Separando a ficção dos fatos em reportagens narrativas

porJames Breiner
Jun 3, 2014 em Jornalismo básico

Para uma aula sobre técnicas narrativas aqui no México, eu estava à procura de exemplos do tipo de escrita que você encontra no New Yorker. A revista Gatopardo tem essa reputação.

Foi lá que encontrei a história de "Um traficante sem sorte" ("Un narco sin suerte") por Alejandro Almazan e imediatamente me interessei. Ele conta a história de JR, um cantor de corridos, canções tradicionais que contam histórias de heróis e vilões baseados em pessoas reais e eventos.

JR e sua família vivem uma vida tranquila nas montanhas quando ele ouve sobre as fortunas que estão sendo feitas no comércio ilegal de drogas por pessoas em Culiacan, no noroeste do México. Ele decide que quer fazer parte disso. Mas toda a sua tentativa falha por razões que são às vezes hilariantes e às vezes assustadoras.

A história é perfeita em todos os detalhes. Tão perfeita, na verdade, que eu me perguntei se era realmente jornalismo ou ficção. A revista deu-lhe um rótulo jornalístico: "reportagem", o que definitivamente não é ficção.

O engano da perfeição

Como repórter e editor, eu aprendi a desconfiar das histórias que são perfeitas em todos os detalhes: quando as pessoas se encaixam num estereótipo perfeito, quando as histórias se desenrolam em uma sequência dramática perfeita, quando os personagens sempre pronunciam a frase perfeita.

As pessoas adoram repetir esses tipos de histórias e eu passei muitas horas como repórter tentando verificá-las. Você nunca consegue encontrar qualquer uma das pessoas envolvidas, porque elas só existem naquele mundo perfeito. Essas histórias são chamadas lendas urbanas.

Então eu perguntei a alguns dos meus amigos mexicanos, você conhece o jornalista Almazan? Será que ele tem uma boa reputação? Ele é crível? Pela primeira vez que eu ouvi o termo "jornalismo infrarrealístico" e eu li o manifesto do movimento por Diego Enrique Osorno. Ele compartilha muitas características com o New Journalism de Tom Wolfe. Aprendi também em um artigo de Jorge Tirzo sobre o debate se existe uma nova onda do jornalismo narrativo na América Latina.

A pergunta indelicada

Eu decidi que tinha de entrevistar Almazan e perguntar a ele descaradamente: Você inventou alguma coisa do nada ?

Encontrei sua conta no Twitter, enviei uma mensagem a ele e descobri que nós dois iríamos participar de um evento apropriado, uma apresentação sobre ética jornalística patrocinada pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano. Almazan estava em um painel. Ele ganhou um prêmio da fundação](http://mexico.cnn.com/entretenimiento/2013/11/20/el-mexicano-alejandro-almazan-gana-el-premio-garcia-marquez-de-periodismo) no ano anterior.

Após o evento, fui até ele e fiz a pergunta indelicada. JR era um aspirante a traficante, uma pessoa real ou um composto de várias pessoas? Os eventos aconteceram exatamente como você retratou em sua matéria? Ou você acrescentou um pouco de tempero? Almazan foi gentil e disse que ele estava acostumado a esse tipo de perguntas.

'Você tem que perguntar'

Para ele, a verdade está nos detalhes e trabalho do repórter é reunir esses detalhes.

"Meu jornalismo não é diferente de qualquer outra pessoa", disse ele. "Eu vou para as ruas e faço perguntas. Pergunto e pergunto. A perfeição vem de perguntar e perguntar."

"Todos nós temos uma história para contar. Se eu lhe perguntar sobre seus óculos, certamente há uma história aí. Se eu lhe perguntar sobre o seu casaco, tem uma história. Seu anel tem uma história. Eu sou um questionador implacável e eu vou continuar a fazer perguntas."

"Você tem que mostrar ao leitor que sabe tudo. Ao incluir esses pequenos detalhes, você torna a sua história crível."

"A história é uma interpretação da realidade. Você e eu temos uma interpretação diferente. Nós poderíamos contar a história do que está acontecendo nesta sala, e sua história e a minha seriam diferentes."

A consciência de um jornalista

"Meu primeiro dever é comigo mesmo e está em dizer a verdade. Minha verdade. A interpretação do que eu vi. Outro dever é com as pessoas com quem falei. Eu não posso trair ou distorcer a sua história, porque no final eles vão ler. O que eu tento fazer é ser suficientemente honesto."

Almazan foi criticado por usar fontes anônimas ou alterar nomes de pessoas. Ele faz isso para proteger suas vidas, disse ele. Algumas das suas fontes foram mortas porque foram citadas em suas reportagens.

"Isso já aconteceu comigo. Essas mortes vão ficar comigo o resto da minha vida. Eu não quero mais elas me perseguindo."

Quando seus editores ou seus críticos lhe perguntam sobre uma fonte anônima, ele convida a pessoa a ligar para a fonte para verificar os fatos ou a ir com ele e ver os lugares que ele descreveu em suas histórias com seus próprios olhos.

Conexões com El Chapo

No caso de JR, que tinha laços com o traficante Chapo Guzman, o cantor sem sorte pediu a Almazan para não usar seu nome verdadeiro. Ele temia ser morto por uma gangue rival. Almazan me disse o nome verdadeiro de JR e disse para procurar suas músicas no YouTube. Eu posso dizer que elas existem.

Então, eu perguntei a Almazan se ele achava que se eu usasse o nome verdadeiro de JR teria problema. Ele disse que provavelmente não, porque o cantor tinha se mudado para outra cidade e os eventos ocorreram há quatro anos. Mas ele não tinha pedido permissão do cantor para usar seu nome verdadeiro. Eu decidi não usá-lo aqui.

Almazan já publicou vários livros de jornalismo, entre eles, ("Chicas Kaláshnikov y otras crónicas") e um romance baseado na vida de Chapo Guzman, ("El más buscado").

O desafio de escrever ficção

Uma editora se aproximou dele com a ideia de escrever uma biografia de Chapo, mas Almazan recusou.

"A vida de Chapo é cercada por lendas urbanas", explicou. É impossível hoje resolver o que é verdade e o que foi inventado. "Jornalisticamente eu não poderia escrever uma biografia de Chapo. Se eu dissesse que esta é a vida de Chapo Guzman, eu estaria mentindo. Então eu decidi escrever um romance baseado nessas lendas urbanas."

Leva muito mais tempo e esforço para escrever ficção. "Para mim, a realidade é melhor do que a ficção. Eu não tenho a capacidade de inventar tantas coisas estúpidas."

O maravilhoso

A realidade diária tem bastante coisas incríveis, disse ele, que os jornalistas não precisam ir "em busca de Macondo", a cidade imaginária do escritor Garcia Marquez. "O fantástico está lá fora, nas ruas. Da literatura precisamos roubar tudo, menos a ficção."

Ao final da entrevista, Almazan tinha convencido este cético.

Parece oportuno mencionar que dois gigantes do jornalismo na América Latina, o mesmo Garcia Marquez e Ryszard Kapuscinski, também têm sido alvo de críticas que questionam a veracidade de seu trabalho. A sugestão é que eles manipularam fatos para criar histórias mais perfeitas.

A resposta encontra-se nos comentários de Garcia Marquez a uma aula de jornalismo no jornal El Pais, na Espanha, em 1995. Suas palavras foram gravadas por Jan Martínez Ahrens e são traduzidas aqui:

"Uma história exige um narrador que se baseia na realidade. E é aí que a ética entra. Na profissão do jornalismo, há dois requisitos: O jornalista tem que tornar a história crível e ele tem que saber em sua consciência que o que ele escreve é a verdade. Quem cede à tentação e à mentira, mesmo que seja sobre a cor dos olhos de alguém, trai a profissão."

Este artigo apareceu originalmente no blog News Entrepreneurs e é publicado na JNet com permissão do autor.

James Breiner é consultor em jornalismo online e liderança. Foi co-diretor do Global Business Journalism Program na Universidade Tsinghua e bolsista do programa Knight International Journalism Fellow, tendo lançado e dirigido o Centro de Periodismo Digital na Universidade de Guadalajara. Ele fala espanhol e inglês. Siga-o no Twitter.

Imagem sob licença CC no Flickr via MTSOfan