Disputa de narrativa atrapalha a cobertura brasileira da pandemia

作者 Jade Drummond
Jul 19, 2021 发表在 Reportagem sobre COVID-19
Cumprimento de duas mãos com luvas

Há cerca de um ano e meio, os jornalistas brasileiros se empenham na cobertura da pandemia e os diversos desdobramentos dela. O nível de transmissão e número de óbitos causados pela Covid-19 seguem altos e, mesmo assim, autoridades do país usam o poder de influência para minimizar a situação. Com a vacinação em andamento, é possível ver uma luz no fim do túnel, mas o caminho ainda é longo. 

Para entender quais são os principais aprendizados da cobertura e as perspectivas para o futuro próximo, o Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde convidou Danielle Sanches, repórter do UOL/Viva Bem, Giulia Granchi, também repórter do UOL/Viva Bem, Fred Santana, jornalista responsável do Vocativo.com, e Victor Silva, repórter freelancer, para o webinar “A cobertura da pandemia até agora e os próximos meses”. A conversa aconteceu em 15 de julho.

Diante de tantos desafios impostos aos jornalistas pela doença e pelo contexto brasileiro, como a disputa desigual de narrativa com autoridades, os convidados consideram que o saldo foi positivo para o jornalismo. Mesmo com alguns percalços no caminho, as informações divulgadas pela imprensa sobre a pandemia têm sido consistentes e responsáveis. Leia abaixo alguns destaques da conversa. 

  • Amadurecimento da cobertura: a experiência forçou o amadurecimento da forma de encontrar e interpretar os dados e os estudos científicos, pois qualquer informação equivocada poderia causar muitos danos. 

 

  • Pacto coletivo das vacinas: embora o brasileiro, de forma geral, confie nas vacinas, a imprensa ainda não conseguiu passar efetivamente o entendimento de que o imunizante não é uma proteção individual, mas sim um pacto coletivo.

[Leia mais: Covid 19 - a vacinação de jornalistas no Brasil]

 

  • No Brasil, a crise não é só sanitária: se estivéssemos em um país que vive apenas uma crise sanitária, motivada por um vírus novo, já seria um desafio enorme para o jornalismo. Aqui, enfrentamos uma crise sanitária, política e social ao mesmo tempo, em que não se pode nem confiar em dados oficiais do Ministério da Saúde.

 

  • Insegurança pessoal: a pandemia não afeta apenas a rotina de trabalho. O colapso do sistema de saúde impacta também a vida particular do jornalista. Lidar com essa insegurança pessoal enquanto faz a cobertura jornalística é extremamente complicado. 

 

  • Fatos que fogem do consenso científico: o jornalismo ainda tem dificuldade em lidar com os comportamentos sem embasamento científico. Fazer uma checagem de fatos e apontar que algum tratamento não funciona talvez não seja o suficiente, pois, por exemplo, muitas pessoas ainda usam medicamentos sem eficácia para se proteger da Covid-19. 

 

  • Jornalismo investigativo: uma sugestão para lidar com comportamentos que fogem do esperado é deixar de lado o jornalismo normativo, que briga com o leitor e apenas diz que algo não pode ser feito, e ir atrás dos porquês. Investigar os motivos desses comportamentos pode ajudar o debate. 

 

  • Disputa de narrativa desigual: o jornalista está desde o início da pandemia tentando convencer a população a ter atitudes desagradáveis para se proteger, como usar máscara e se isolar, enquanto pessoas que estão no comando do país falam que se tomar um remedinho pode continuar com a vida normal. Essa é uma disputa de narrativa desigual e o jornalismo sempre estará em desvantagem. 

 

  • Urgências demandam colaboração: contar com o suporte de uma equipe, em que cada um está de olho em um assunto específico da pandemia, foi essencial para lidar com as urgências da cobertura. 

 

  • Excesso de informações novas: um dos grandes desafios da imprensa foi aprender a lidar com a quantidade de estudos publicados sobre a doença ao longo do último ano. Entender a seriedade de cada estudo antes de divulgar foi um aprendizado importante. 

 

  • Negacionismo que se expõe: algumas práticas criminosas não precisaram ser expostas pela imprensa, pois as próprias pessoas colocam a cara a tapa, como grupos de médicos que usam as redes sociais para promover tratamento ineficaz.

[Leia mais: O negacionismo brasileiro - um inimigo no combate à pandemia]

 

  • Corporativismo pró-medicações: a defesa do uso de medicações sem eficácia é feita de forma muito sistemática, muito organizada. Ainda é necessário investigar por que organizações como o Conselho Federal de Medicina (CRM) não se posicionam contra. 

 

  • Ouvir o público: nem sempre a informação que a audiência está buscando é algo que deveria ser prioridade no debate. Mas é a preocupação que existe no momento e deve ser respondida de forma eficiente pela imprensa, para evitar que novos temas sejam pauta de campanhas de desinformação. 

 

  • Cortar o clima de fim da pandemia: as pessoas estão vivendo um clima de normalidade muito precoce e é preciso entender que a pandemia ainda tem um caminho longo pela frente. Não podemos considerar o cenário atual como o novo normal, com o número de óbitos elevado e a qualidade de vida afetada. 

 

  • Impacto do avanço da vacinação nas crianças: falta muito para alcançarmos a imunidade de rebanho e o vírus continuará circulando, então é preciso entender como o avanço da imunização da população adulta afetará as crianças, que ainda não têm vacinação aprovada. 

 

  • Medicação pós-covid: a narrativa do uso de medicamentos sem eficácia deve continuar em alta nos próximos meses. Uma novidade é a estratégia de indicação desses tratamentos para pessoas que têm efeitos longos da infecção de Covid-19, o pós-Covid. 

 

  • Formas de lidar com a pandemia: as pessoas estão criando mecanismos para lidar com a insegurança e uma realidade em que ainda morrem 1.600 pessoas ao dia de Covid-19. Um desses mecanismos é tomar remédio que não funciona. Provavelmente inventarão outros, é preciso investigar. 

 

Foto: Branimir Balogović em Unsplash