Mulheres jornalistas são maioria entre vítimas de ataques públicos

Автор Marina Souza
Jun 5, 2022 в Segurança Digital e Física
Mulher com a boca tampada por um homem

Uma mulher jornalista foi agredida a cada três dias, em 2021, no Brasil. Neste período, foram notificados 119 ataques às profissionais, o que significa 91,3% dos casos contra jornalistas. Repórteres ou analistas dos meios de comunicação foram as mais atacadas (85,7%), sendo 95% dos agressores do gênero masculino. Os dados foram revelados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), através do relatório Violência de gênero contra jornalistas.

Agentes estatais como agressores 

A pesquisa mostra que 60% das agressões foram motivadas pela cobertura política, e em 52% dos casos, os agressores eram agentes estatais. Os maiores autores de ataques estão ligados ao governo, e são eles: Jair Bolsonaro, Carlos Jordy, Carlos Bolsonaro, Tercio Arnaud Tomaz, Eduardo Bolsonaro e Rodrigo Constantino. O monitoramento informa que 69% dos ataques com mais de um agressor, iniciaram por autoridades e funcionários estatais e foram espalhados na internet por apoiadores do governo. A maioria das agressões (68%) originou no meio digital. O relatório afirma a existência de uma organização articulada entre a base do governo e apoiadores na disseminação massiva dos ataques, utilizando ainda de trolls e robôs.

Foram classificadas como violência de gênero 38% dos casos, que segundo a pesquisa, incluem ataques à moral e a reputação das jornalistas, no qual o agressor utiliza da sexualidade ou da identidade de gênero para atacar a vítima. Esses casos incluem narrativas sobre supostos casos extraconjugais e o uso de palavras como “vagabunda”, “puta” e “fofoqueira” para desqualificar a credibilidade da jornalista e desviar o foco da notícia. Além das agressões de gênero, o relatório aponta que as táticas variam entre acusações de viés político e de má conduta profissional. São, ainda, utilizadas provocações de caráter sexista como “louca”, “mentirosa” e que questionam a capacidade intelectual, como “burra”, “idiota” e “imbecil”, somada às provocações de caráter ideológico, como “militante”, “jornazista, “comunista” e “esquerdista”.

Para Leticia Kleim, assistente jurídica da Abraji, a participação massiva de agentes do governo nas agressões é um traço comum de governos autoritários. “Na tentativa de minar as estruturas democráticas desde dentro do poder, a imprensa é eleita como um de seus inimigos", explica Kleim. "Isso é feito principalmente mobilizando a opinião pública contra o trabalho da imprensa, se aproveitando de um sentimento compartilhado de desconfiança nas instituições para propagar a violência contra jornalistas e comunicadores”. Para Kleim, estamos muito atrasados na proteção legislativa e de políticas públicas que detenha os ataques. “Os casos acabam sendo acolhidos pelas organizações da sociedade civil, que tem uma preocupação crescente com este problema, e alguns pelas empresas jornalísticas, quando há uma estrutura preparada para isso”.

Desgaste emocional 

A jornalista Gabi Coelho já foi vítima de ataques. Ela afirma que, principalmente mulheres negras que trabalham com política e com a checagem dos fatos, enfrentam um cenário de agressões que aumentou em 2018 e se intensificou em 2022. “Para me proteger, eu sempre tive o amparo da minha rede de apoio desde o primeiro ataque, que foi físico", conta Coelho. "Essa rede de apoio é a própria Abraji, as instituições que defendem os jornalistas e as redes sociais. Tenho o Twitter como uma forma de me proteger, de acionar a rede diretamente quando eu sofro algum ataque na rede social”.

Coelho mantém o seu Instagram fechado e cria estratégias de segurança digital fazendo cursos de proteção dados, além de cursos de segurança física. Apesar da importância da rede de apoio, a jornalista acredita que as redes sociais precisam levar os casos de agressão mais a sério e desenvolver ações para prevenir os ataques, além de apresentarem punições mais exemplares.

O último caso de ataque aconteceu quanto Gabi apurou uma matéria que envolvia o governo de Jair Bolsonaro. “A matéria saiu numa sexta-feira à noite e eu precisei entrar em contato com um simpatizante do Bolsonaro que estava disseminando uma desinformação, mas ele não me respondeu", conta Coelho.

"A matéria saiu sem resposta.Quando foi publicada, ele me bloqueou em todas as redes e fez uma série de ataques para eu não ver, com vários perfis postando fotos minhas". A jornalista diz que os ataques foram bem estratégicos, já que a matéria foi veiculada na noite de uma sexta, mas eles começaram os ataques às duas da manhã do sábado. "Eram ataques racistas e sexistas descredibilizando o meu trabalho. Foi uma ação muito pesada que me desgastou muito emocionalmente”. 

Estratégias para conter a violência 

O relatório Abraji/Unesco apresenta algumas alternativas para conter as agressões e proteger as jornalistas. Entre elas está a criação de canais de denúncia e de suporte jurídico pelas organizações jornalísticas, além do treinamento da equipe em segurança digital. Sugere, ainda, que as plataformas digitais invistam na moderação de conteúdos e em funcionários com treinamento em igualdade de gênero e direitos humanos, que definam procedimentos mais eficazes para detectar, penalizar os infratores e inibir novos casos.

Em relação ao poder estatal, o estudo propõe que parlamentares criem uma legislação mais eficiente quanto a punibilidade da violência nas plataformas digitais e aperfeiçoem políticas de proteção para jornalistas, a partir da perspectiva da violência de gênero. A pesquisa recomenda que jornalistas tomem algumas precauções, como usar ferramentas de trabalho seguras e encriptadas, criar contas pessoais e profissionais separadas, apagar informações pessoais em sites e reportar os ataques à sua organização e à polícia.


Foto: Canva