Projeto que busca identificar desertos de notícias no Brasil chega à segunda fase

porGustavo Panacioni
Jul 25 em Miscellaneous

Iniciativa do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (PROJOR), o Atlas da Notícia identificou, em 2017, números expressivos sobre a situação do jornalismo no país. Em agosto o projeto lança uma nova fase para atualizar o mapa de veículos de notícias brasileiros e ajudar no combate aos desertos de notícias.

De acordo com o estudo publicado no início de julho, 40 milhões de brasileiros moram em municípios sem a presença de meios noticiosos. “Tratam-se de lugares que não contam com veículos jornalísticos, especialmente aqueles que cobrem temas de interesse público locais como prefeitura, câmara municipal, contas públicas, saúde, educação, segurança pública, mobilidade e meio ambiente”, explica Angela Pimenta, presidente do PROJOR.

Chama a atenção também a proporção de municípios com e sem a presença da imprensa. Em um universo de 5.570 municípios brasileiros, 2.691 cidades contam com algum tipo de veículo de imprensa. Mais da metade, 2.879 cidades - apesar de representarem 16 por cento da população geral -, não tem registro de meios noticiosos.

Qualquer veículo jornalístico é contado

A proposta do Atlas da Notícia busca relacionar todos os tipos de veículos de notícias, sem fazer distinção entre, por exemplo, empresas tradicionais ou iniciativas alternativas de jornalismo.

“Nosso projeto considera qualquer veículo jornalístico, independentemente do porte e do meio como potencialmente apto a cobrir temas de interesse público”, afirma Pimenta. “Como estamos no início da consolidação dos nossos dados, nossa pesquisa está focada sobretudo no lado quantitativo, de identificação e autenticação da existência de veículos impressos, digitais, rádio ou TV”, complementa.

Atualização constante

A inspiração para a criação do Atlas da Notícia veio do projeto America’s Growing News Desert (O Crescente Deserto de Notícias Americano, em tradução literal), desenvolvido pela revista Columbia Journalism Review.

A base de dados da primeira edição contou com informações levantadas pela própria equipe do Atlas, por uma campanha de crowdsourcing - em que qualquer pessoa da rede podia contribuir com informações -, mas, principalmente, com levantamentos da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República, Secom, captados durante os governos Lula e Dilma. “Não temos indicações que tais números voltem a ser atualizados pelo governo que vier a suceder Temer. Diante disso, resolvemos lançar e atualizar o Atlas anualmente”, justifica a presidente do PROJOR.

A segunda edição, então, procura definir uma forma mais independente, com um foco integral na coleta de dados pela equipe do Atlas e uma nova campanha de crowdsourcing.

Como você pode ajudar a coletar dados

Qualquer pessoa, jornalista ou não, pode participar do crowdsourcing para ajudar a mapear os veículos jornalísticos brasileiros. Sérgio Spagnuolo, do Volt Data Lab e responsável pelo levantamento e análise dos dados do Atlas da Notícia, explica que o procedimento pede apenas o preenchimento de um formulário pela internet. A campanha, porém, vai além do território digital.

“O PROJOR contratou cinco pesquisadores, um de cada região do país, para articularem uma colaboração mais próxima e ativa junto a organizações que se interessam no desenvolvimento da imprensa, como universidades, associações e sindicatos”, diz Spagnuolo.

O objetivo com a articulação externa é incentivar o preenchimento constante e regular do formulário disponibilizado pela campanha, o que ajuda na obtenção de dados qualificados para o mapeamento. Depois é de responsabilidade dos pesquisadores fazer a validação e a homologação final dos dados coletados.

“Não temos uma expectativa do volume de dados que isso pode gerar, vai depender da disposição dessas organizações de colaborarem ativamente com a pesquisa. Além disso, posteriormente, o formulário será aberto para qualquer cidadão colaborar”, complementa Spagnuolo.

Os dados que integrarão as informações quantitativas compiladas até o momento serão ainda complementados com uma outra iniciativa dentro do projeto voltada à pesquisa qualitativa. Ainda em 2018 as jornalistas Elvira Lobato e Ana Terra Athayde iniciam uma série de viagens para produzir cinco artigos transmídias sobre as regiões destacadas pelo Atlas da Notícia.

Segundo Pimenta, a nova etapa de coleta de dados que começa em breve consolida um compromisso anual do PROJOR e contribui para ações de fortalecimento de iniciativas que podem combater os desertos de notícias. “Certamente um panorama consolidado anualmente sobre a imprensa local brasileira é um ponto de partida sólido para ações futuras que visem fortalecê-la”, completa Pimenta.

Ainda não há uma data definida para o lançamento do segundo crowdsourcing, mas é possível acompanhar o site do Observatório da Imprensa e do próprio Atlas da Notícia para atualizações. A previsão é que a nova fase do projeto comece a ser divulgada no início de agosto.

Gustavo Panacioni é mestre em jornalismo, um dos fundadores do site premiosdejornalismo.com e jornalista freelance.