Pesquisadoras respondem às principais dúvidas sobre a vacina da COVID-19

porFhoutine Marie
Jul 28, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
cientista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) trabalhando com vírus inativado. 

“O prazo é paciência. A gente vai ter que esperar o tempo da ciência”. Esta é a resposta da médica infectologista Sylvia Lemos sobre quanto tempo será necessário obter uma vacina para o coronavírus. Ela e a também infectologista, Joana D’Arc Gonçalves, participaram do webinar “Vacinas e a COVID-19” do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global da Saúde, realizado em 27 de julho. Segundo as pesquisadoras, apesar de algumas vacinas estarem em fases de testes avançadas, ainda deve levar entre 12 e 18 meses para que a população comece a ser imunizada.

Gonçalves explica que não se pode pular etapas, pois a vacina só pode ser disponibilizada depois que passar pelos testes adequados de eficácia e segurança. “Esse prazo entre 12 e 18 meses é o menor prazo possível para se ter uma imunização e mesmo assim não haverá como imunizar a todos”. Ela acrescenta que inicialmente será necessário fazer uma opção sobre quem receberá a vacina primeiro (grupos mais vulneráveis). Isso porque além do tempo da ciência, há fatores como a produção, armazenamento e execução, o que impossibilita que de imediato haja quantidade o suficiente para atender a todos.

Embora essas informações possam gerar certo pessimismo em relação ao futuro próximo, é importante lembrar que os esforços para produzir a vacina para a COVID-19 caminham a passos acelerados. “A malária busca uma vacina há 140 anos e ninguém encontra. O ebola levou 57 anos e só há cinco anos conseguiu”, diz Lemos. “Por que essa vacina está saindo tão fácil? Porque as pessoas se juntaram, os laboratórios não estão trabalhando isoladamente, existe um pool de pesquisadores pensando ao mesmo tempo na mesma coisa, com o mesmo objetivo. Segundo, há a alocação de recursos muito grande, de uma vez. Isso tudo faz com que a vacina se torne possível.” 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

Tempo da vacina

  • “Depois de meses avaliando o comportamento do vírus no nível molecular, depois que você observou que está seguro ali naquele ambiente é que se passa os testes para a fase animal... Tudo isso é uma fase após a outra, só depois que vai começar os testes em humanos”, explica Gonçalves.  “No passado a gente fazia uma fase após outra. Hoje por causa da necessidade da pandemia a gente tem essas fases sendo trabalhadas em paralelo, no laboratório, em animais e humanos.”  

  • Apesar disso, há limites de tempo para este seja feito com segurança. “É um processo lento, não dá  para produzir doses de forma acelerada para sete bilhões de pessoas. Além das etapas, a questão da produção e de avaliação é lenta”. A pesquisadora lembra que em geral o tempo médio de produção de uma vacina leva de dez a 15 anos. 

  • “O genoma desse vírus foi descoberto em janeiro, isso ajudou muito para que os pesquisadores começassem a estudar. Oxford saiu na frente porque já tinha alguma coisa com o Sars, em 2003 e o Mers, em 2012. Isso ajudou para que as coisas saíssem tão rápido como estão saindo. Além do mais, ninguém sabe da esperteza do vírus. Uma coisa é in vitro, uma coisa é in vivo”, diz Lemos. 

Sobre as vacinas atualmente em teste

  • “Se você acelera, você não tem tempo de observar as consequências”, diz Lemos. Ela conta que nos trabalhos publicados até o momento sobre as vacinas que estão sendo testadas na China e em Oxford há relatos de endurecimento no local de aplicação, febre, astenia e dores de cabeça. “Se eu acelero e digo que está tudo bem, eu posso estar fazendo uma vacina que só dure três meses, seis meses. E aí o que vai acontecer? Vai ter que ter uma nova dose.” 

  • A infectologista rechaça a ideia de disputa entre os países para ver quem será o primeiro a produzir a vacina. “Pode ser que lá na frente uma vacina ajude a outra, como a gente tem hoje, por exemplo, várias vacinas combinadas.”

  • “É o momento de juntar forças, de ver o que é viável para cada país”, completa Gonçalves. “Sem falar que tem as variações genéticas: dependendo da população uma vacina é melhor que a outra, porque as técnicas são diferentes... É extremamente necessário a gente ter esse número de cientistas investindo em diferentes tipos de vacina.” 

Estudos no Brasil

  • Lemos frisa que o Brasil possui um bom histórico e reputação na produção de vacinas, mas que esses esforços esbarram em dificuldades, como aporte de tecnologia e de financiamentos. “Nós hoje temos em Minas Gerais, com o Ricardo Gazzinelli, uma vacina dois em um. Ela pega o vetor viral da Oxford e a influenza, então ela poderá imunizar para influenza e corona.” 

  • Ela cita entre iniciativas atualmente em curso no país estudos da USP e da Fiocruz. “Qual a diferença dessas vacinas? Elas vão levar mais tempo, provavelmente só a partir do próximo ano ou depois. Por quê? Por causa dos investimentos. E elas estão passando pelas fases todas de uma forma menos acelerada.” 

Volta à normalidade

  • “Todo mundo acha que tendo a vacina amanhã tudo vai voltar ao que era antes, mas não é bem assim”, diz Lemos. “Isso acontece porque não se conhece o suficiente sobre o vírus para saber como funciona a imunidade a ele ou como obter uma imunidade duradoura de forma rápida.”

  • Lemos reforça que enquanto a vacina não vem é preciso continuar mantendo as medidas de prevenção e os “quatro pilares” – uso de máscara, higiene das mãos, desinfecção do ambiente, distanciamento físico e distanciamento social. “Por enquanto a vacina ainda são esses quatro pilares, infelizmente.”


Fhoutine Marie é jornalista e cientista política. Paraense radicada em São Paulo, trabalha como jornalista e pesquisadora freelancer com foco nas áreas de gênero, raça e movimentos sociais. Twitter: @DraFufu

Imagem sob licença CC no Unsplash via CDC. Esta foto mostra um cientista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) trabalhando com vírus inativado.