Jornalista premiado relata semelhanças de se cobrir guerra e pandemia

porMarina Monzillo
Oct 30, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Cemitério em Manaus

Foi entre o fim de abril e o início de maio deste ano, quando chegavam informações de covas coletivas e caminhões frigoríficos espalhados por Manaus, que o repórter e fotógrafo Yan Boechat resolveu embarcar de São Paulo para a capital amazonense para cobrir, de forma independente, os estragos que a COVID-19 fazia por lá. Suas fotos desse auge da pandemia na cidade foram publicadas pelo jornal O Globo e lhe renderam o Prêmio Vladimir Herzog. 

Os bastidores dessa reportagem e também a vasta experiência do jornalista na cobertura de conflitos em países como Síria e Armênia foram tema do “Bate-papo com Yan Boechat, vencedor do Vladimir Herzog”, webinar realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, em 29 de outubro. 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

Cobertura da COVID-19

  • Desde que a pandemia começou, Boechat ficou atento de como seria o impacto no Brasil: “previ que seria complexa a situação aqui”. Quando aconteceu a primeira morte, passou a ir para a rua todo dia. “Fui para o Centro de São Paulo, para Cracolândia, fiz plantão em cemitério e hospital. Entrei na UTI do Sancta Maggiore, onde tinha, então, o maior número de mortes. Fiz muitas matérias. Estava decidido a cobrir COVID-19.” 

  • Quando ouviu a notícia de que 30% das mortes em Manaus aconteciam dentro das casas, Boechat comprou passagem, reservou hotel e foi para lá sozinho. “Eram as pessoas pobres que morriam em casa. Fui ao serviço funerário, entendi como funcionava o recolhimento dos corpos e acompanhava uma das equipes, ia com o carro atrás deles. Era uma situação complicada, corpos que estavam esperando havia 12, 14, 16 horas”. O jornalista explicava quem era para a família e prometia tratar o parente de forma respeitosa. “Explicava que era um momento histórico que precisávamos registrar. A maioria concordava, mas outras rechaçavam a ideia de que a causa da morte tinha sido COVID-19, apesar dos sintomas relatados. Muitos me pediam para não falar que tinha sido por coronavírus”. Ele contou que falar que era de São Paulo lhe dava mais credibilidade. “Há um descrédito muito grande com a imprensa local.”

Guerra x pandemia

  • Segundo o jornalista, as mortes da pandemia são tão absurdas, a tragédia é tão desprovida de sentido, que as pessoas tentam de alguma forma dar sentido a isso. “Uma mulher estava enterrando o pai, no final, ela me agradeceu pelas fotos, disse que se sentiu menos solitária. Teve um pouco disso em vários casos, eles se abriam para dar sentido à morte. Você sente muito isso também em área de guerra”, contou. 

  • Boechat, que já passou por várias zonas de guerra, disse que os contextos são diferentes, mas há semelhanças entre a COVID-19 e os conflitos. “Os mais vulneráveis economicamente são os que mais sofrem. Você enxerga isso claramente na guerra, quem tem grana consegue sair e se proteger antes que as batalhas cheguem, vai para rotas de fuga, abrigos. E isso ficou muito claro agora também aqui e nos Estados Unidos. Esse é um ponto de encontro dessas realidades tão distantes.” 

  • Ele acredita que a incerteza em relação ao futuro une também os dois acontecimentos. “Tem um fator de aleatoriedade grande na guerra, e a pandemia trouxe e ainda está trazendo essa incerteza de ninguém saber o que vai acontecer.”

  • Do ponto de vista jornalístico, ele encontra outro paralelo. “O melhor trabalho é ir para rua, para o fronte. Sair sem pauta, tentar encontrar essas vidas que estão sendo impactadas. Sempre tem histórias inacreditáveis”, comentou. 

Jornalista pessoa física

  • Em Manaus, Boechat seguiu os protocolos básicos de segurança: usava luvas, máscara cirúrgica o tempo todo e álcool em gel. “A máscara é fundamental. Tive contato com muita gente contaminada e não me contaminei. Por alguma razão, achei que estava imune, mas não estava, foi a proteção mesmo”, contou. 

  • Ele acabou pegando COVID-19 algumas semanas atrás, na Armênia, onde estava cobrindo o conflito em Nagorno-Karabakh pela Band. “Foi horrível, fiquei 14 dias isolado na capital, tive todos os sintomas. Fui parar no hospital duas vezes, com pneumonia, ninguém falava inglês lá.” 

  • Diante de tanto sofrimento que presenciou na carreira, o jornalista disse que se sensibiliza, mas consegue manter um distanciamento emocional da situação. “Tenho uma postura pragmática. Assumo um papel de observador. Se me envolvesse emocionalmente, não seria jornalista...Se um médico se emocionar toda vez que chegar um adolescente com um tiro no hospital, ele não vai poder fazer nada”. Ele explicou que ter crescido na Baixada Fluminense, onde viu de perto a violência na juventude, e a cobertura para páginas policiais ao longo da trajetória como jornalista o ajudaram a lidar melhor com essas questões. 

  • Para encerrar o bate-papo, Boechat deu dicas para quem está começando no jornalismo e gostaria de cobrir conflitos. “É difícil falar: vá para guerra, afinal, você pode morrer, mas repetiria o conselho do Robert Fisk, repórter inglês que cobre o Oriente Médio há 40 anos: não dá para fazer isso sentado numa cadeira, em casa, pelo computador, se não for lá, ver, sentir o cheiro, ouvir, sentir o que os soldados estão passando. Isso não significa ser um suicida na linha de frente, mas estar sempre bem atrás.” 

  • Igualmente importante é ler muita história, entender como os conflitos são construídos e as contradições do mundo. “Construções sociopolíticos e econômicas são fundamentais para fugir do maniqueísmo, que é a matéria-prima das narrativas. Se você se aprofunda, você foge dessas narrativas maniqueístas, que são sempre contraditórias”, encerrou.  


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem de cemitério em Manaus, Amazonas. Cortesia de Yan Boechat no Instagram.