Abordando os desertos de notícias na Colômbia

porNadya Hernández
May 4, 2019 em Notícias locais
Repórteres na Colômbia

Em março de 2019, a Liga contra el Silencio, uma aliança de jornalistas e meios de comunicação que lutam contra a censura na Colômbia, publicou um artigo explicando como um representante da Câmara apropriou irregularmente 7.000 hectares de terrenos baldios em Vichada, um dos 32 estados os país. 

A história que aconteceu em 2014 só foi publicamente conhecida cinco anos depois. Segundo dados da  Fundación para la Libertad de Prensa (FLIP), em Vichada, 78% da população vive em municípios em silêncio: lugares onde não há meios de comunicação que produzam notícias locais.

Colômbia: Um país em silêncio

Na Colômbia, 157 jornalistas foram assassinados por motivos relacionados ao seu trabalho profissional. A violência dos anos de conflito armado fez do jornalismo uma profissão de alto risco. A perseguição, intimidação e ameaças contra a vida dos repórteres enviaram uma mensagem de intimidação que impactou negativamente as notícias locais.

A pesquisa da FLIP "Cartografías de la Información" concluiu que mais de 10 milhões de colombianos vivem em municípios onde é mais fácil saber o que está acontecendo nas principais cidades (Bogotá, Cali e Medellín) do que nas regiões onde eles residem.

Segundo Jonathan Bock, coordenador do Centro de Estudos de Liberdade de Expressão da FLIP, "a guerra teve impactos diretos no jornalismo local, já que muitos meios de comunicação fecharam devido à violência (por exemplo, assassinato de um jornalista). Além disso, havia também uma barreira cultural contra o debate por causa do medo, que limitou a pesquisa e [diminuiu] a cobertura em nível local.”

Dos 1.100 municípios do país, 353 não possuem mídia local e 313 possuem mídia de música ou entretenimento que não disseminam notícias locais. Mais da metade do território da Colômbia é um deserto de notícias.

Essa situação é semelhante em outros países da região, como o Brasil. Segundo o Atlas da Noticia, 30 milhões de pessoas, ou cerca de 15% da população total do país, vivem nestes desertos de notícias.

“Estes números são um chamado urgente para fazer ações que incorporam diferentes atores: universidades, estados, autoridades locais e regionais e o setor privado. É necessário que todos entendam a importância de ter um jornalismo forte para proteger os interesses públicos, incluindo monitoramento e controle da transparência e combate à corrupção", disse Bock.

Alternativas para melhorar a oferta de meios locais

Christian Barragan, diretor do LabMedia, acredita que a mídia digital pode ser uma alternativa para reduzir os desertos de notícias na América Latina. “Em uma realidade saturada de informações, e que permite a possibilidade de estar virtualmente do outro lado do mundo, parece irônico o quanto é difícil encontrar informações de qualidade sobre nossa comunidade, bairro ou cidade”, explicou.

Essa é a razão pela qual o LabMedia está lançando o MediaTour, uma iniciativa para apoiar a criação de mídia digital em cidades onde há pouca ou nenhuma mídia digital com conteúdo local.

Por meio de uma campanha de crowdfunding, Barragan busca financiar um tour de oficinas gratuitas em 30 cidades latino-americanas. A iniciativa pretende alcançar mais de 600 jornalistas e criar pelo menos 90 novas plataformas de mídia digital com conteúdo local.

“Como jornalista local na Colômbia, Equador e Venezuela, tenho testemunhado a dificuldade da mídia digital local e comunitária para acessar recursos econômicos e treinamento" disse Barragan. "Estudos mostram que em cidades média e pequenas há cada vez menos meios de comunicação e, portanto, menos conteúdo local que permite que os cidadãos sejam mais bem informados sobre seus arredores imediatos."


Nadya Hernández é uma jornalista colombiana com nove anos de experiência em questões como construção da paz, democracia e ativistas locais. Ela também é bolsista do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês).

Imagem cortesia da Fundación Chasquis