‘Quando se olha o país como um todo, os resultados da pandemia são ruins’, diz pesquisador da Fiocruz

porMarina Monzillo
Feb 1, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Três leitos vazios destinados para COVID-19

“O Brasil está se tornando o país das oportunidades perdidas: A gente tem o sistema de saúde, mas não o fortaleceu; tem a atenção primária e não a usou no controle da pandemia; tem dados, mas não toma as medidas necessárias baseadas neles”, declarou o pesquisador da Fiocruz Fernando Bozza, durante o webinar “Análise das primeiras 250 mil hospitalizações por COVID-19 no Brasil”, realizado em 28 de janeiro, pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde

Bozza foi convidado a apresentar os resultados do estudo que desenvolveu com outros seis pesquisadores e que analisou uma base pública de notificações de hospitalização, focando nas 250 mil internações ocorridas de fevereiro a agosto de 2020. “Nós procuramos descrever o impacto da COVID-19 especialmente nas populações mais vulneráveis, olhando as macrorregiões brasileiras e os sistemas de saúde”, explicou, ao iniciar a conversa. 

Bozza ressaltou que se tratam de dados públicos e que são poucos os levantamentos com a abrangência nacional dos efeitos da pandemia. “Ao longo do trabalho, fizemos análises sofisticadas do ponto de vista estatístico, mas ao construir a narrativa do trabalho, optamos por retirar grande parte da análise e deixamos os dados, que falam por si.”

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

Alta mortalidade

  • “Quando a gente olha os dados, a primeira coisa que vê é a alta mortalidade que a COVID-19 causa”, disse o pesquisador. Entre as pessoas com casos confirmados de COVID-19 e que precisaram de internação (na rede pública e privada), o número de mortes é de 38%. Na UTI, é praticamente 60%. Entre os que precisaram de intubação, chega a 80%.

  • Segundo Bozza, as estatísticas mostram que, internacionalmente, a COVID-19 é uma doença grave, mas na série brasileira existem características particulares, como afetar uma população não só idosa, mas jovem também. Comparando com outras séries, como a inglesa, a mediana aqui é dez anos mais jovem, em torno de 60 anos. “São 45% de hospitalizados abaixo de 60 anos e a mortalidade entre eles foi significativa. Os jovens são mais afetados no Brasil do que na Europa porque a pirâmide populacional aqui é mais jovem, mas também reflete a extensão da pandemia no país.”

[Leia mais: Escassez de doses e falta de comunicação à população são os atuais problemas relacionados à vacina]

Diferenças regionais

  • Outro achado importante diz respeito às diferenças regionais, tanto do ponto de vista da dinâmica da doença (número de casos, hospitalizações e mortes ao longo do tempo) quanto da mortalidade total. “A pandemia não afetou todas as regiões da mesma maneira. Chegou com um impacto maior nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, e as regiões Centro-Oeste e Sul entraram mais tardiamente, por exemplo”, comentou.  

  • Ele chamou a atenção para a situação da região Norte. “Sob todos os aspectos que se olha, a mortalidade é alarmante”, disse. Entre pessoas abaixo de 39 anos que precisaram de ventilação mecânica por lá, a mortalidade está acima de 70%, mais do que o dobro da região Sul. “Essas diferenças regionais eram esperadas, há uma heterogeneidade enorme de eficiência do sistema de saúde. 

  • As causas são estruturais; há diferenças da quantidade de recursos entre as regiões e na distribuição dentro dessas regiões. “Não é só número de leitos. A gente vê que muito da eficiência é no processo de trabalho: controle de infecção hospitalar, proporção de enfermeira por paciente, médicos especialistas”, falou. 

  • Outro aspecto relevante é a questão social, quando se compara nível socioeconômico e raça. “Um homem negro ou pardo, analfabeto, que mora no Nordeste, tem cinco vezes mais chance de morrer se for hospitalizado do que um homem branco de nível superior, internado no Sul. Essas iniquidades sociais também determinam diferenças de mortalidade.”

Sistema inteligente

  • O pesquisador fez questão de fazer uma defesa do SUS. “A gente só é capaz de fazer esse trabalho porque existe um sistema de saúde, de vigilância e dados disponíveis. Isso nos possibilita ver e analisar os resultados. A questão é usá-los para transformar nosso sistema de saúde em um sistema inteligente.”

  • Bozza avalia que alguns países e mesmo alguns sistemas hospitalares conseguiram aprender alguma coisa com a pandemia, mas que, nacionalmente, o Brasil não conseguiu. “Em grande parte, porque a gente está mergulhado no negacionismo, em uma série de controvérsias fúteis, como tratamento precoce e uso de cloroquina. Quem usou ciência para avançar, melhorou os resultados, por exemplo, nos Estados Unidos e na Inglaterra”. Ele recordou que existe uma série de medidas que não são muito complexas e que funcionam, como oximetria para monitoração dos pacientes em casa, hospitalização precoce em caso de alterações respiratórias e deitar o paciente de bruços para ventilar. “A gente está perdendo a oportunidade de incorporar isso. Estamos rodando atrás do próprio rabo com ações que não tem impacto.” 

Futuro da pandemia 

  • “Estamos olhando para os dados e, provavelmente, na segunda fase os dados não melhoraram, pioraram”, alertou Bozza. “A evolução da pandemia ainda é incerta; as pessoas estão com esperança de que a vacina vai acabar com ela, mas temos novos fatos, como as variantes do vírus que preocupam”. Ele acrescentou que também não há perspectiva clara de que o processo de vacinação no país aconteça como a população gostaria.

  • O estudo de Bozza olhou para a hospitalização aguda, que é 80% motivada por deficiência respiratória, mas ele alertou que a doença não acaba na alta. “Há sequelas, necessidade de reabilitação e consequências na saúde mental. Tem sido mostrado em outros estudos que entre os pacientes que têm alta, até 30% retornam ao hospital nos meses subsequentes. A sobrecarga no sistema de saúde não se dá apenas pela doença aguda, mas também pelos desdobramentos e consequências dela. Temos que começar a estimar o tamanho desse impacto.” 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem da Centro Médico da Polícia Militar em Brasília sob licença CC no Flickr por Paulo H. Carvalho/Agëncia Brasília