As falhas do programa do governo Lula "contra desinformação"

Nov 27, 2023 em Combate à desinformação
Lupa no quebra-cabeças

O texto a seguir foi extraído da publicação da Lupa que conta mais detalhes desta investigação e que você encontra aqui.


Lançado em 24 de março para responder "às principais fake news" que rondam o governo federal, o programa "Brasil contra fake" publicou 168 conteúdos em sete meses (até 31 de outubro). Levantamento feito pela Lupa em parceria com a Lagom Data mostra que, apesar de o portal gerenciado pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República simular uma iniciativa de checagem de fatos, 52% de suas notas de esclarecimento não seguem princípios básicos dessa prática: não têm fontes linkadas, ou seja, não são transparentes quanto à origem da informação usada para desmentir um boato, ou se baseiam apenas em sites do próprio governo ao tirar conclusões sobre a veracidade de um assunto. 

Quando o programa foi lançado, o ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, anunciou a iniciativa exultante, como uma espécie de ferramenta de checagem para a população. Na época, afirmou que o brasileiro finalmente poderia "checar os posts que recebe pelas redes sociais antes de repassar a informação", tomando por base o conteúdo produzido pelo "Brasil contra fake".

Mas uma análise detalhada dos sete meses do programa indica que a iniciativa federal não faz checagem de fatos de forma profissional, a exemplo de organizações como Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica e UOL Confere, signatários brasileiros do Código de Ética e Princípios da International Fact-checking Network (IFCN), a rede mundial de checadores de fatos. O espaço obedece à lógica usada para gestão de imagem e publicidade institucional.

Em 64 das 168 das notas disponíveis no site da iniciativa até 31 de outubro – 38% ou cerca de quatro em cada dez – só havia links do próprio governo justificando as conclusões ali obtidas. Em outras 24 notas (14%), não havia qualquer link para que o leitor pudesse checar a fonte utilizada pelo governo para validar ou rechaçar determinado rumor. 

Em março de 2023, por exemplo, circulava pelas redes sociais e por aplicativos de mensagem a informação de que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha enviado "apenas 2 milhões de reais a municípios atingidos por um temporal em São Paulo". O "Brasil contra fake" publicou nota afirmando que a informação era falsa e que "por volta de 10 milhões de reais" já haviam sido liberados para a região. Destacou, ainda, que o governo tinha a projeção de enviar "R$ 120 milhões em recursos aos municípios" afetados. O texto, porém, não tinha — até a publicação desta reportagem — qualquer link ou documento oficial que sustentava a afirmação. 

Em 6 de abril, outro exemplo: o "Brasil contra fake" publicou um texto classificando como falsas mensagens virais que afirmavam que o governo federal havia cancelado a renegociação de dívidas com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A única fonte apresentada para negar a informação era uma nota do Ministério da Educação – que não estava disponível de forma pública nem linkada no texto até a publicação desta reportagem.

Checadores profissionais (como ReutersAos Fatos e Lupa) trabalharam o mesmo tema, e buscaram diferentes fontes de informação – oficiais e nos portais de notícia – para falar sobre o mesmo assunto. Foi assim que conseguiram mostrar a origem daquele conteúdo falso: uma imagem manipulada a partir do portal de notícias G1.

Mais um caso semelhante ocorreu quando o "Brasil contra fake" negou que o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, tivesse dito que prenderia quem andasse armado e não fosse ladrão. Ao desmontar a falácia, checadores profissionais citados acima analisaram sites de notícia e as redes sociais do ministro, além de conectar a seus textos as URLs de ao menos três leis ou decretos com o intuito de ajudar os leitores a compreenderem o assunto. O “Brasil contra fake" disse apenas que aquela notícia falsa sobre Dino era um "conteúdo que visava descreditar o decreto n.º 11.366” promulgado por Lula em 1º de janeiro de 2023. 

Dados produzidos por governos são importantes em muitos casos em que a veracidade de um conteúdo está em jogo, mas eles não podem nem devem ser tomados como fonte absoluta. 

Popularizada no Brasil a partir de 2014, a checagem de fatos é feita de acordo com parâmetros internacionais de transparência (de metodologia, fonte de informação e fontes de financiamento), apartidarismo e política de correção. A não apresentação de fontes ou a apresentação de uma fonte única ao leitor fere esses princípios. 

 

O fato de o "Brasil contra fake" ter copiado a estrutura de texto das plataformas que se dedicam à checagem de fatos do país e de ter sido anunciado como uma fonte para dados inequívocos leva a audiência a confundir o trabalho feito pelo jornalismo – em nome do interesse público – com o trabalho de promoção institucional próprio dos órgãos de comunicação governamentais.

Procurada para comentar sobre as conclusões do levantamento da Lupa com a Lagom Data, a Secom reconheceu que o programa, inicialmente criado para responder às "principais fake news" que envolviam o Executivo, passou por ajustes. 

Agora, "em vez de se limitar a identificar o que é falso, a campanha ["Brasil contra fake"] se esforça para explicar como as ações do governo federal funcionam", escreveu a Secom, distanciando de vez a iniciativa de sua proposta original.

Para o órgão, o programa agora também "visa educar os cidadãos e ampliar a conscientização sobre os assuntos relacionados às políticas públicas do Executivo Federal". Não há, no entanto, informações sobre alterações no nome da iniciativa – o que se vê é uma mudança sutil e silenciosa nas publicações do projeto.

À época de seu lançamento, em março, o "Brasil contra fake" usou as expressões "é falso que" ou "é fake que" em 38 de suas 50 notas. Essa é a mesma estrutura tradicionalmente usada por checadores profissionais para desmentir boatos que circulam em redes sociais (veja exemplos aquiaquiaqui e aqui). Em outubro, no entanto, nenhuma das 71 publicações feitas no site do projeto tinha essa formulação. Em ao menos duas ocasiões, foram usadas a expressão "o que você precisa saber" como forma de repassar ao cidadão informações que o governo julgava essenciais, sempre com seu próprio ponto de vista.


Foto: Canva