A experiência familiar da escrita biográfica

1 oct 2023 dans Temas especializados
Autor livro

De variadas formas, a experiência jornalística ensina a escrever sobre pessoas. Obriga a uma certa distância, oferece modos e maneiras para o estabelecimento do diálogo, solicita que se veja por mais de um ângulo, convida a detalhes internos e externos, isto é, verifica o humor e sente a atmosfera. O jornalismo é uma escola de abordagem humana.

Para um relato biográfico mais extenso, essa prática cotidiana elaborada a partir das pautas e de olho no deadline é de imensa utilidade. Foi ela que me ajudou a enfrentar o desafio de escrever sobre um personagem familiar. Em Bernardo Sayão: caminhos, afetos, cidades (Edição do Autor, 2023), conto histórias sobre meu avô materno, entre a proximidade privada e a atuação pública.

Um dos mitos da fundação de Brasília

Enviado por Getúlio Vargas para comandar a instalação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás (Cang), em 1941, o carioca Sayão (1901-1959) fincou tantas raízes no cerrado que Juscelino Kubitschek não hesitou em convocá-lo em 1956 para tocar a obra de construção de Brasília e, depois, abrir a Belém-Brasília. A morte na construção da rodovia, quando galho amazônico despencou sobre seu corpo viril, transformou o engenheiro em piloti da narrativa sobre o embate entre progresso e natureza no desenvolvimento brasileiro naquele período.

No processo de apuração e redação dos textos-capítulos do livro, sempre me perguntei se estava sendo isento. Logo de cara percebi que isso seria impossível e uma decisão precisava ser tomada: abandonar a empreitada ou encontrar o tom adequado para não cair na hagiografia, pecado dos pecados? Escolhi extrair, em ritmo jornalístico, a excessiva adjetivação e deixar que os outros (personagens lidos e ouvidos, autores citados) falassem tanto ou mais do que o narrador, nem sempre onisciente.

Foto arquivo
Bernardo Sayão com trabalhadores na Belém-Brasília (Arquivo Público do DF)

História pessoal e verdade factual

A tentativa foi dispor de um relato mais interessado do que interesseiro, menos de olho no próprio umbigo autobiográfico e mais conectado no que podia dar certo para o público leitor – ou o leitor público. A chave foi ser sincero a partir do meu resumo biográfico e seguir, em linhas cronologicamente tortas, até o capítulo final, que descreve a relação com a memória visual da morte do pai da minha mãe.

Ao final, o livro parece cumprir esse propósito de juntar autoria assumidamente pessoal com o compromisso em torno da verdade factual. E ambos os polos se deixam contaminar por algo que uma obra assim procura ter: legibilidade. E o conforto da leitura aqui encontra na estética da literatura estratégias para passear entre o entretenimento e o conhecimento.

Entrevistei minha mãe, meus tios, minhas tias e alguns primos. Recuperei a memória de conversas com minha avó. Usei e abusei do seu diário, rico na demarcação da vida privada. Cruzei tudo isso com material precioso deixado por narradores bastante confiáveis: os repórteres e escritores John dos Passos e Antonio Callado, entre eles. A imprensa, aliás, me serviu sua história confeccionada no calor da hora do século 20 e permitiu verificar acontecimentos que não se confirmavam à primeira vista. A hemeroteca da Biblioteca Nacional é avó das narrativas.

Foto arquivo
Bernardo Sayão, Israel Pinheiro e Oscar Niemeyer em inspeção no local onde seria erguido o Palácio da Alvorada (Arquivo Público do DF)

Viagens in loco e fontes confiáveis

Para montar o quebra-cabeça, parti de temas prévios e fui tentando encaixá-los em capítulos-cenas, como quem está obrigado a fazer resenha com tamanho de texto definido e prazo apertado. Sabia de antemão quais seriam muitos deles (morte trágica, longa viagem em 1948, processo administrativo), por conta de estar nessa biografia desde a infância. Descobri outros ao longo do caminho, quando recebi a incumbência da família, e nela inseri alguma literalidade.

 Fiz uma viagem pela Belém-Brasília (até o local da morte). Antes, estive em cidades goianas – Ceres, Rialma, Jaraguá, Anápolis e Goiânia. Fui a Belo Horizonte e ao Rio de Janeiro. A presença física nos lugares é etapa importante do processo. Dá impressões vivas, sugere abordagens, oferece surpresas que viram parágrafos.

Voltar a conversar com fontes também serviu para dirimir dúvidas e colher novas informações. Quer dizer, a repetição não deve ser evitada. Antes, juntei e li tudo o que encontrei sobre Sayão, como maneira de descentralizar as interpretações caseiras e me assegurar com a solidez do texto alheio. Ainda há pilhas de documentos, jornais e livros a serem arrumados na biblioteca. Arquivos de textos foram abertos e nunca concluídos.

Edição do autor

A decisão de fazer "edição do autor" (sem a estrutura e o selo de uma editora) fundamentou-se na urgência de ter o livro pronto no menor prazo possível. Por não ser barato, entretanto, não é o mais recomendado, ainda que permita controle (quase) total sobre o processo. Poupa eventual desgosto com o resultado final, ao mesmo tempo em que dá ao autor toda a responsabilidade sobre o produto. Por isso, convoquei os melhores designer e fotógrafo que conhecia, amigos nessa jornada.

A produção caseira não atrapalha a divulgação. Complica, isso sim, a distribuição. Se não estiver com pressa de ter a obra na mão, aborde as editoras com perfil para publicá-la. Cheguei a conversar com uma, sem acordo sobre o tempo necessário para a finalização. Mas o livro sempre pode ser comprado por uma editora e ganhar segunda edição, revista e atualizada.

As vendas dos primeiros 500 exemplares, por demanda direta e em eventos de lançamento em quatro cidades, permitiram recuperar o dinheiro investido em design e gráfica, mas não zeraram custos relativos ao processo de apuração. Levei quatro anos para fazer o livro, com uma pandemia no meio do caminho. Apurei até o último momento e mesmo depois da obra publicada, porque um lugar se torna comum: a vida não para, antes ou depois de 260 páginas. Agora, é colocar de novo mãos à obra para fazê-la chegar ao maior número possível de leitores. 


Foto: Arquivo pessoal