez, bolsista ICFJ Knight. Ele e os outros trainees se tornaram os primeiros blogueiros da Mural, um site de jornalismo cidadão lançado por Garcez que cobria as grandes favelas fora da cidade que raramente apareciam na mídia.

Quase dez anos depois, Alencar é codiretor da Agência Mural, supervisionando quase 90 correspondentes em dezenas de favelas em São Paulo. A Mural passou de um blog para iniciantes a um site de notícias respeitado, cujo mais recente empreendimento é uma parceria com uma importante rede de notícias nacional. A Mural produz agora três programas de televisão por semana sobre as favelas para a Band TV, de matérias de cultura a investigações de problemas crônicos como infraestrutura e saneamento.

O objetivo da Agência Mural é duplo, diz Alencar: combater os estereótipos negativos que as pessoas têm sobre as favelas e as pessoas que nelas vivem, e aumentar a conscientização sobre os problemas que o governo está ignorando.

Alencar cresceu em Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo. Ele a cobriu para a Agência Mural até recentemente, quando contratou outro morador de Paraisópolis, Henrique Cardoso, recém-formado na universidade, para se tornar o "Muralista" da favela. Alencar e Cardoso recentemente apresentaram Paraisópolis para alguns visitantes, contando sobre o motivo de serem tão apaixonados por fornecer aos moradores as notícias de sua comunidade e por mostrar aos estrangeiros que a favela não é infestada de crimes como muitos pensam.

"A imagem é sempre negativa de quase todas as favelas", disse Cardoso enquanto estava sentado na lanchonete na cobertura de um centro comunitário. "Me incomoda porque nasci e cresci aqui, e sei que essa imagem não é verdadeira."

Garcez concebeu a ideia da Mural com Izabela Moi, que era então editora de uma seção semanal de educação na Folha de S.Paulo, o maior jornal do Brasil. Garcez e Moi treinaram o primeiro grupo de jornalistas cidadãos da favela e estabeleceram a Mural como um blog vinculado ao site da Folha. Em 2015, a Agência Mural expandiu, adicionando um site de notícias independente enquanto continuava o blog da Folha. Outro crescimento ocorreu em 2018, com financiamento das Open Society Foundations.

Moi ainda é codiretora da Mural (junto com Alencar e outro blogueiro original, Anderson Meneses), enquanto Garcez -- agora editor digital da BBC em Londres -- é mentor. Olhando para os últimos dez anos, Moi disse que nenhum dos fundadores poderia prever o que a Mural seria.

"Nós não nos conhecíamos", disse ela. “Estávamos simplesmente confiando em uma ideia em que quase 25 pessoas acreditavam, ou queriam acreditar, juntos: que estávamos suprindo uma falta de informações e notícias sobre São Paulo. O que nos trouxe aqui é essa missão comum compartilhada, essa visão do que está faltando e a crença de que todos podemos ajudar a construí-la juntos. ”

Além de doações, o serviço de notícias ganha dinheiro com parcerias com mídias como Folha e Band TV, que pagam à Agência Mural por conteúdo. No entanto, o papel de Moi se concentra principalmente no desenvolvimento de fluxos de receita para ajudar a Agência Mural a se tornar mais autossustentável. A agência está iniciando um programa de membership e planeja começar a realizar eventos que possam trazer mais recursos.

Cardoso espera que sua cobertura possa resultar em uma vida melhor para seus vizinhos na favela, que tem cerca de 100.000 habitantes. Ele está trabalhando em um vídeo para o programa de TV da Mural sobre as promessas não cumpridas que o governo faz há anos: construir um parque e um hospital e transformar uma corrente de água em um canal de concreto que não inundará mais as casas das pessoas sempre que chove forte. Correspondentes da Mural de outras favelas produziram matérias semelhantes sobre promessas do governo não cumpridas.

Muitas dessas matérias tiveram impactos positivos para as pessoas que vivem nas favelas. Uma reportagem, por exemplo, mostrou como os espaços entre os trens e as plataformas de metrô estavam causando 1.000 acidentes por ano. Depois que a matéria foi publicada, o governo da cidade adicionou extensores de metal às plataformas que reduziram os espaços e os acidentes.

A Agência Mural também teve um grande impacto nas carreiras dos muralistas, disse a editora de projetos Karol Coelho, também uma dos blogueiros originais. Muitos se tornaram repórteres da Folha, BBC e outras importantes organizações da mídia. Embora eles precisem substituir os repórteres que saem para os veículos, ela disse que eles ficam felizes quando alguém progride e leva a perspectiva Muralista a uma organização de mídia tradicional.

"As pessoas conhecem a Agência Mural", disse ele. “Elas confiam em nós. Elas sabem que estamos aqui na comunidade com elas.”


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Imagem principal, com Alencar (à direita) e Cardoso, cortesia deTaylor Mulcahey.