Jornalista do mês: Saleck Zeid

porTaylor Mulcahey
May 31 em Jornalismo investigativo

"Aqui na Mauritânia, não temos jornalistas investigativos", disse Saleck Zeid.

A liberdade de imprensa na Mauritânia diminuiu nos últimos anos, especialmente depois de uma nova lei que torna a blasfêmia um crime punível com morte. Muitos jornalistas praticam a autocensura para evitar discutir tópicos polêmicos, e as organizações de mídia independentes enfrentam desafios financeiros. Mesmo quando os jornalistas têm a capacidade de informar sobre temas como suborno e irregularidades do governo, o governo tenta reprimi-los.

No entanto, o próprio Zeid está desafiando a noção de que a reportagem investigativa não existe na Mauritânia.

"Eu queria ser jornalista quando era pequeno", disse Zeid. "Eu tinha esse sonho."

Enquanto estudava inglês na universidade, um colega viu os posts de Zeid no Facebook e decidiu apresentá-lo a um jornalista em uma emissora de rádio, onde ele logo começou a trabalhar. Não demorou muito para Zeid descobrir a IJNet e começar a procurar oportunidades para desenvolver ainda mais suas habilidades de jornalismo.

Em 2017, ele usou o site para encontrar um workshop para líderes da sociedade civil na Tunísia.

“Eles me escolheram para participar juntamente com 15 jovens líderes de países árabes”, disse ele. “Acho que mudou a maneira como penso e me ajudou a conseguir contatos com jovens líderes de outros países.”

Logo depois, Zeid descobriu uma oportunidade de trabalhar com o grupo Repórteres Árabes para Jornalismo Investigativo (ARIJ). Consciente da falta de jornalistas investigativos na Mauritânia, ele foi encorajado pela experiência da ARIJ apoiando investigações em países árabes e decidiu concorrer de qualquer maneira. Eles aceitaram sua proposta investigativa na terceira vez que ele se inscreveu, e ele trabalha com a ARIJ desde então.

Zeid participou recentemente do fórum anual de jornalismo investigativo do ARIJ em Amã, na Jordânia. Foi uma oportunidade para ele encontrar jornalistas de todo o mundo e participar de workshops.

Desde então, Zeid faz investigações. Ele publicou uma reportagem sobre o assédio sexual --apoiado por um documentário curto-- no Raseef 22, e outra matéria sobre vítimas de estupro mauritanas no Vice Árabe. Ele também conta que as investigações multimídia que ele vem trabalhando com a ARIJ serão publicadas em breve.

Zeid continua a trabalhar como apresentador de rádio na Rádio Mauritânia e está solicitando um Fulbright que começará no próximo ano.

A IJNet conversou com Zeid para discutir sua experiência como jornalista investigativo na Mauritânia.

IJNet: Você é o primeiro jornalista que estamos apresentando da Mauritânia. Como é trabalhar como jornalista nesse país?

Zeid: A realidade aqui na Mauritânia é muito difícil. Jornalistas aqui trabalham sem contrato para organizações. Um dia, eu estava cobrindo um protesto que foi organizado por estudantes da universidade, e a polícia começou a me pressionar e me pedir para não tirar fotos. Eles me pediram para sair de lá. É muito difícil ser jornalista e, quando você escolhe ser jornalista, precisa saber disso. [Você não receberá dinheiro] e as pessoas não o respeitarão, mesmo que você faça um bom trabalho. O jornalismo é, como se diz aqui na Mauritânia, trabalho de desempregados. 

Qual foi sua história favorita de reportar?

Eu acho que minha história favorita foi a reportagem sobre assédio sexual, porque é um tabu aqui. Conheci vítimas e, quando falaram comigo, foi a primeira vez que falaram com um jornalista. A matéria ficou muito boa porque [as pessoas] na Mauritânia começaram a falar sobre isso e está ajudando garotas a falar sobre esse problema e o que aconteceu com elas. Elas postaram muito no Facebook e no Twitter falando sobre sua experiência com o assédio sexual.

Qual seria o seu conselho para alguém que está começando sua carreira no jornalismo?

[Se alguém] quer ser um bom jornalista e produzir matérias que mudam a sociedade, precisa conferir os sites que podem ajudá-lo e não hesitar em fazer perguntas ou concorrer a oportunidades. Se rejeitarem você, deve tentar de novo e de novo e de novo, até ter sucesso. Sem tentar, não podemos melhorar nossas habilidades.

Há mais alguma coisa que você gostaria que os leitores soubessem sobre a Mauritânia?

Eu só espero que organizações internacionais ou jornalistas se interessem pela Mauritânia e questões daqui. Quando vejo a Mauritânia em sites de organizações internacionais, não consigo encontrar nada de útil. Eu vejo [oportunidades para] jornalistas no Marrocos e na Tunísia, mas a Mauritânia não é um dos países que podem participar.

Imagens cortesias de Zeid