5 oportunidades e desafios enfrentados pelas redações africanas

por Chris Roper
Jun 6, 2018 em Jornalismo digital

Qual é o estado da mídia na África e para onde ela vai? O desafio da questão é que da mesma forma que a África não é um país, “a mídia” não é uma coisa só.

No mês passado, no Benim, tentei fornecer respostas a essa pergunta durante uma palestra no Fórum de Parceiros da Mídia Livre, de Qualidade e Independente da Osiwa para mídias da África Ocidental. Havia cinco tópicos relevantes para a maioria dos meios de comunicação africanos, embora o grau em que se aplicam aos cenários locais seja diferente.

1. A mídia africana está inextricavelmente ligada à mídia global.

A economia global da mídia digital significa que não há situação de mídia que seja totalmente peculiar à África. A mídia africana está intrinsecamente ligada ao ecossistema da mídia global. O principal exemplo é que nossa indústria está tão danificada e comprometida pelas grandes plataformas de internet americanas quanto as do resto do mundo.

2. Novos híbridos de tecnologia e jornalismo permitem a jornalistas africanos contar histórias de novas maneiras.

A mais difundida das novas formas de contar histórias é o jornalismo orientado por dados, a (relativamente) nova face do jornalismo investigativo e baseado em evidências. Mas a lista é longa, com fortes exemplos de jornalismo com uso de robô, sensores, drones e forense, e com muito potencial nos campos da inteligência artificial e do jornalismo imersivo, como realidade virtual e aumentada.

É tentador ser cínico em relação à justaposição dessas formas de jornalismo de tecnologia em relação aos recursos tensos das redações. E é verdade que, se você tem dificuldades para fazer com que os leitores paguem por notícias, é difícil pedir para investirem em inovações jornalísticas que, em alguns casos, ainda não alcançaram nosso público. Mas, no mínimo, o jornalismo orientado por dados será crucial para nossa sobrevivência como redações.

3. A guerra contra a verdade é vital para as redações africanas.

Todos nós fomos doutrinados no jargão da guerra contra a verdade - tanto que muitos de nós incorporam todas as complexidades e incongruências das várias campanhas de desinformação sob a inútil e falsa rubrica de notícias. Mas como todas as guerras, as batalhas reais são apenas a linha de frente. As guerras também são ganhas e perdidas nas linhas de suprimento e logística, e é aqui que o jornalismo é mais desfavorecido: onde as receitas, recursos e (possivelmente o mais prejudicial de todos) relacionamentos são reduzidos pela mudança da indústria, exacerbada pelas mudanças no consumo de público e possibilitada pelas grandes plataformas de internet.

4. Confiança nas notícias é essencial para o sucesso da indústria.

As plataformas de mídia social facilitam a desinformação e a disseminação do jornalismo de má qualidade e enfraquecem as marcas de notícias. De acordo com um estudo recente, menos da metade dos leitores (47 por cento) geralmente reconheceu a marca de notícias que criou o conteúdo quando acessaram as notícias no Facebook, Twitter ou Google.

Além disso, os editores veem as plataformas como a principal ameaça ao seu sucesso em 2018. A segunda ameaça ao seu sucesso é a incapacidade de inovar; e, claro, esses dois estão interligados. Inovar custa muito dinheiro e, em um mundo onde o Facebook e o Google atraíram 84 por cento dos gastos globais em 2017, não sobra muito do orçamento para que as agências de mídia possam investir em novos empreendimentos criados para mudar esse número a seu favor.

Sem lealdade e confiança, será muito difícil para a mídia africana criar um modelo de receita. Precisamos que as pessoas nos deem dinheiro, porque sem dinheiro, governos e corporações podem nos comprar ou nos destruir. Precisamos que as pessoas paguem para que a imprensa seja livre. Quarenta e quatro por cento dos editores veem as assinaturas como uma importante fonte de receita digital em 2018, e o problema de encontrar novas receitas é ainda mais urgente nos países em desenvolvimento. De acordo com uma recente pesquisa de tecnologia do ICFJ em redações globais, cerca de 70 por cento das redações na África Subsaariana, Norte da África, América Latina e Oriente Médio identificam o desenvolvimento de novas fontes de receita como um grande desafio, contra 44 por cento dos norte-americanos.

5. Criar e nutrir um relacionamento mais profundo com o público pode reverter a erosão da confiança.

Precisamos ter nossos dados. Sessenta e dois por cento dos editores do mundo todo disseram que a iniciativa mais importante para suas redações é "melhorar a capacidade de dados". Isso não significa apenas sua capacidade de entender big data, mas de cultivar e coletar seus próprios dados. O grande erro dos jornais não foi oferecer o conteúdo deles gratuitamente online: foi quando compartilharam seus leitores gratuitamente, e isso é uma função mais da arrogância do que do acaso. Criar e cultivar um relacionamento mais profundo com o público é o próximo campo de batalha da mídia e é nesse ponto que muitas agências de mídia ganham ou perdem.

O jornalismo orientado por dados pode ser um cavalo de Tróia para isso, porque muito dele trata de fazer com que os leitores se tornem parte da história, tanto como colaboradores para a evolução da matéria quanto como produtores de dados. A guerra contra a verdade é aquela que as organizações de notícias africanas podem e devem vencer. As oportunidades oferecidas pelo jornalismo digital podem ser mais poderosas do que as ameaças, mas aproveitá-las exige um compromisso de retomar o controle de nossos relacionamentos com nossos leitores. Abraçar uma estratégia centrada em dados é uma parte vital disso.

Imagem sob licença CC do Flickr via Steve Bowbrick