O que descobrimos ao acompanhar a comunidade científica nas redes sociais

porJade Drummond
Nov 16, 2020 em Temas especializados
Imagem do Science Pulse

Para auxiliar a cobertura jornalística de ciência, desde junho a ferramenta Science Pulse monitora perfis da comunidade científica no Twitter e destaca em tempo real as publicações mais populares.

O projeto surgiu com a pandemia do coronavírus, SARS-CoV-2, e a necessidade de encontrar as informações mais atualizadas sobre a doença e possíveis tratamentos. Como as redes sociais se tornaram um espaço muito usado para a divulgação de novas informações, nada mais acertado do que ficar de olho nas discussões que acontecem por lá. 

Mas, com o passar do tempo, surgiram algumas questões. Afinal, quais informações novas a ferramenta já ajudou a descobrir? Quais são os assuntos que ganham mais visibilidade na redes? 

Bom, a aplicação monitora quase 1.400 perfis de cientistas, especialistas e organizações da comunidade científica do Brasil e do mundo. A curadoria dessa lista é feita pela equipe do Science Pulse, que valida a veracidade e relevância das páginas. Entre junho e outubro deste ano, foram contabilizados 835.799 tuítes em português ou inglês publicados pela base de perfis do Pulse. Para analisar o que ganhou destaque no período, foram observadas as dez publicações com o maior número de retuítes de cada mês, em inglês e português. A maioria foi sobre a COVID-19. 

Em setembro, teve destaque uma publicação da Luiza Caires, editora de ciência do Jornal da USP, sobre a confirmação de que o coronavírus infecta neurônios. Em um fio no Twitter, ela explica como foi feita a pesquisa e as consequências dessa conclusão, como a possibilidade do vírus causar uma falta irrigação sanguínea no cérebro e morte celular. A informação veio de um artigo preprint de pesquisadores de Yale, que ainda seria revisado por outros especialistas antes da publicação final. 

Um tema recorrente nos destaques do Science Pulse nesse período foram as vacinas em desenvolvimento para o combate do coronavírus. Entre os tuítes em português, o fio publicado em agosto pelo divulgador científico Atila Iamarino sobre a vacina russa foi um dos mais compartilhados. No caso, ele criticou a Sputnik V pela não divulgação dos resultados dos testes e, na argumentação, recomendou dois sites que monitoram os testes das vacinas no mundo e podem ser boas fontes de pesquisa: o blog In the Pipeline e o Trial Site News

Em outro fio muito retuitado em julho, Iamarino repercute o estudo sobre a estrutura do anticorpo que pode ser chave no desenvolvimento das vacinas e contextualiza o que se sabe hoje sobre resposta imune. Já entre os tuítes em inglês, a divulgação pelo jornal científico The Lancet e pelo próprio perfil da Universidade de Oxford sobre a boa resposta imune da vacina que eles estão desenvolvendo ficaram entre as mais populares. 

Ainda sobre COVID-19, uma informação interessante surgiu com a repercussão nas redes sobre a possível aprovação do uso de plasma no tratamento nos Estados Unidos. O médico e professor da Universidade Columbia, Craig Spencer, compartilhou a sua preocupação com os possíveis efeitos adversos do tratamento e usou como exemplo a própria experiência com o ebola. Quando teve a doença, também causada por um vírus, a utilização do plasma piorou o quadro clínico ao invés de melhorar. Para complementar o relato pessoal, ele compartilhou a publicação da epidemiologista Céline Gounder, com exemplos do que significaria a autorização do tratamento sem uma forte evidência científica, e os questionamentos feitos pelo médico Tom Frieden sobre como o recurso seria utilizado nos pacientes. Ou seja, além de levantar a discussão, agregou novas fontes para o acompanhamento do assunto.  

Por fim, as análises sobre o números de casos e fatalidades da COVID-19 também foram amplamente retuitadas ― como o fio publicado pelo epidemiologista Eric Feigl-Ding sobre o alto percentual de infectados no México em junho, os tuítes do mesmo mês do pesquisador Max Roser comparando o número de casos e mortes dos Estados Unidos com países da União Europeia ou a publicação de setembro do biólogo Ali Nouri sobre o controle efetivo da doença feito no Vietnã.

Além da pandemia

E para além do coronavírus? Quem acompanha os destaques do Science Pulse com regularidade pode ter tido a impressão de que a COVID-19 era um assunto mais recorrente entre as publicações de maior popularidade em inglês, se comparadas com as em português. 

Entretanto, na análise em questão, o número de tuítes em que a doença era o tema principal foi exatamente igual nos dois idiomas. Das 50 publicações mais retuitadas em inglês e em português, 31 tinham a pandemia como foco. Uma análise mais de perto mostra que é possível identificar uma diferença: as publicações em português que não mencionaram o vírus foram mais diversificadas. 

Ou seja, a pandemia foi realmente o tema principal da comunidade científica monitorada pelo Science Pulse neste período. Mas, tirando o assunto do momento, os tuítes em português mais compartilhados da base do Pulse também falaram sobre dez outros temas, enquanto os tuítes em inglês abordaram apenas outros cinco. 

Entre junho e outubro, também ganharam visibilidade discussões sobre o governo brasileiro, o Sistema Público de Saúde (SUS), os incêndios no Pantanal, o Guia Alimentar, a comunidade LGBTI+, educação sexual, desigualdade, miscigenação, astrologia e, como não poderia faltar, memes. Nitidamente, foram muitos eventos paralelos à crise mundial de saúde. 

Enquanto isso, os tuítes em inglês mais retuitados que não falaram sobre a COVID-19 estavam focados apenas nas atividades da NASA (que enviou um robô a Marte no período), na discussão sobre saúde mental, o prêmio Nobel, as eleições dos Estados Unidos e renda básica universal


Jade Drummond, jornalista e especialista em criação e produção de conteúdo, é analista de audiência, comunidade e estratégia digital do Volt Data Lab e Science Pulse, projeto criado pelo ICFJ Knight Fellow Sérgio Spagnuolo.  

Imagem cortesia do Science Pulse