Recursos para jornalistas que cobrem massacres

porSam Berkhead
Mar 14 em Temas especializados
Memorial

A violência armada é um problema inevitável em países ao redor do mundo. Massacres -- ataques com múltiplas vítimas -- podem aflingir desproporcionalmente os Estados Unidos, mas eles ocorrem em toda parte, de Paris ao Paquistão [e recentemente no Brasil e Nova Zelândia].

Em um exemplo notório, em meio ao tiroteio durante um protesto contra a brutalidade policial em Dallas, o Departamento de Polícia de Dallas tuitou uma foto do presumível suspeito. "Este é um dos nossos suspeitos. Por favor, ajude-nos a encontrá-lo!", disse o tuite (veja abaixo).

O único problema? O homem na foto, Mark Hughes, era inocente. Mark Hughes, irmão do organizador do movimento "Black Lives Matter", Cory Hughes, estava protestando pacificamente ao lado de companheiros manifestantes quando os tiros foram disparados.

No entanto, o departamento de polícia deixou o tuite no ar por 17 horas e este foi retuitado mais de 40.000 vezes. Enquanto muitos usuários do Twitter e jornalistas apontaram a imprecisão do tuite, o advogado de Hughes disse que os dois irmãos receberam "milhares de ameaças de morte" como resultado.

O que poderia ter sido feito melhor? Como os jornalistas podem informar sobre este problema, mantendo-se seguros, respeitando as vítimas e evitando outros erros éticos? Reunimos algumas dicas e recursos de toda a web para informar sobre este tema:

Seja cauteloso ao dar notícias urgentes 

Todo jornalista é dirigido por prazos. E em uma situação como um tiroteio em massa em que notícias se desenrolam a uma velocidade vertiginosa, pode ser tentador repetir as reportagens de colegas de agências de notícias e dar a notícia o mais rápido possível. No entanto, isso pode levar a proliferar rapidamente inverdades potencialmente danosas, disse Bruce Shapiro, diretor executivo do Centro Dart para Jornalismo e Trauma na Faculdade de Pós-Graduação de Jornalismo da Universidade de Columbia.

"Tenha cuidado em sair correndo com informações ou rumores da mídia social não confirmados ou adiantados, que acabam sendo imprecisos ou propagam boatos", Shapiro disse à Newsweek.

Breaking News Consumer’s Handbook, um guia criado por Alex Goldman para a NPR On the Media, oferece nove diretrizes simples para seguir ao reportar em situações em desenvolvimento.

E como vimos no exemplo acima, é crucial pensar duas vezes antes de retuitar.

Selecione seus especialistas

Ao procurar fontes externas para comentar o assunto, muito cuidado com os autoproclamados especialistas que "estão morrendo de vontade de ser úteis", Steven Gorelick, professor de estudos de mídia na Hunter College da CUNY, disse após o massacre da Virginia Tech em 2007. "Especialistas sérios são quase sempre rápidos em admitir que não há uma explicação fácil sobre o porquê e como algo aconteceu, especialmente antes mesmo das informações mais básicas serem divulgadas."

É uma boa ideia examinar várias fontes e verificar rapidamente suas qualificações antes de publicar uma  citação. Expertise Finder pode ser um lugar útil para começar. Você também pode perguntar a fontes policiais ou da justiça penal local para ver quem eles recomendam. Fontes que desejam manter o anonimato devem ser evitadas quando possível.

Entenda o risco de propagar imitadores 

"Para reduzir imitadores e glamorização, os repórteres têm uma responsabilidade especial de retratar com precisão e exatidão a perturbação destes autores e evitar escrupulosamente a linguagem ou imagens que podem romantizar suas ações", escreveram Shapiro e Dr. Frank Ochberg no site do Centro Dart.

Mesmo se massacres não se correlacionam diretamente a ataques de imitadores, muitos atiradores divulgam declarações e manifestos pessoais descrevenco as razões para seus ataques. É importante usar de bom senso e cautela ao cobrir essas declarações.

Quando a ABC News adquiriu o manifesto do atirador dos assassinatos de jornalistas em Roanoke, Virginia, a emissora escolheu publicar apenas trechos do texto. Em outro caso, no ano passado, a revista Mother Jones e alguns outros meios publicaram o manifesto inteiro de 2.000 palavras escritas pelo atirador que matou nove em uma igreja em Charleston, na Carolina do Sul.

Alguns chegam a argumentar que os jornalistas devem evitar publicar o nome de atiradores como um meio de restringir a notoriedade que tantas vezes eles buscam. Isso certamente aconteceu após o tiroteio no clube noturno Pulse em Orlando, com o diretor do FBI, James Comey, recusando-se a usar o nome do assassino.

Não há uma clara resposta certa ou errada quando se trata dessa questão -- apenas esteja ciente das consequências de tomar qualquer atitude.

Outros recursos

O Centro Dart oferece inúmeros recursos para jornalistas sobre a cobertura de massacres. Você pode acessar páginas de dicas, artigos e mais aqui.

Para obter dicas sobre entrevistas com vítimas de trauma, os jornalistas podem consultar a lista de melhores práticas do Poynter para falar com testemunhas e vítimas de massacres.


Imagem principal sob licença CC no Flickr via UCI UC Irvine. Imagem secundária via Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em 1° de outubro de 2017.