Repórteres usam ferramentas inovadoras para documentar a vida nas maiores favelas do mundo

porAuguste Yung
May 4, 2017 em Jornalismo digital

À primeira vista, você pode pensar que um projeto de jornalismo multimídia de longa duração produzido em seis cidades e três continentes deve ter gasto recursos significativos para ser concluído.

No entanto, o projeto Slumscapes, que leva os leitores dentro de alguns dos bairros mais pobres do mundo, demonstra como os repórteres podem contar histórias inovadoras com novas tecnologias, com um orçamento limitado.

Conversamos com dois jornalistas que trabalharam na equipe de 25 pessoas por trás do projeto, Jacopo Ottaviani, bolsista Knight do ICFJ, e Johnny Millerbolsista do Code for Africa

O Slumscapes, uma colaboração da Fundação Thomson Reuters com o Code for Africa, explorou favelas como a Ciudad Neza da Cidade do México, o distrito de Dharavi em Mumbai e a favela de Nairóbi em Kibera, através de fotografia com drone, gráficos interativos, mapas e outros elementos. A reportagem oferece aos leitores um olhar aprofundado sobre a vida cotidiana em áreas destruídas, graças às inovações tecnológicas que capacitam os jornalistas a fazerem mais com menos.

"Você pode fazer muito mais com muito menos gente e muito menos dinheiro do que poderia 10 ou 20 anos atrás", disse Miller, que foi responsável por todas as imagens aéreas do drone.

Ottaviani, que produziu os gráficos interativos do Slumscape, disse à IJNet que muitas das ferramentas que eles usaram para criar o modelo e o conteúdo do projeto contornavam a necessidade de contratar desenvolvedores de web caros.

Duas ferramentas em particular permitiram que economizassem dinheiro e tempo: Shorthandum criador de modelos e o StoryMapJS, um gerador de mapas interativo que lhes permitiu criar mapas detalhados dos assentamentos, como visto neste perfil de Kibera.

"O bom com essas ferramentas é que você não precisa de habilidades de codificação", disse Ottaviani. "Você não precisa ser um desenvolvedor. Essas ferramentas de fácil utilização podem ser usadas por qualquer pessoa que tenha os dados."

Miller acrescentou que em uma escala de dificuldade -- com 1 sendo o mais fácil e 10 o mais difícil -- ele classificaria essas ferramentas como nível 2. "Não é tão difícil quanto o WordPress", disse ele.

O Slumscapes também foi capaz de fazer mais com menos por causa da estrutura narrativa da história. Ottaviani explicou que os componentes individuais do Slumscapes podem ficar sozinhos e funcionar juntos como uma única matéria longa. Por causa de sua estrutura, o conteúdo pode chegar a um público mais amplo do que poderia se publicado apenas como um vídeo tradicional ou reportagem narrativa.

Promovendo inovação

Apesar de abraçar ferramentas de jornalismo inovadoras e de baixo custo, tanto Ottaviani quanto Miller disseram reconhecer por que algumas redações hesitam em começar a experimentar novas formas de contar histórias.

"Às vezes é uma questão de literacia tecnológica", disse Ottaviani. "[Editores] acreditam que essas tecnologias são muito caras, enquanto seus orçamentos estão encolhendo. Mas investimentos inteligentes em tecnologia e dados podem ser uma forma muito eficiente de gastar dinheiro."

"Quando um editor de mídia tradicional introduz uma ferramenta que alguns jornalistas mais velhos não podem usar, ele basicamente ameaça o status quo", acrescentou.

Ottaviani aconselhou os repórteres a serem sensíveis às restrições impostas a um editor. "O confronto cultural é parte do jogo e é por isso que você precisa ser um bom diplomata para convencer os editores a implantarem essas tecnologias", disse ele.

Outra questão que os jornalistas devem considerar é o debate ético em andamento sobre essas novas tecnologias, especialmente os drones. Miller disse que entende por que algumas redações ficam relutantes em começar a usar drones, dado o potencial de uso indevido ou acidentes.

"Drones agora estão ficando menores e mais leves, mas ainda assim eles podem ferir alguém se caírem sobre eles, e podem definitivamente sobrevoar em frente da janela do quarto [de alguém] se você fosse inescrupuloso", disse ele. "Há um certo grau de confiança que você coloca em uma pessoa como eu para sair e me dar dinheiro para voltar com filmagens aéreas."

Miller foi inspirado pela primeira vez a usar drones para fotografar áreas de baixa renda depois que ele fez aulas de planejamento espacial na Universidade da Cidade do Cabo. Sua primeira série de fotografia de drone, "Unequal Scenes", mostrou a divisão entre bairros ricos e distritos mais pobres em cidades sul-africanas.

Miller e Ottaviani planejam continuar usando fotografia de drone e multimídia para criar matérias de formato longo e inovadoras sobre tópicos como assentamento de terra, desmatamento e incêndios de barracas. Ambos dizem que é um momento particularmente emocionante para trabalhar no jornalismo. O ritmo da inovação nos meios de comunicação significa que há "mais conteúdo, conteúdo mais variado e mais veículos para divulgar o conteúdo", disse Miller. "Eu acho que isso é excitante."

Jacopo Ottaviani é jornalista e cientista de computação, especializado em projetos de jornalismo de dados transfronteiriços e visualização de dados. Saiba mais sobre seu trabalho como bolsista Knight do ICFJ aqui.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Ars Electronica. Vídeo cortesia da Fundação Thomson Reuters.