Jornalista dá dicas de como produzir podcasts de sucesso

porMarina Monzillo
Apr 1, 2021 em Jornalismo multimídia
Logo do podcast "Café da Manhã"

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

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Uma maneira de passar a notícia com descontração e, ao mesmo tempo, rigor. É assim que Magê Flores, editora de podcasts da Folha de São Paulo, descreve o formato que se popularizou nos últimos anos. Segundo pesquisa da Kantar Ibope encomendada pela Globo, o número de pessoas que escutam podcasts regularmente aumentou 33% no Brasil em 2020.

A jornalista, que foi a convidada do webinar “Dicas para um podcast de sucesso”, realizado pelo Fórum de Reportagem Sobre a Crise Global de Saúde em 31 de março. Flores também é apresentadora do “Café da Manhã”, que desde 2019, cobre as principais notícias de cada dia e abriu caminho para outras produções em áudio da Folha. Ela contou como é a produção do programa, mencionou as adaptações feitas durante a pandemia e compartilhou seus aprendizados sobre o formato. 

 


 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 
 

Rotina de um podcast diário

  • “Toma o dia inteiro e só é possível porque temos uma engrenagem, uma equipe”, contou Flores. Ela detalhou que a produção do “Café da Manhã” começa olhando para o noticiário da manhã, discutindo qual será o assunto do dia. “Participamos da reunião de pauta semanal do jornal, que dá um norte do que está vindo; a programação muda muito com a temperatura”, comentou. Então, vem a pesquisa e a definição do entrevistado. A entrevista ocorre, em geral, do meio para o fim da tarde — jogam para frente para evitar envelhecer até a manhã seguinte. Os produtores também vão atrás de sonoras que ajudam a contar a história ou trazer uma informação que faltou na explicação do entrevistado. O episódio editado é devolvido por volta das 22h, para rodada de ajustes. “É trabalho da manhã até a noite. Fazer podcast diário não é brincadeira.”

  • Mais para frente, ao ser questionada sobre direitos autorais, a jornalista disse que o ‘Café da Manhã’ usa áudios exclusivos de outros veículos sem necessidade de autorização prévia, dando o crédito imediatamente. Ao fim do episódio, também trazem todos os créditos dos materiais que usaram para contar a história. 

Podcasts na pandemia

  • Ela contou que não existe no Brasil uma medição unificada da audiência de podcasts, com dados com o mesmo recorte, mas olhando para os Estados Unidos, dá para se ter um parâmetro. “Porque geralmente há uma semelhança com o que acontece aqui em menor escala”, avaliou. Pesquisas mostraram que em abril de 2020, houve uma queda de 15% no consumo. “A mudança de hábito freou uma tendência de crescimento”, analisou ela. Com o isolamento, as pessoas deixaram de ouvir episódios no caminho para o trabalho, faculdade, escola, mas a recuperação veio um mês depois. No novo cenário, a audiência se distribuiu ao longo do dia e aumentou aos fins de semana. “Podcast é algo muito alinhado a nossa rotina, entra nas janelas que a gente tem. Quando elas mudam, tem de se adaptar.”

  • Desde que começou a pandemia, a Folha de S. Paulo comprou muito equipamento, para deixar toda a equipe trabalhando remotamente com a mesma qualidade de áudio. Flores contou que seu estúdio é em seu quarto, dando a dica de que ambientes com tapete, armários, cortinas e edredom costumam ser melhores para o som. “Barulho de vizinhança é inevitável, mas com os apresentadores acontecem muito pouco, temos a opção de regravar— controlar a qualidade de som do entrevistado é mais difícil”, comentou a jornalista. É comum bater um papo antes para sentir como está a internet e o áudio do entrevistado, pedir para desligar alertas de som do computador e usar o 4G em vez de wi-fi, por ser mais estável. “Fone de ouvido sem fio tem qualidade menor de áudio, com fio bate na roupa e faz barulho; a gente orienta para falar como antigamente, com o telefone no ouvido”, explicou ela, assumindo que acabam sendo menos exigentes se estiverem entrevistando ministros ou diplomatas, por exemplo.  

  • Flores disse se considerar uma ombudsman da qualidade de áudio do “Café da Manhã”. “Áudio ruim dói no ouvido e você está dentro do ouvido da pessoa. Oferecer um áudio de baixa qualidade é desrespeito, é entregar um jornal com letras borradas”, declarou, ressaltando que enquanto na TV existem outros recursos para comunicar uma ideia, no podcast é só o áudio. “Temos de ser rigorosos, se a pessoa perder um trecho, vai seguir sem entender ou te abandonar.”

  • Ela disse que faz falta não estar presencialmente na redação. “O podcast respira o que a redação produz; a gente conseguiu transpor a produção pra casa, mas há muita perda: a urgência vem do que está se falando ao nosso redor. O café, os encontros no corredor, enriquecem o nosso trabalho. Ter de mandar WhatsApp e esperar resposta burocratiza nosso trabalho, mas estamos todos saudáveis, isso que importa.” 

Intimidade com a audiência

  • Uma das características do formato, que Flores afirmou ser o recurso mais precioso do podcast, é pressupor uma intimidade com a pessoa do outro lado, uma relação mais próxima do que o papel oferece. “Um bom podcast se apropria disso”, opinou. Ela também ressaltou que há mais informalidade e que o jornalista se mostra mais, chegando com seu conhecimento, mas também com seu humor, ironia e até insegurança. “Fazemos uso disso trazendo informações sobre o jornalista, seu background, valorizando a redação”, disse. Para ela, trazer a riqueza do bastidor da reportagem tem um papel educativo. “Em um momento em que o jornalismo é questionado por tanta gente, entendemos que é nosso papel mostrar esse ofício, apresentá-lo mesmo.”

  • Por conta dessas características, o podcast acaba acessando um público diferente do que as organizações costumam ter. Os ouvintes são, em geral, mais jovens que os leitores do jornal. “A gente apresenta o jornalismo da Folha para muita gente e isso é bastante relevante”, afirmou Flores, acrescentando que a curadoria de notícias que fazem é especialmente importante no cenário atual, em que se recebe informação de todos os lados sem saber a procedência. Para ela, não foi à toa que newsletters ressurgiram ao mesmo tempo que os podcasts se popularizaram. A estratégia para levar o público de uma plataforma do jornal para outra é relacionar o conteúdo e “inclusive, usar as redes sociais do veículo para estabelecer essa ponte”, disse. 

Dicas para quem quer começar

  • Flores respondeu dúvidas sobre equipamentos de captação de som e programas para gravação remota, mas deixou claro que tudo depende da pretensão do projeto. “Se ter de comprar um microfone vai te impossibilitar de fazer o podcast, faça sem. Não deixe de realizar seu projeto por isso. Tem gente que faz pelo WhatsApp, vai da necessidade, da verba, da estrutura”, e ela deu o caminho: “Eu assumiria a estética, deixaria clara a situação. Deixa o barulhinho de notificação da mensagem chegando”. De qualquer forma, ela listou algumas dicas, como o uso de um fone de ouvido que cubra toda a orelha, de aplicativos de gravação que tenham silenciador e sobre o uso de pedestal para o microfone, ajudando a manter uma boa postura, o que influencia no jeito de falar. 

  • Sobre a preparação da voz, a jornalista também comentou que há liberdade no formato. “O podcast se desprende da impostação, do vozeirão, falamos como conversa, isso é uma libertação e abre caminho para quem não tem voz maravilhosa, mas tem carisma, é claro para comunicar”. Ela comentou que há bons podcasters que nunca passaram por treinamentos específicos. “A gente precisa ter consciência sobre o jeito que se comunica, preste atenção no modo que conta uma história, não só no jeito de falar, mas por onde começar, que ferramentas usa, qual o lide. No ‘Café’, usamos o roteiro, temos cuidado com a precisão, a palavra certa, levando em conta nosso jeito de falar.”

  • A duração de um episódio depende muito da proposta, mas Flores defendeu que em até 30 minutos se consegue contemplar muito conteúdo e se encaixar bem na rotina das pessoas. “Acho que é um ótimo medidor, mas não há regra”, disse. 

  • Dando um passo atrás, ela trouxe um questionamento para quem quer começar um podcast: “Seu projeto precisa existir? Se sim, qual o formato ideal?”. A jornalista deu o exemplo: “Há uma onda de mesas redondas no mundo, que têm seu papel; muitas vezes é divertida, a conversa rola solta, precisa de menos estrutura e pouca edição, mas é ideal para alguns projetos, não todos. Qual a diferença da sua mesa redonda para as outras que já existem?”

  • Como toda moda, a onda do podcast sofrerá uma baixa e só sobreviverão alguns programas, segundo Flores. “É como na gastronomia, teve a onda da hamburgueria, da paleta mexicana”. Ela disse não saber o segredo para perdurar, mas absorver as benesses que o formato traz, ter bom host, conteúdo e repertório, olhando para o que está sendo feito fora no Brasil — “porque eles estão sempre à frente" — seriam os caminhos que apostaria. 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem principal: logo do podcast "Café da Manhã"