Retomada das atividades requer cautela, dizem especialistas

porFhoutine Marie
Jul 8, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
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Após mais de 100 dias de paralisação de atividades não-essenciais para tentar o avanço do novo coronavírus, os Estados mais populosos da Federação ― Rio de Janeiro e São Paulo ― começaram o processo de reabertura gradual de alguns setores da economia. Apesar da animação que a volta à vida normal pode provocar inicialmente, os especialistas advertem que é preciso não abrir mão dos cuidados para evitar uma nova onda de casos da doença, já que o número de pessoas contaminadas permanece alto no país. 

O assunto foi tema do quarto webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, realizado em 7 de junho. O professor da Unicamp, Hyun Mo Yang, e do doutorando Luis Pedro Lombardi Junior, que desenvolvem um estudo sobre os efeitos do isolamento na propagação da COVID-19, falaram sobre cenários possíveis a partir da liberação de funcionamento de bares e restaurantes nas maiores capitais do país. “Essa liberação precisa ser gradual e bem coordenada. Para isso nós precisamos saber a situação epidemiológica, quantos estão carregando o vírus assintomáticos, aqueles que não se sabem que têm vírus e que vão transmitir”, recomenda Yang.

De acordo com o modelo matemático utilizado por eles na pesquisa, o pico da doença em São Paulo ocorreu em 26 de junho. Porém, para que a liberação ocorra com mais segurança é necessário ter cautela e manter espaços de 14 a 21 dias entre as etapas da retomada. “Aumentar o número de casos com a flexibilização vai, mas isso precisa ser feita de forma controlada para que o sistema de saúde consiga atender todo mundo”, diz Lombardi Junior. Ele acrescenta que para conter um novo surto é fundamental manter proteções individuais, como uso de máscara e distanciamento social. “Se a gente começar a relaxar essas proteções vai explodir o número de casos de novo”, alerta. 

Veja a seguir os principais trechos da conversa:

Sobre a necessidade de fazer uma abertura gradual

  • “O que a gente tem que entender é o seguinte: sempre que a gente faz uma liberação, a gente vai ter um leve acréscimo de casos graves, porque você está colocando uma nova leva de pessoas suscetíveis em circulação para serem infectadas. Em geral, quanto mais a gente consegue esperar pra começar essa liberação, menos a gente vê aquela subida brusca dos casos”, diz Lombardi Junior. 

  • Ele acrescenta que esse cuidado é importante para não sobrecarregar o sistema de saúde, o que acarretaria o aumento do número de mortes. “Quando essa flexibilização é feita de forma gradativa vai sim ocorrer um aumento do número de casos, mas o sistema de saúde vai dar conta de atender todo mundo. Se a gente deixa estourar a epidemia e o sistema não dá conta de atender todo mundo, você vai ter mais óbitos por conta de falta de atendimento.”

  • Eles enfatizam a importância de espaçar as fases de reabertura para evitar o que já ocorreu em algumas cidades brasileiras, como Porto Alegre e Belo Horizonte, que retomaram as atividades e tiveram que voltar atrás após novos picos de casos. “Se você faz uma liberação muito próxima da outra é como se você estivesse fazendo as duas coisas juntas, aumenta muito os casos”, diz Lombardi Junior. “Se você flexibiliza ou restringe precisa de dez dias para ver como isso está afetando nos casos e 15 dias para entender como está afetando nos óbitos. A gente precisa desse intervalo para ver o efeito daquela medida.”  

Perigo de uma segunda onda de contaminações

  • Sobre o momento de abertura, Yang diz que o ideal seria esperar que a curva de contágio reduzisse drasticamente. Se isso não for possível, é preciso estar atento para que os novos casos se mantenham sob controle. “A nossa proposta é evitar que os profissionais e o sistema de saúde entrem em colapso se houver necessidade de liberação, claro.”

  • O professor explica que caso a liberação tivesse ocorrido antes estaríamos vivendo uma situação ainda mais grave. “Se a liberação começar antes do pico da epidemia nós temos casos mais sérios; se a liberação ocorrer após o pico da epidemia não seria uma nova onda e sim seria a retomada da epidemia original. A epidemia original tá ali atrás, pronta pra voltar, não está voltando porque tem intervenção.”

  • Contudo, os pesquisadores não recomendam o lockdown para um país com a pandemia já avançada. Essa estratégia no meio da pandemia é perigosa pois expõe ao risco quem já estava em isolamento, especialmente os idosos. “Lockdown é importantíssimo no início, para que o vírus deixe de circular e para que as autoridades consigam acompanhar caso a caso”, explica Yang.

Bons exemplos de outros países

  • “Os países asiáticos fizeram o lockdown logo no início e por causa disso a epidemia não se propagou tanto”, diz Yang. O professor destaca que aspectos culturais, como a maior predisposição das populações desses países a seguir as recomendações das autoridades sanitárias também fez a diferença no êxito desses países em controlar a disseminação do vírus.

  • Yang cita o caso da Espanha como exemplo de boa estratégia de reabertura. “O caso da Espanha está sendo bem feito por vários motivos... Quando eles chegaram nas fases de maior liberação, o que nós observamos é que o número de novos casos estava quase no platô e o número de novos casos era muito baixo... No fim da primeira onda de epidemia a Espanha teria mais ou menos 16% de pessoas imunes (que passaram pela infecção ou assintomáticos). O lockdown que eles estão promovendo agora não é pro país, mas para as regiões onde estão surgindo novos casos.”


Fhoutine Marie é jornalista e cientista política. Paraense radicada em São Paulo, trabalha como jornalista e pesquisadora freelancer com foco nas áreas de gênero, raça e movimentos sociais. Twitter: @DraFufu

Imagem sob licença CC no Unsplash via Edwin Hooper