Yoani Sánchez: ‘Tecnologia é um aliado incrível para o jornalismo independente em Cuba'

por Ashley Nguyen
Nov 11, 2015 em Empreendedorismo de mídia

Você pode conhecer parte da história de Yoani Sánchez, mas a jornalista cubana ainda está trabalhando para seu futuro e o futuro dos meios de comunicação independentes em Cuba.

A vencedora do Prêmio Knight de Jornalismo Internacional fez um nome para si mesma quando começou um blog pessoal em 2007 chamado Generación Y (Geração Y). Os posts detalhados da vida de Yoani na ilha -- que abrigava apenas veículos de comunicação estatais -- chamaram muita atenção de pessoas fora de Cuba. Mais importante ainda, Yoani trabalhou arduamente para garantir que compatriotas pudessem ler o Generación Y também.

Com ajuda, ela contornou a censura do governo através da distribuição de PDFs de seus posts em drives de USB. Como o acesso à Internet era -- e ainda é -- limitado em Cuba, os leitores dentro do país conseguiam acessar o Generación Y através de proxies. Para publicar suas mensagens, Yoani tinha que enviar o texto do blog para amigos fora da ilha através de e-mail e tuitar usando Tweetymail e SMS.

Apesar destes obstáculos, Yoani decidiu expandir além de seu blog. Em maio de 2014, ela lançou14ymedio, a primeira plataforma de notícias independente de Cuba, com o apoio de um pequeno grupo de investidores. Embora a maior parte das reportagens do 14ymedio seja feita dentro de Cuba, a startup está registrada na Espanha e tem colaboradores em Madrid, México, Miami e Havana. É publicado em espanhol e Inglês, por isso, os cubanos que deixaram o país quando pequenos -- e as futuras gerações -- podem aprender mais sobre sua terra natal.

O 14ymedio evita qualquer financiamento de governos ou grupos políticos, e continua a construir um negócio sustentável, com publicidade, parcerias e eventos. Uma campanha de crowdfunding e modelo de associação também estão em andamento.

Para distribuir conteúdo dentro de Cuba, o 14ymedio ainda depende de proxies e thumbdrives, mas também consegue enviar e-mail boletins somente de texto para cerca de 2 milhões de usuários do serviço de e-mail local do país. Além disso, como Cuba e os Estados Unidos começaram a reconstruir os laços, a conectividade com a Internet melhorou ligeiramente. Desde julho de 2015, o governo cubano abriu 35 novos pontos de acesso WiFi, mas muitos sites, incluindo 14ymedio, ainda são censurados. O preço também é um problema: Uma hora de conectividade a estes hotspots custa US$2,50 (CUC2,50).

Essas mudanças "foram como uma gota de água num oceano de necessidade", disse Yoani para a IJNet.

A mídia cubana continua a ser um mar de jornais administrados pelo governo, TV e estações de rádio. Com o 14ymedio, Yoani pretende forjar um caminho para outros meios de comunicação independentes florescerem em Cuba. Até agora, sua plataforma de notícias continua a ser a única voz independente no país. Quando o Secretário de Estado dos EUA John Kerry visitou Havana, somente o 14ymedio foi convidado para uma conferência de imprensa a portas fechadas.

A IJNet conversou com Yoani sobre como ela treina os jornalistas do 14ymedio e seu conselho para repórteres em ambientes repressivos.

IJNet: Muitos dos jornalistas do 14ymedio não são repórteres treinados. Agora que Cuba tornou-se mais aberta, você ainda emprega estes tipos de jornalistas ou repórteres treinados profissionalmente estão se aproximando de você para trabalhar no 14ymedio?

Yoani Sánchez: Minha experiência com os jornalistas que se formaram a partir do sistema é que eles já estão naquele quadrado de censura.

Tem sido mais fácil para mim treinar jornalistas que não eram jornalistas do que trazer os jornalistas que foram treinados como jornalistas a sair dessa mentalidade de censura.

A ideia de formação é um dos nossos pilares no 14ymedio. Não só a formação para a nossa equipe: o jornalismo independente em Cuba precisa melhorar e profissionalizar. Ele precisa separar a denúncia da informação e o ativismo do jornalismo.

Por muitos anos, na ausência de uma imprensa independente, o jornalista teve de assumir um monte de papéis: O ativista, líder da oposição, o jornalista, a figura política -- tudo isso em um balde. O momento é agora começar a diferenciar isso.

Que tipos de coisas você está ensinando a pessoas que se juntam ao 14ymedio como jornalistas?

Em primeiro lugar, a observação. É incrível, porque quando você vive por muitos anos dentro de uma realidade, realmente não vê mais. O que eu estou tentando ensinar é que quando saem na rua, mesmo com toda a experiência que vivem neste país, [vejam Cuba] através dos olhos de alguém que nunca tenha vivido lá.

Eu também estou ensinando-os a não aceitar um "não". Vivemos em um país onde as instituições e os poderes não são acostumados ​a dar informações aos seus cidadãos. Toda vez que você pergunta sobre estatísticas ou dados sobre o país, a resposta é sempre não. Eu estou ensinando-lhes a não ficarem paralisados e buscar essa informação, apesar do muro de incógnitas. Digo que a tecnologia é um aliado incrível para o jornalismo independente em Cuba.

Acima de tudo, o que eu estou tentando ensinar é que podemos fazer jornalismo sobre os poderosos sem fazer ataques pessoais a indivíduos ou violência verbal.

Desde que estou no mundo do jornalismo digital, também estou ensinando que é melhor dar a notícia tarde do que entregar a notícia de forma incorreta. O jornalismo moderno do dia está sendo prejudicado tremendamente por esta ideia.

Queremos fazer textos que tenham uma vida mais longa e com o qual gastamos mais tempo, mesmo se estamos atualizando menos nossa homepage.

Que dicas você daria para jornalistas que trabalham em ambientes repressivas?

Proteja sua vida privada. Quando você tem alguém trabalhando em um ambiente repressivo, não se trata apenas de repressão e ser mandado para a prisão. Muita dor vai para a família e as pessoas que você ama.

Eu recomendaria também não se deixar ser empurrado pelos poderosos e produzir jornalismo baseado em ressentimento. A maioria desses regimes provoca esta ação, onde o jornalista só está narrando o mau e não deve ser assim. Outra dica importante é não ter nada a esconder: Nem mesmo os programas de criptografia mais sofisticadas podem esconder informações de regimes autoritários, então aprenda a viver em um castelo de vidro, onde podem ver tudo.

Imagem principal por Ashley Nguyen