Jornalistas falam sobre a experiência de sobreviver à COVID-19

porFhoutine Marie
Jul 1, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Máscara e termômetro

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.

Desde março, quando Organização Mundial de Saúde declarou que o mundo vivia uma epidemia do novo coronavírus, a rotina da maioria das pessoas passou por profundas transformações. Para os jornalistas, a pandemia se tornou assunto predominante, afetando o trabalho de profissionais de todas as funções e editoriais. Para alguns, esse processo foi ainda mais intenso. É o caso daqueles que além de informar sobre a doença foram pessoalmente afetados por ela. 

“Já fiz diversas matérias, desde comportamento na quarentena, número de casos, limpeza e sanitização, então pegar foi uma experiência a mais, mais imersiva de tudo isso que tá acontecendo e que a gente cobre no dia-a-dia”, conta Guilherme Queiroz (Veja SP). Ele, Juliana Faddul (CNN Brasil) e Pedro Cunha (Maisfutebol/Portugal) relataram suas experiências sobre descobrir que haviam sido contaminados, o sofrimento físico da doença e a lenta jornada de recuperação. 

“Primeiro eu peguei, depois eu passei a cobrir”, diz Faddul, que se descobriu doente quando ainda havia poucos casos no Brasil. “Jornalisticamente ajudou a ver um outro lado por conta de ter passado pela experiência”. Por isso mesmo todos eles são enfáticos em não abrir mão dos cuidados de prevenção, já que até o momento não há provas de que pessoas fiquem imunes à doença após terem sido infectadas, tampouco se podem transmiti-la para outras pessoas. “O conselho mais importante que eu posso dar a quem tem suspeita de ter contraído o vírus é o distanciamento social”, diz Cunha.

 

 

Veja a seguir os principais trechos da conversa. 

Primeiros sintomas

  • A descrença diante dos primeiros sintomas foi algo entre os participantes do webinar. “Eu não quis acreditar no início que havia sido atingido” diz Cunha, diagnosticado em março, quatro dias depois de começar a trabalhar em casa. Toda sua família foi afetada: esposa, filhos, pais e sogros. “Quando eu estava na fase aguda da doença e ouvia pessoas com responsabilidades importantes compararem com uma gripezinha eu ficava louco, não é gripezinha nenhuma. Se alguém dissesse naquela altura que eu tinha malária ou ebola eu teria acreditado.”

  • Dor de cabeça, enjoo e perda do olfato e paladar estão entre os sintomas que levaram os jornalistas a desconfiar que haviam sido contaminados. “Comecei depois a ter febre, dores musculares, cansaço. Tentei trabalhar, mas não conseguia, porque fui atingido pelo enjoo e não conseguia mais ler na tela do computador”, diz Queiroz. Ele fez consultas por videochamada e a confirmação do diagnóstico veio semanas depois, com a realização de um exame. 

Recuperação lenta 

  • “Durante muito tempo eu continuei tendo enjoo e me sentindo muito cansado”, diz Queiroz. Os outros participantes também relatam persistência de sintomas mesmo depois de recuperados. “Os últimos sintomas a desaparecer foram a perda de olfato e a limitação respiratória… Quando tentei voltar a fazer desporto, devagar aqui perto de casa, sentia que ficava com os batimentos descontrolados muito depressa”, afirma Cunha. “Temos dois filhos de dois anos e meio que ainda usam fralda e não sentíamos nenhum cheiro, tememos que nosso olfato tivesse desaparecido para sempre.”

Incertezas sobre imunidade

  • “Eu não fui visitar minha mãe, porque as pesquisas mostram que o vírus pode continuar na superfície, como pele e cabelos”, diz Faddul, que continua mantendo cuidados com receio de transmitir o vírus. “Eu venho trabalhar de máscara todos os dias e procuro evitar lugares públicos onde há muitas pessoas”, diz Cunha, que lembra que apesar dos casos terem diminuído muito em Portugal, ainda há o temor de uma segunda onda de contaminações.

  • “Apesar dos médicos dizerem que é muito difícil você se contaminar de novo eu acho que é melhor não arriscar, continuo com todos os protocolos de cuidado”, diz Queiroz, que revela não estar completamente seguro sobre a imunidade. “Toda vez que eu sinto uma dor de cabeça de novo eu fico alerta, ainda mais por trabalhar com isso todo dia com número de casos e de óbitos.”


Fhoutine Marie é jornalista e cientista política. Paraense radicada em São Paulo, trabalha como jornalista e pesquisadora freelancer com foco nas áreas de gênero, raça e movimentos sociais. Twitter: @DraFufu

Imagem sob licença CC no Unsplash via Annie Spratt