Pandemia ensina que se o planeta adoece, as pessoas adoecem junto, diz pesquisadora de saúde

porMarina Monzillo
Oct 1, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Máscara jogada no chão de um parque

“Estamos mexendo na caixa de pandora”, afirmou Nelzair Vianna, doutora em ciências (FMUSP) e pesquisadora em saúde pública da Fiocruz, durante “Os efeitos sombrios da pandemia no meio ambiente”, webinar realizado em 30 de setembro, pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde.

Vianna explicou como a degradação do planeta tem impacto na saúde das pessoas: as ondas de calor alteram a saúde cardiovascular, a poluição causa problemas respiratórios, as modificações no solo pelos fertilizantes químicos geram alimentos com teor nutritivo mais baixo, e o desmatamento leva ao surgimento de doenças infecciosas emergentes, como a COVID-19. 

“Precisamos falar sobre isso: o que podemos controlar e pensar para as futuras pandemias, porque certamente não vamos ficar somente nessa”, comentou a convidada durante o evento online. 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa:

Efeitos positivos da pandemia no meio ambiente

  • No momento do confinamento, a qualidade do ar melhorou em várias regiões do planeta, houve a redução de ruído, a diminuição de desperdício de alimentos domésticos, do consumo de energia e da emissão de gases do efeito estufa. Tudo isso, porém, foram efeitos temporários da desaceleração da atividade econômica. “O que realmente a pandemia trouxe de positivo é o importante registro de que é possível, a partir de tomada de decisão, frear, mudar atitudes, tanto de políticas públicas quanto individuais”, analisou Vianna. 

  • Existe um movimento de profissionais da saúde pensando nessa recuperação saudável. Ela contou do grupo internacional que reúne 40 milhões de médicos e enfermeiros preocupados em trazer sugestões de melhor controle do meio ambiente aos governos. Uma carta foi encaminhada aos líderes do G20, trazendo aspectos importantes de substituição de tecnologias. “Sabemos que não dá para voltar aos tempos das cavernas. Se temos uma expectativa de vida mais alta, é porque temos tecnologia e desenvolvimento na área médica. O que está se falando agora é de substituir processos, como o uso de energia limpa, gerenciamento de resíduos e alimentação mais saudável.”

Efeitos negativos da pandemia no meio ambiente

  • Vianna citou algumas das grandes preocupações da área médica com o meio ambiente, em decorrência direta da pandemia de COVID-19: o aumento do lixo hospitalar, a diminuição da qualidade do ar interno e da reciclagem. “O setor médico tem uma parcela grande na produção e uso de descartáveis”, contou. Ela mencionou que o impacto disso durante a pandemia aumentou em quatro vezes. “As pessoas pensam que isto está ligado aos macroplásticos, mas a grande preocupação da ciência é com os microplásticos. As máscaras são fabricadas com nanofibras sintéticas, são várias camadas com uma série de materiais químicos que acabam dispersando no meio ambiente.” 

  • Vianna comentou que são vários estudos de como isso afeta a saúde das pessoas. “Microplástico é um disruptor endócrino, altera o metabolismo, pode diminuir a fertilidade, por exemplo...Quando falamos de resíduos na pandemia, temos de pensar, qual o destino final deles? Vão ser incinerados? Sabemos que isso gera muita poluição também”. Segundo a pesquisadora, existem processos de destinação final que provocam menos impactos. “Não deixam de impactar. O ideal é reduzir o consumo e ter alternativas para esses materiais”, conclui ela. 

Saúde planetária

  • A saúde planetária é a abordagem em que o médico sensibiliza o paciente que sua saúde depende da saúde do planeta. “Desde 2015, tentamos aumentar essa percepção de risco não só da população, mas dos profissionais de saúde também”. Ou seja, se o planeta adoece, a gente adoece com ele. “O médico que pensa no impacto da saúde a partir de uma questão planetária tem de observar tudo que está ao redor do paciente. As doenças que mais matam são as crônicas - diabetes, cardiovasculares. Todas têm fatores de risco ambientais”, disse ela, acrescentando que a poluição do ar mata 7 milhões de pessoas ao ano. 

  • Apesar de contextos políticos e econômicos, Vianna enxerga um mundo preocupado com o meio ambiente. “Existia um movimento mundial antes mesmo da pandemia. O Fórum Econômico Mundial já trouxe a mudança climática para a discussão central... A gente precisa pensar em uma prosperidade econômica que não seja baseada só no PIB, que a gente tenha que se desenvolver indefinidamente. Na natureza, a gente cresce até um limite e estabiliza, é assim com a árvore, assim deve ser com a economia.”


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Unsplash por Raul Baz