5 lições que a pandemia deixou para o jornalismo econômico

porEduardo Fabián Villalba
Nov 12, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Computador e caderno de anotações

A pandemia de COVID-19 teve um forte impacto na economia mundial. Nesse cenário, organizações como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) preveem quedas históricas do produto interno bruto (PIB) até o final de 2020.

A crise afetou notavelmente (e simultaneamente) os principais setores que integram a atividade econômica dos diferentes países sul-americanos. Assim, as notícias relacionadas a esses setores e suas análises adquiriram cada vez mais preponderância, de modo que o jornalismo econômico enfrentou um enorme desafio.

Para os comunicadores da região, a situação deixou várias lições para o futuro:

1- Tecnologia (atualmente) é a chave para o jornalismo

Samuel Acosta, editor geral do meio especializado 5 días no Paraguai, garante que a tecnologia ajudou muito a manter o ritmo das notícias em um momento em que eram obrigados a manter a distância. “Aprendemos muito sobre como ser mais eficientes com o tempo e usar novas ferramentas que nos permitiram solucionar as barreiras físicas”, afirma.

Acosta também fala que a pandemia ajudou a entender que as redes sociais se configuram como uma forma mais poderosa de alcançar os leitores hoje. Com base nessa premissa, o 5 días modificou seu fluxo de publicação de notícias.

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“Antes tínhamos informações que sabíamos ser exclusivas e íamos primeiro para o impresso, depois para a web e por fim para as redes, hoje é o contrário”, explica.

2- O jornalismo deve dar voz a todos os setores econômicos

Outro efeito notório da pandemia foi o maior destaque adquirido por determinados setores da economia de cada um dos países que antes não gozavam desse impacto, além do forte aumento na quantidade de informações gerada.

Por exemplo, Acosta comenta que, mesmo antes da crise de saúde, o 5 días tinha uma página exclusiva sobre micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) no Paraguai, e o que custava mais a cada dia era obter dados sobre elas. “O impacto sofrido por essas empresas, sem dúvida, deu atenção especial não só às autoridades governamentais, mas também à própria mídia”, analisa.

3- O treinamento é fundamental para abordar temas relacionados à economia

A venezuelana Ginette González, jornalista especializada em temas econômicos e diretora do portal Descifrado, afirma que a pandemia agravou a crise no país. “A COVID-19 foi como o golpe de misericórdia para os setores econômicos que sobreviveram”, diz ela.

González afirma que entender os fatos econômicos na Venezuela não é fácil e que se requer muita pedagogia para explicar a dinâmica das forças produtivas. “A lição que resta é a necessidade urgente de treinar as novas gerações do jornalismo econômico”, diz ele.

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“A formação de uma geração de apoio não tem sido possível, já que a emigração [venezuelana] deixou uma grande lacuna entre jornalistas com 20 ou mais anos de experiência e aqueles que estão começando não têm o conhecimento ou a prática de jornalismo econômico”, acrescenta.

4- Os números (principalmente oficiais) nem sempre respondem à realidade

Outro aspecto a que Ginette González se refere é a dificuldade de acesso à informação e sua qualidade. “Na Venezuela trabalhamos com cifras econômicas de consultores e organismos internacionais (quando existem). A informação estatística pública é inexistente ou fortemente falha”, explica.

“As fontes oficiais não divulgam as informações, enquanto os dados privados apresentavam sérios problemas de metodologia que impediam tirar conclusões sobre qualquer variável”, acrescenta, ao apontar a importância de os dados estarem o mais intimamente relacionados possível com a realidade que as pessoas vivem.

5- Os contatos são extremamente importantes (mais ainda à distância)

Arthur Cagliari, que integra a Folha de São Paulo, acredita que a pandemia demonstrou que o bom jornalismo é possível mesmo com as limitações do distanciamento social. Em sua opinião, aumentar o número de contatos ajuda para que em situações como a atual “seja fácil ir às fontes para obter informações”.

Mas o difícil, diz ele, é trabalhar na coleta de fontes em circunstâncias como as apresentadas pelo novo coronavírus. “Uma coisa ruim sobre esse período foi a falta de contato pessoal durante os eventos de imprensa”, diz ele.

A cobertura da crise econômica derivada da COVID-19 ainda se configura como algo complexo, mas já deixou lições para o futuro.


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash por Nick Morrison