Para alcançar a audiência mais jovem é preciso prestar atenção nela

Jul 14, 2024 em Engajamento da comunidade
Criança

Em um mundo no qual a informação está em diversos espaços e dispositivos, você já se perguntou por que não há tantas matérias jornalísticas destinadas ao público jovem? Ou que escutem crianças e adolescentes como fontes e participantes ativos de reportagens? 

A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Thais Furtado, especialista no assunto, diz que os jornais impressos costumavam trazer cadernos com a temática, um nicho que foi perdendo espaço nos últimos anos. 

No momento, ela vê que há uma retomada desse tipo de jornalismo e aponta que os jovens devem fazer parte desse processo. “Falando da criança, é preciso pensar em assuntos que a interessem, mas não de uma forma estereotipada. Pode-se falar de política, economia, desde que se pense pelo seu ponto de vista”, diz. Para Furtado, é necessário que as crianças sejam ouvidas nas matérias. “Entendemos que as crianças, por exemplo, com os cuidados necessários, são fontes capazes de opinar em qualquer tema”, defende. Ela e outros pesquisadores mantêm o coletivo Colo, que discute o assunto. 

Furtado acredita que o afastamento das crianças do jornalismo afeta em como ela se relaciona com a informação. “Se a criança não se enxerga, se ela não é ouvida, se o ponto de vista dela não é considerado, por que ela vai ver o jornalismo como uma fonte de informação?", diz Furtado. "E aí ela vai para as redes sociais, para o youtuber, procurar outros meios que vão se comunicar melhor. Então, o jornalismo deu um tiro no pé, quando se afastou das crianças e dos adolescentes. Mas me parece que agora isso está sendo revisto,”diz. 

Experiências de sucesso

A Revista Qualé surgiu em 2020 e tem um público entre 6 e 12 anos, e é muito utilizada em escolas. Segundo uma de suas fundadoras, Maria Clara, vários cuidados são pensados na hora de elaborar as pautas da publicação. “Queremos que, ao ler nossas reportagens, os jovens aprendam novo vocabulário, novas construções de frases.  Um dos nossos diferenciais é o apoio da equipe pedagógica", explica a responsável. "Todos os nossos jornalistas têm um apoio de educadores – que participam desde a primeira reunião de pauta até o envio da revista para a gráfica. A ideia é abordarmos grandes temas, que também possam ser discutidos em sala de aula, junto ao currículo pedagógico”.

Já o Jornal Joca é uma publicação que existe desde 2011, lançada pela editora Magia de Ler e tem uma versão impressa quinzenal e a online com conteúdo diário. Vinicius Marques, jornalista do periódico, diz que há um grande cuidado na hora de escolher as pautas, assim como na apuração. “Quando determinamos se uma notícia vai entrar ou não no jornal, sempre pensamos se tem um contexto, o que se pode ensinar, o que eles vão aprender com isso", explica Marques. "Nós temos esse cuidado redobrado também de apuração, de falar com especialistas, porque o Joca cumpre muito o papel de educação midiática. Para também que os professores, pais, usem o JOCA para ensinar as crianças a lerem as notícias, a se informarem." 

A Revista Capricho é uma das mais antigas no setor a focar nos jovens, principalmente em adolescentes. Desde 2015, apenas no formato digital, a editora Andréa Martinelli conta que o público está entre a geração Z e Alpha, entre 13 e 18 anos, mas que, pela longa trajetória da publicação e pela crescente sensação de nostalgia, conseguem atingir um público de até 25 anos. “Buscamos ter um tom didático, mas não “professoral”. Muitas vezes, até para explicar temas complexos, usamos referências do dia a dia ou até da cultura pop para gerar aproximação. Usamos termos que possamos nos colocar ao lado da juventude e não acima ou abaixo dela. Aqui sempre falamos em ‘nossa galera’, por exemplo”, comenta. 

Audiência jovem sugerindo pauta

Os veículos também incentivam a voz e o protagonismo das crianças e dos jovens. “Por aqui, eles participam ativamente das sugestões de pauta, temos até uma turma editorial que se reúne mensalmente, enviando perguntas, dando opinião e fazendo críticas”, diz Maria Clara.

O Jornal Joca também tem participação direta do público jovem. “Temos o projeto Repórter Mirim, o Repórter Mirim, onde a gente faz uma mentoria para os nossos leitores serem os repórteres e tem uma seção, uma página do jornal, que é o canal aberto, que entram participações de diferentes maneiras", lista Marques. "Tem também o Clube do Joca, inclusive, que é um ponto muito importante, que nos ajuda a manter essa escrita próxima da realidade da criança”.

Uso responsável da internet

Ensinar as novas gerações a navegarem numa internet mais segura, a partir da educação midiática, é fundamental e faz parte da sobrevivência do bom jornalismo. A palestrante e escritora Sheylli Caleffi aborda o tema de segurança na internet e pegamos algumas dicas com ela para pais e educadores colocarem em prática:

- Criar um "acordo de geladeira" onde todos os membros da família assinam e seguem regras de uso da internet.

- Ensinar crianças a reconhecer e evitar comportamentos inapropriados online, como o envio de fotos íntimas.

- Pais devem ser exemplo no uso do celular para não incentivar o uso excessivo pelas crianças.

- Monitorar os influenciadores seguidos pelas crianças e adolescentes e educá-los sobre a realidade por trás das redes sociais.


Foto: Canva