Focas se destacam através do empreendedorismo de mídia

porEvandro Almeida Jr
Oct 26, 2020 em Jornalismo básico
3 jovens empreendedores: Luane Ferraz, Bruno Nomura e Norberto Liberato

Empreender no jornalismo brasileiro deixa de ser para quem está há muito tempo na estrada. Cada vez mais recém-formados desenvolvem projetos durante a graduação. Outros, empreendem assim que se formam. 

Nessa reportagem conversei com jovens ousados que criaram uma agência de jornalismo investigativo, um podcast e o primeiro veículo brasileiro de jornalismo de quadrinhos. 

Agência Retruco em Pernambuco

Inspiração: Nexo, Vice, Marco Zero Conteúdo, piauí, Agência Tatu, Repórter Brasil, Agência Pública, Folha de São Paulo, The Intercept

A ideia de criar uma agência de jornalismo investigativo surgiu no primeiro ano de graduação pela UFPE e foi maturada ao longo dos três anos seguintes. A pernambucana Luane Ferraz diz que estudou muito o tema antes de criar uma agência de reportagem focada em jornalismo investigativo no nordeste

Foram meses estruturando o projeto, sem dividi-lo com ninguém. Criou coragem e montou uma equipe. “Fiz uma imersão nas produções de amigos e profissionais locais, na tentativa de encontrar pessoas ideais para encarar essa jornada comigo. Quando senti que a casa estava pronta, convidei cada um separadamente para uma conversa, apresentei o projeto e fiz o convite”, Ferraz conta.

A principal dificuldade que enfrenta é que o projeto ainda não é sustentável. Mas apesar de pouco tempo de nascimento, a equipe conseguiu duas bolsas de reportagem: uma pela Agência Pública e outra pela Fundação Gabo para ajudar a remunerar os colaboradores voluntários e fazer reportagens mais robustas.

Para os focas que também querem empreender, Ferraz alerta: “O mundo está cheio de iniciativas vazias, por isso, é preciso ter propósito e entendimento de que tipo de impacto você quer gerar. Isso tudo é um caminho longo, exige muito estudo e planejamento.” 

Ferraz também chama atenção para ter uma equipe multidisciplinar.  “E aí vem a segunda dica, você não precisa fazer tudo sozinho. É fundamental ter pessoas com você nessa jornada e sempre manter conexão com bons designers, bons cineastas, bons gestores e por aí vai.” 

Bendita Geni, um podcast para o público LGBTQIA+

Inspiração: The Daily (New York Times), Café da Manhã (Folha de S. Paulo) e O Assunto (G1)

Motivado pela música "Geni e o Zepelim" — em que Chico Buarque trata da violência sofrida por uma travesti —  o paranaense Bruno Nomura também tinha vontade de empreender durante a universidade sobre a temática LGBTQIA+, que vinha ganhando espaço em sua vida.

Com o podcast Bendita Geni, Nomura consegue aproveitar melhor a essência da plataforma, já que é originalmente voltado a públicos específicos — o que possibilita uma linguagem mais próxima e direcionada. 

“A proposta do projeto é ser um importante canal de diálogo e reflexão especificamente entre a comunidade LGBTQIA+, que ainda hoje carece de espaços jornalísticos especializados menos focados em entretenimento e mais ligados a discussões sobre política e movimento,” diz Nomura.

O podcast conta com campanhas de financiamento recorrente e, mesmo em meio à crise, um pequeno número de apoiadores colabora mensalmente com o projeto. Nomura já planeja um cenário futuro. “Pretendo torná-lo um projeto de comunicação aliado a programas de impacto social, pensando sempre na comunidade LGBTQIA +”, explica ele. “Nosso intuito é ser uma ferramenta para acelerar esse processo.”

Revista Badaró, desenhando a realidade

Inspiração: The Nib, Charlie Hebdo, El Jueves, Archcomix, La Revue Dessinée, Joe Sacco e Alexandre De Maio

Foi também durante a universidade que o sul matogrossense Norberto Liberator e amigos tiveram a ideia de fazer jornalismo de quadrinhos, criando a Revista Badaró

“O contato com essa mídia e a descoberta, durante a pesquisa do TCC, de que não havia um veículo especializado neste tipo de produção, foi um dos pontapés iniciais para que pudéssemos focar as publicações na linguagem dos quadrinhos”, diz Liberator.

O projeto tem pouco mais de um ano, mas já rende frutos. A revista conseguiu uma parceria com o Catraca Livre para  publicação de quadrinhos a cada 15 dias e outra com o MST para produzir uma HQ de produção agroecológica. 

Liberator diz que o plano é de que em dois ou três anos possa viver desse projeto. Por hora, vai mantendo a revista através de financiamento coletivo. Assim como os outros “focas”, ele reitera muito cuidado com o empreendedorismo e se preocupa com a sustentabilidade a longo prazo. “Tem que racionalizar, estudar, se formar com pessoas do ramo e fazer as coisas com cuidado,” diz.


Evandro Almeida Jr é jornalista móvel. Ele é correspondente no Brasil e integrante da Red LATAM de Jóvenes Periodistas do Distintas Latitudes.