4 tipos de desinformação sobre COVID-19

porAldana Vales
Apr 28, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
A verdade do coronavírus

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Quando os primeiros casos de COVID-19 chegaram à América Latina, os checadores de fatos na região já sabiam que seus países não apenas enfrentariam uma doença que atingia centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Com base nos exemplos da China, Europa e Estados Unidos, eles anteciparam que, junto com o coronavírus, chegaria outra preocupação viral: publicações falsas ou maliciosas.

Esse tipo de conteúdo falso é sempre prejudicial, mas quando focado em problemas de saúde, o perigo pode ser ainda maior. Por esse motivo, a Organização Mundial da Saúde se referiu a esse fenômeno como "infodemia", uma pandemia em que o que se espalha não é uma doença, mas as notícias falsas ou maliciosas que aumentam o pânico e a angústia nas redes sociais.

Diante dessa situação, a rede Latam Chequea, criada em 2014 para reunir organizações da região dedicadas à checagem de fatos, começou a trabalhar em colaboração. Liderados pela organização argentina Chequeado, pioneira em fact-checking na América Latina, as diferentes mídias compartilham conteúdo, práticas e desafios para levar rapidamente as melhores informações ao seu público.

[Leia mais: Não só desminta informações erradas: 4 dicas para superar a infodemia de COVID-19]

Como parte do Fórum Global de Reportagem sobre Crise de Saúde do ICFJ, Laura Zommer, diretora de Chequeado, detalhou experiências e lições que esse período está deixando para as diferentes organizações.

Nessas semanas, por exemplo, o LatamChequea Coronavírus desenvolveu uma plataforma onde se pode acessar uma base de diferentes verificações realizadas em 17 países da região, Espanha e Sri Lanka. Jornalistas, autoridades e até o público em geral também podem revisar quais medidas estão sendo tomadas pelos diferentes países da América Latina e, assim, verificar as informações que chegam até elas através das redes sociais ou aplicativos de mensagens.

Além disso, nesse trabalho, o LatamChequea conseguiu identificar quatro tipos de desinformação em redes sociais e outras plataformas digitais, categorias que podem ajudar os jornalistas a abordar a checagem desses conteúdos. Esse tipo de publicação falsa não é típica da região, mas coincide com as que apareceram na Europa e nos Estados Unidos durante a propagação da doença.

Neste artigo, reunimos as quatro categorias mencionadas por Zommer em sua apresentação no fórum do ICFJ:

1. Teorias conspirativas sobre a origem:

Nesse momento, aparecem desde mensagens que afirmam que o vírus foi criado em um laboratório em Wuhan, na China, a outras que garantem que foi um ato de espionagem por dois cientistas chineses no Canadá. Nenhuma dessas teorias é sustentada. "Não há evidências de que tenha sido criado por humanos", disse Zommer.

[Leia mais: O que fazer ou não ao informar sobre coronavírus]

2. Formas de contágio e expansão do vírus:

Interpretações errôneas de estudos científicos levaram à conclusão de que o vírus sobrevive no ar e pode ser contraído abrindo uma janela ou se espalhando pela pele. Zommer lembrou que as evidências até o momento indicam que esse não é o caso. "É importante que, ao reportar sobre essas questões, deixemos de lado as afirmações categóricas e coloquemos em perspectiva que a ciência tem processos que, devido à urgência da pandemia, estão sendo negligenciados", destacou a diretora do Chequeado. Nesse sentido, existem estudos e pesquisas que não seguem as etapas que normalmente teriam, como a revisão por pares. "Os jornalistas não podem ignorar isso", acrescentou.

3. Supostas curas ou tratamentos:

Nesse ponto entram desde curas domésticas quase inocentes, como beber água com limão, gargarejar com água morna ou respirar vapor para matar o vírus, até as supostas invenções de vacinas ou tratamentos. Segundo a OMS, não existem terapias eficazes comprovadas nem vacinas que salvam vidas no momento.

Nesse sentido, Zommer lembrou que os processos de aprovação de vacinas são longos e que precisam passar por sete estágios: três estudos atualmente estão apenas na fase dois.

Ela também alertou sobre um recurso muito comum entre os jornalistas: recorrer a um médico como uma boa fonte para falar sobre esse assunto. A esse respeito, ela recomendou "aquele [médico] que dá segurança levanta dúvidas". "Hoje, devemos gerenciar essa incerteza e dar ao público o máximo de segurança possível, sem forçar os fatos", aconselhou.

4. Falsas medidas ou alcances diferentes oferecidos pelos governos

Decretos governamentais falsos, comparação da situação em diferentes países, sem fornecer o contexto e medidas sociais falsas que prometem sacos de comida. Todas essas situações apareceram na América Latina e se enquadram nessa quarta categoria.

Por exemplo, antes que o governo argentino decretasse o isolamento social obrigatório, circulou um texto falso que gerou o caos, declarando a ordem a partir das 15 horas daquele dia. Na Colômbia, houve mensagens que garantiam que as pessoas receberiam um pagamento por ficar em casa.

Em alguns casos, as organizações descobriram que essas mensagens eram destinadas apenas a roubar dados das pessoas. Mas em outras situações, a intenção pode ser simplesmente criar falsas expectativas para as pessoas que não estão se divertindo nessa crise, disse Zommer.


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Imagem principal cortesia do Chequeado