Postdata: um projeto de jornalismo de dados em Cuba

porEileen Sosin Martínez
Apr 10 em Jornalismo de dados
Cuba

Em 2019, o jornalismo de dados "se tornará um campo de trabalho verdadeiramente global, com algumas redações e jornalistas empurrando os limites do uso de dados para contar histórias convincentes". Essa previsão é de Simon Rogers, diretor dos Prêmios de Jornalismo de Dados.

Quase três anos antes de suas previsões, um projeto desse tipo surgiu em Cuba. O Postdata.club foi lançado em 23 de setembro de 2016 como a primeira publicação especializada em jornalismo de dados na ilha.

Já em 2017, o site recebeu duas indicações para os Prêmios de Jornalismo de Dados, e no ano passado ganhou o prêmio de excelência geral na categoria de redação pequena do Prêmio de Jornalismo Online, que também destacou vencedores de nome ​​como o Washington Post , ProPublica e Guardian.

O júri considerou que o Postdata constrói ou preenche seus próprios bancos de dados com frequência, devido à dificuldade de obter dados públicos no país. "É um trabalho difícil em qualquer lugar, mas é quase inconcebível fazer um ótimo trabalho em um lugar onde as pessoas nem sabiam que era possível", disse o júri.

Embora o cenário seja adverso, não é tão ruim a ponto de impedir resultados. "O problema fundamental em Cuba são os dados desatualizados; não é que eles não existam, mas acima de tudo que muitos são obsoletos", diz Saimi Reyes, jornalista e editora do Postdata.club.

Definir-se como "espaço de experimentação" permite estabelecer suas próprias rotinas e ignorar o modelo de funcionamento da mídia tradicional. "Nosso jeito de fazer as coisas é lento: nós não respondemos a uma agenda, não cobrimos notícias; fazemos trabalhos longos e mais relaxados", diz Yudivián Almeida, editor de dados e professor da Faculdade de Matemática e Computação da Universidade de Havana.

A plataforma segue um espectro temático aberto, orientado pelo interesse dos usuários cubanos. Uma análise do trabalho autônomo, a legislação americana referente a Cuba e o viés de gênero nos Prêmios Nacionais são algumas das matérias que alcançaram maior relevância.

"No caso dos ciclones, os dados estavam no site do Instituto de Meteorologia, mas pareciam desestruturados, e tivemos que ler, averiguar o texto", diz Ernesto Guerra, jornalista do Postdata. "Para o trabalho sobre os deputados na Assembleia Nacional [Parlamento], a informação estava em formato PDF, e o banco de dados teve que ser construído à mão: copiando e colando."

Finalmente, os resultados estão disponíveis, e qualquer pessoa pode acessá-los e usá-los, bem como ver o código do Postdata.club, que também aparece publicamente no Github. Em resumo, fazer jornalismo de dados significa colaborar e compartilhar.

Deixando as métricas de lado

Até agora, a pequena equipe trabalha de maneira voluntária, enquanto continua em seus empregos estáveis; portanto, não pode dedicar o tempo que quer ao projeto. Isso influencia, é claro, o ritmo de publicação, os seguidores nas redes sociais e o tráfego para o site.

No entanto, ao contrário da obsessão atual com as métricas de audiência, os membros do Postdata não perdem o sono com as estatísticas. Seu indiscutível trunfo está no conteúdo. "Tentamos garantir que tudo seja bem revisado, que não haja erro de cálculo... Gostaríamos de ter mais visitas, é verdade, mas o que queremos é que as pessoas tenham dados e informações reais que possam usar com impacto social. Eu prefiro qualidade do que 'burburinho'”, reconhece Reyes.

Guerra explica em tom de brincadeira: "É como quando você é muito feio: as pessoas que amam o Postdata realmente te amam". Por um lado, não ter fundos tem um lado positivo. "Se nosso sustento viesse da publicidade, por exemplo, seríamos pressionados pelo número de visitas ou impressões diárias. Por não ter essa camisa de força, não é necessário responder a ninguém pela visibilidade do site, além de nós mesmos; nós ganhamos alguma liberdade."

Mesmo assim, eles gostariam de encontrar um modo de financiamento adequado que lhes permitisse crescer. "Nem sempre pensamos nisso também; ou seja, não podemos partir de um modelo de negócio para fazer o que nos interessa", explica Almeida.

Enquanto isso, aqueles que administram o site ensinam aulas de jornalismo de dados na Escola de Comunicação da Universidade de Havana. O objetivo básico é que os alunos descubram as ferramentas e vejam que podem usar outras narrativas.

O atual contexto cubano exige legislação atualizada sobre informação, transparência e uso de dados, para a mídia e para a sociedade como um todo. "Você não pode viver sem tomar decisões informadas, e para isso tem que acessar os dados", diz Almeida.


Imagem sob licença Creative Commons de Thuur Kurvers via Unplash.