Jornalista brasileira cria site para ajudar famílias afetadas por zika

porElisa Tinsley
Mar 9, 2016 em Diversos

Em dezembro, quando o Brasil estava apenas começando a compreender a ameaça representada pelo vírus zika, uma intrépida repórter de um programa de jornalismo de saúde do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) escreveu sobre a gravidade do problema. Em sua matéria para a Revista Crescer, a jornalista brasileira Maria Clara Vieira entrevistou especialistas do Hospital da Universidade de Emory, em Atlanta, que ela visitou como parte de uma viagem de estudo do ICFJ, apoiada pela Johnson & Johnson, sobre questões de saúde materna e infantil.

Na matéria, ela também ofereceu estratégias de curto prazo para ajudar as mulheres brasileiras a evitar a infecção. No dia 1° de fevereiro, menos de dois meses depois, a Organização Mundial da Saúde declarou que o vírus transmitido por um mosquito é uma emergência de saúde pública global.

A matéria foi apenas o começo do esforço de Maria Clara em ajudar milhares de famílias com crianças nascidas com microcefalia, um defeito de nascença ligado ao vírus zika, segundo especialistas. Maria Clara lançou recentemente um projeto online chamado "Cabeça e Coração" para ajudar a conectar as famílias cujos filhos nasceram com microcefalia.

Os perfis dessas famílias são testemunhos comoventes. Eles ilustram a luta em lidar com o impacto emocional e econômico da doença. Muitas famílias afetadas vivem em áreas onde os serviços de saúde, especialmente para as pessoas com deficiência, são limitados. O projeto de Maria Claria visa ajudar as famílias a obter assistência para suas crianças com necessidades especiais.

Em uma entrevista para Elisa Tinsley do ICFJ, Maria Clara explica como o projeto já está causando impacto.

Qual é o principal objetivo do projeto "Cabeça e Coração"?

Maria Clara: O objetivo principal é criar empatia (para os bebês afetados e suas famílias) nessa crise. Esses bebês não são números. Eles têm rostos, nomes, famílias e necessidades especiais. Estou entrevistando as mães por telefone, porque elas estão em todo o país. Elas me contam sobre a gravidez, o parto, a experiência com a infecção de zika e o progresso do seu bebê. A intenção é usar o poder da internet e das redes sociais para encontrar doadores que possam ajudar essas famílias obterem o que precisam.

Como você descreveria a maioria das famílias afetadas?

MC: Elas são socialmente vulneráveis. Geralmente os pais são desempregados e vivem em áreas pobres. Fraldas, fórmula de bebê, carrinhos e outros produtos do bebê são caros no Brasil. Então elas precisam de ajuda.

Descreva a plataforma "Cabeça e Coração".

"Cabeça e Coração" é uma plataforma virtual que conecta pessoas que querem ajudar com as pessoas que precisam de ajuda. Cada post é uma história de um bebê. No final do post, os doadores podem encontrar uma lista de itens que o bebê precisa (fraldas, carrinhos, etc.) e o endereço das famílias.

Qual o impacto que o projeto teve até agora?

A rede social parece ter um impacto positivo. As mães dizem que estão recebendo doações de todo o Brasil. Elas estão realmente felizes. Pequenas coisas, como um pacote de fraldas ou leite em pó, fazem a diferença.

Como a mídia brasileira está cobrindo a crise de saúde?

Eu não vi muito sobre como as famílias estão lidando com bebês afetados pela microcefalia. Porque o Brasil tem uma população muito pobre e assistência à saúde precária (especialmente no Nordeste, a região mais afetada), esses bebês precisam de cuidado muito especial. Além disso, eu não vi matérias em profundidade que perguntam por que os números oficiais dos casos estão tão longe da realidade.

Você está entre os seis vencedores do Concurso Global de Reportagem Saúde do ICFJ que participaram de uma viagem de estudo aos EUA em dezembro. A visita ajudou você a cobrir a crise?

A bolsa do ICFJ me ajudou muito. Quando eu estava no Museu do Centro Carter em Atlanta, eu vi um trecho de um famoso discurso por Jimmy Carter na parede. Ele disse: "Nós podemos escolher aliviar o sofrimento. Podemos optar por trabalhar em conjunto para a paz. Nós podemos fazer essas mudanças - e devemos..." Quando li isso, eu já estava pensando em começar o projeto "Cabeça e Coração". Depois disso, eu tinha que fazer isso acontecer. Acho que, ao contar histórias das pessoas, podemos fazer grandes coisas e criar mudança.

Este post foi publicado originalmente pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e foi traduzido ao português pela IJNet com permissão. Elisa Tinsley é vice-presidente adjunta de programas do ICFJ.

Imagem principal sob licença CC no Flickr de Jeso Carneiro