Médico ressalta importância de evidências científicas para pauta jornalística

porMarina Monzillo
May 24, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Homem de jaleco branco e estetoscópio no pescoço checando um telefone celular

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

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“Não é só o profissional médico que tem de entender de ciência, a sociedade em geral tem de estar conectada com esse paradigma, porque o profissional é parte da sociedade e, se ela não for baseada em evidências, ele também não será”, foi dessa forma que Luis Correia, médico e professor adjunto da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, explicou a importância do diálogo científico-jornalístico na abertura do webinar “Medicina baseada em evidências: e tem outra que não é?”, realizado em 21 de maio, pelo Fórum de Reportagem Sobre a Crise Global de Saúde.  

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

Não é uma corrente da medicina

  • Correia começou explicando que medicina baseada em evidências não existe como uma corrente da medicina. “O que existe é a medicina bem feita, que precisa ser norteada pelos conhecimentos científicos disponíveis hoje. Há centenas de anos, não existia conhecimento científico médico de qualidade, hoje, sim. A gente não deve ser engessado por ele, mas norteado. Esse é o paradigma médico contemporâneo e não uma corrente da medicina.”

  • A prática contemporânea acompanha esse paradigma menos do que o desejado. “O que a COVID-19 está mostrando é que nós não estamos preparados ainda, em termos de pensamento científico, para certos desafios, mas não estamos em crise. Eu espero que essa experiência da pandemia sirva para mais reflexão e para um aceleramento da evolução do paradigma médico em prol de um pensamento científico”. Ele afirmou que médicos devem ser consumidores de ciência. “Não precisam ser cientistas, mas têm de avaliar a qualidade do conhecimento científico, se ele é verdadeiro ou não”. A partir daí, o questionamento do profissional é como incorporar aquilo no seu processo de decisão. “Porque conhecimento não é decisão. A ciência traz um conhecimento que você vai usar no seu processo de julgamento para tomar uma decisão. Como eu vou utilizar isso é um outro treinamento de habilidades médicas que precisa ser desenvolvido também.”

  • Correia acredita que em outras áreas de atuação profissional também as pessoas não se baseiam em evidências como deveriam. “Em política de segurança pública, a gente deve armar a população ou não? Isso não deve ser uma questão de opinião; a gente deve olhar evidências científicas observacionais e comparar o resultado das diferentes estratégias políticas para chegar a um resultado”. Ele enfatizou que, muitas vezes, as pessoas ficam discutindo opiniões quando, na realidade, é uma questão de fatos. 

 O surgimento da medicina baseada em evidências

  • Correia contou que o nome “medicina baseada em evidências”  surgiu na década de 1980. “Esse é o nome do meu blog, do meu canal do YouTube, do podcast, do curso online, por uma questão de comunicação, mas a existência do nome é um equívoco, no meu modo de ver, porque dá a ideia de que alguém é entendido de medicina baseada em evidência e outro não”. O marco desse surgimento seria no início do século passado, quando começaram as escolas de epidemiologia, que estudam os fenômenos médicos utilizando um paradigma coletivo. Antes disso, se alguém via um caso que funcionou, achava que funcionaria sempre. Um paradigma baseado na lógica. Com o paradigma epidemiológico que estuda uma coletividade para tirar uma mensagem mais acurada, veio o conceito científico. “Você começa a trabalhar mais com amostras”, explicou o médico. A primeira escola de saúde pública dos Estados Unidos foi a John Hopkins em 1918, coincidindo com a gripe espanhola, veio com o pensamento de saúde pública acoplado à necessidade de explorar melhor fenômenos médicos do ponto de vista de causalidade.”

  • O médico lembrou que um dos grandes marcos da ciência, que mudou a forma como a gente vê o mundo, foi o tabagismo. “Se você observar no início do século passado, fumar era elegante. Médicos faziam propagandas de cigarro. Ninguém imaginava que cigarro causava câncer antes de existirem os estudos”, comentou, lembrando que na década de 1930, alguém teve a ideia de comparar em um estudo caso-controle quem tinha câncer de pulmão e quem não tinha, em relação a frequência de tabagismo e mostrou uma associação, uma evidência científica que mudou da água pro vinho o que se imaginava respeito do cigarro. Para que realmente a comunidade médica aceitasse aquele paradigma foram necessários 10 ou 20 anos. 

Experiência clínica x método científico

  • Antigamente, um médico aprendia com outro, mais velho. Havia a questão da autoridade e do aprendiz. “A experiência clínica é muito importante para ser um bom médico, mas a experiência clínica não é boa para criar conceitos”, opinou Correia. “A gente aprende com a experiência, como fazer, como pensar, como tomar decisão, mas a nossa visão do mundo não é acurada em relação a como o mundo funciona, por uma série de vieses e também por ruídos aleatórios que aparecem nas nossas observações. Eu tenho um viés de confirmação, eu acredito que aquilo funcione, ficaram mais na minha memória os pacientes que sobreviveram, porque eu fiz aquele remédio. Os que morreram, morreram porque eram muito graves. Eu vou validando a minha crença com base na experiência, utilizando memória seletiva. Então, se eu não estiver fazendo estatística, se eu não tiver planilhado isso, eu vou me lembrar mais do positivo, do que coincidiu e vou desprezar as não coincidências.” Portanto, o viés de confirmação faz com que nossa experiência clínica não nos traga necessariamente a verdade.

  •  Há também o viés de confusão. “Um dentista pode chegar à conclusão – essa é uma história verdadeira – de que o uso de fio dental melhora a qualidade dos dentes das pessoas. Porque, na minha experiência, quem usa fio dental tem o dente mais limpo do que quem não usa, com menos gengivite do que quem não usa. Só que existe um efeito de confusão aí: quem usa fio dental também escova melhor os dentes. Então, eu não sei de onde veio esse efeito: se é da boa escovação, da quantidade de vezes que a pessoa escovou o dente no dia ou se foi do fio dental propriamente dito.” 

  • Um outro viés de confusão que existe é o de desempenho. “Eu posso achar no tratamento da deficiência cardíaca que um remédio novo é bom, mas ao ter prescrito o remédio novo eu ajustei as outras drogas também. Na verdade, o mundo é uma fábrica de ilusões, quando eu uso a minha experiência clínica”, disse ele. 

  • Outro problema são os ruídos vindos do acaso. “Três pacientes que tomaram hidroxicloroquina sobreviveram. Três!... E daí?  Mortalidade de COVID-19 é baixa, é a minoria das pessoas que morrem”. Correia explicou que em pequenos tamanhos amostrais, o acaso aparece. Esses problemas todos fazem com que não se use a experiência do dia a dia para concluir o que funciona e o que não funciona. O método científico entra com uma série de técnicas para prevenir os equívocos. “O primeiro item do método científico é ter uma amostra de mil pacientes para chegar a uma conclusão e não a sua amostra. Depois ajuste para efeitos de confusão, ajuste para tudo isso. Daí a importância de técnicas de randomização.” 

Armadilha da notícia

  • O médico enfatizou que jornalistas não podem usar um estudo observacional para concluir causalidade, como nas notícias frequentes que surgem em jornais, por exemplo,“café reduz câncer”. Segundo ele, é estudo observacional que dá notícia jornalística, e os jornalistas caem na armadilha. “Eu não posso dizer que vinho é bom para o coração, porque não tem ensaio clínico randomizado, é preciso um conhecimento básico que torna os jornalistas capazes de eliminar 90% das notícias. Agora o assunto é só COVID-19, então diminuiu muito, mas eram semanalmente esses factoides vindos de estudos observacionais. Você precisa desse outro desenho.”

  • Em algumas situações, um estudo descritivo é de grande valor. “Se eu quiser estimar a probabilidade de um paciente com COVID-19 morrer, não é ensaio clínico, isso é observação, olhar na prática no mundo real a porcentagem de letalidade de paciente internado em UTI. Ele também comentou o equívoco da supervalorização à meta análise. “Claro que a revisão sistemática é uma técnica importante da medicina, porque você tem a noção da totalidade das evidências mas um bom ensaio clínico é melhor do que a meta análise de três estudos pequenos. Revisão sistemática e meta análises não é uma evidência primária é, na verdade, o sumário das evidências que existem.” Para ele, o valor deste sumário é descrever a incerteza e não gerar novas certezas.

  • Correia contou que existe a Cochrane, espécie de biblioteca de revisões sistemáticas, que foi batizada em homenagem a Archie Cochrane, considerado um dos pais da ideia de medicina baseada em evidências. “Ali tem revisões sistemáticas de muitas questões e uma certa garantia de qualidade de que foram feitas com metodologia adequada. É a maior referência.” A Cochrane tem centros em diferentes países, inclusive no Brasil.

  • Uma das conclusões que saíram desses centros e que vai contra o senso comum, é que o rastreamento não ajuda a reduzir a mortalidade de câncer de mama e de próstata, por exemplo. “Não estou dizendo que o câncer não é problema, mas que o rastreamento não é solução. A comunidade médica, que molda o pensamento da sociedade sobre paradigmas médicos, não está fazendo seu dever, se comporta na base do overuse: quero diagnosticar, quero operar. Estima-se que 1/3 dos atos médicos são fúteis, então, a gente pode cortar esse desperdício, porque prejudica a população, e focar no que traz mais benefícios. O jornalismo deveria selecionar mais as pessoas que vão à televisão falar: o médico famoso nem sempre é uma pessoa de qualidade do pensamento médico; a referência tem de ser mais científica”. Correia afirmou que os jornalistas podem ser rapidamente treinados nos paradigmas básicos e perceber quem está falhando em relação aos princípios científicos e identificar os gurus carismáticos. 

  • Para ele, o ceticismo é preciso ser desenvolvido e parte da desconfiança. “O assunto hidroxicloroquina e ivermectina não morre no Brasil. É um fenômeno, porque não é mais discutido nos outros lugares do mundo. Foi um equívoco mundial, no início, muitos médicos acreditaram, tanto que fizeram estudos para avaliar e não foram, no meu modo de ver, suficientemente críticos depois. Parem de escrever todo dia sobre isso, porque vocês estão alimentando esse assunto, que está ocupando espaço de uma coisa mais importante — mesmo que seja falando contra e criticando.”

  • Para encerrar, o médico recordou que a humanidade precisou da crença, da tentativa e erro, para sobreviver como espécie. Comparativamente, a ciência tem pouco tempo, então não somos biologicamente científicos, mas podemos treinar para antagonizar o nosso viés de crença.


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Unsplash via National Institute of Cancer