6 dicas para trabalhar com redações africanas em projetos de jornalismo transfronteiriço

porSara Olstad
Aug 10, 2016 em Jornalismo digital

O aumento dramático em telefones celulares e conectividade com a internet em toda a África nos últimos anos criou novas oportunidades para os repórteres colaborarem em projetos transfronteiriços como o "Panama Papers". Mas, apesar dessas novas oportunidades, a África continua a representar desafios únicos para os jornalistas.

"O continente tem provado os seus próprios desafios especiais com o acesso à internet, acesso à informação, governos desonestos e até mesmo no acesso a fundos", disse David Lemayian, bolsista Knight do ICFJ, que trabalha como tecnológo lider do Code for Africa.

Lemayian e Amanda Strydom, editora-executiva da African Network of Centers for Investigative Reporting (ANCIR), trabalham em estreita colaboração com redes de jornalismo por toda a África em reportagens e projetos, auxiliando investigações ultra-secretas e a construção de novas ferramentas de código aberto para a mídia.

Os dois compartilharam suas melhores dicas para jornalistas internacionais que querem fazer parceria em projetos de reportagem com redações internacionais, principalmente africanas.

Planeje eficazmente

"Em uma redação tradicional, um editor pode andar até a editoria de um repórter, bater na mesa e exigir um texto. Nossas redações ficam em fusos horários diferentes e a milhares de milhas de distância e muitas vezes com conexões de internet meio ruins", o que significa ser essencial o planejamento de longo prazo e habilidades organizacionais para o cumprimento dos prazos, disse Strydom. Ela recomenda prazos coordenados com editores e repórteres parceiros e não apenas para um ou outro, e ter certeza de que todos eles estão conscientes das expectativas do projeto. Ela também tenta envolver a equipe de tecnologia no início do projeto, garantindo que vão ser capazes de resolver os eventuais erros antes de a matéria ir ao ar .

Ache um ângulo local para sua história 

Por que a África é o lar de cerca de 1,2 bilhões de pessoas, com 54 países e cerca de 1.500 línguas, não é possível para uma rede cobrir tudo o que acontece em todo o continente. O truque para alto engajamento do leitor sobre histórias é conhecer seu público, disse Strydom. "No caso do 'Panama Papers', por exemplo, queríamos redações para fazer as histórias tão locais quanto possível -- para contar a história do juiz, contar a história do político", disse Strydom. A ANCIR escolheu cobrir histórias em inglês, francês e português, em parceria com vários repórteres e editores especializados em um dos idiomas.

O mesmo é verdadeiro para desenvolvimento tecnológico, disse Lemayian. Ele tenta construir ferramentas que resolvem os problemas que "mantêm as pessoas acordadas à noite". Isso requer uma compreensão das grandes necessidades e prioridades dos cidadãos, disse ele. Por exemplo, ele trabalhou com o jornal The Star no Quênia para lançar "Dodgy Doctors", um aplicativo e SMS que ajuda o cidadão a verificar se o um médico é ou não devidamente registrado com as autoridades médicas.

Escale e reproduza os sucessos

Quando você tem uma ferramenta de trabalho que resolve um problema local, pode começar a pensar sobre a questão em uma escala continental (ou global), disse Lemayian. Olhe para as pessoas em outros lugares que enfrentam problemas semelhantes e, em seguida, tente replicar o seu projeto para atender às suas necessidades individuais. Por exemplo, o app "Dodgy Doctors" começou no Quênia em 2013, mas Lemayian mais tarde ajudou a relançar uma versão personalizada para a Nigéria, dois anos depois. A ferramenta também está sendo atualizada para uso na África do Sul e Tanzânia, onde os cidadãos enfrentam desafios semelhantes na escolha de médicos confiáveis.

"Ser capaz de trabalhar com redações africanas é muito interessante em termos de poder pegar a mesma ferramenta e [abordar] esses mesmos problemas, esses mesmos desafios, e conseguir levá-los para diferentes países", disse ele. Isso dá a ele e sua equipe a oportunidade de olhar para os problemas "de um ângulo diferente" e colocar um "toque diferente" na concepção e implementação da tecnologia.

Dê um valor alto ao conhecimento e redes locais 

Repórteres estrangeiros às vezes subestimam os jornalistas africanos, usando-os somente como fixadores e pesquisadores, disse Strydom.

"A equipe estrangeira cai de paraquedas ... e sai com uma matéria premiada e pouco reconhecimento para o repórter africano que pode ter passado anos construindo uma rede", disse ela. A ANCIR treina jornalistas em sua rede sobre como encontrar histórias e trabalhar com dados, com o objetivo de nivelar o campo para que "histórias locais sejam contadas pelos moradores", disse Strydom.

Compreenda o clima político em que você está trabalhando

Alguns governos africanos são conhecidos pelo tratamento duro da mídia, e Strydom observa que houve repressão recentemente na Angola, Quênia, Uganda e Zimbábue. Quando há uma matéria importante saindo de um país com leis de imprensa altamente restritivas, a ANCIR trabalha com organizações de mídia fora do país em questão para publicar a história, muitas vezes com a esperança de alcançar formadores de políticas e doadores internacionais, disse Strydom.

Dê seguimento aos impactos potenciais

Após as matérias serem publicadas, é importante dar seguimento para ver se produziram algum resultado. Isso também pode levar a novas ideias para outros artigos, como uma matéria sobre uma figura poderosa que não cumpriu com uma promessa ou mudança de política depois de uma reportagem de investigação ter descoberto uma irregularidade. Por exemplo, após a investigação "Panama Paper" da ANCIR ter ligado uma empresa de mineração de diamantes na Serra Leoa a paraísos fiscais, o governo prometeu investigar as alegações. "Nós ainda temos que ver se isso aconteceu ou não, mas nos dá uma oportunidade de acompanhar em três meses", disse Strydom. "Meio que cria uma [outra] notícia."

Nota do editor: Este post é baseado na apresentação de David Lemayian e Amanda Strydom, Working with African Newsrooms, na Conferência do Investigative Reporters and Editors em junho. Você pode ouvir a gravação do áudio aqui (em inglês).

 

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