Examinando mais a fundo com as perguntas básicas do jornalismo

porJohn Kroll
Nov 21, 2013 em Jornalismo básico

As perguntas básicas (quem, o quê, quando, onde, por quê e como) são sagradas no jornalismo.

Elas geralmente são aplicadas a matérias inteiras, como Jeremy Porter escreveu no blog Journalistics. Mas também são a chave para a verificação dos fatos, especialmente quando você está apurando estatísticas mencionadas em discursos ou algo semelhante. Um excelente exemplo disso é uma reportagem da revista BBC News sobre a alegação de que 100 mil cristãos por ano são mortos pela sua religião. Esse número foi citado até pelo Vaticano.

É o tipo de número que deve aumentar imediatamente as suspeitas de um jornalista: Como alguém poderia contar?

Ruth Alexander da BBC examinou o caso de perto. O jeito que ela fez é instrutivo para todos os jornalistas.

Quem: Ela traçou o número de volta para sua fonte original, um relatório anual do Center for the Study of Global Christianity. Números como esses são muitas vezes citados em outros relatórios sem atribuição. O Vaticano, por exemplo, disse apenas que o número "100 mil" veio de uma "investigação crível". Muitas vezes, como um número é passado de uma pessoa para outra, a fonte original é substituída por qualquer repetidor que parece mais crível. Graças à internet, é relativamente fácil hoje rastrear a fonte original. Só achando a fonte original que você pode encontrar de forma confiável as respostas para as outras perguntas.

O que: Uma vez que você encontrou a fonte original, deve saber o que foi realmente dito. Como observa a história de Alexander, algumas variações sobre o número de martírio incluem alegações de que 100 mil é a contagem dos cristãos mortos apenas por muçulmanos. Isso não é o que o relatório original disse.

Quando: Os números são muitas vezes retirados do seu contexto. Em particular, eles podem se ser de anos atrás. Um repórter tem que perguntar: Isso ainda é verdade? O número do CSGC é uma média de mortes entre 2001 e 2010. O próprio diretor do grupo admite que um fator único relativo a esse período significa que o número já está bem desatualizado.

Então, provavelmente está diminuindo a cada ano agora, mas o método não é exato o suficiente para [fazer esses ajustes], então eu apenas mantive em 100 mil nos últimos dois anos, mas provavelmente vou ter que diminuir o número, a menos que algo venha à nossa atenção.

Onde: A localização pode ser outra questão contextual. É um número que deve se referir apenas a uma área limitada, sendo aplicado globalmente? Este não é o caso dessa contagem. A fonte original, de fato, declarou 100 mil mortes como um total mundial. Mas há uma questão sobre "onde". O número é relatado como um total em todo o mundo, o que implica que é um problema generalizado. Mas, cerca de nove em cada 10 dessas mortes ocorreram em um país: a República Democrática do Congo.

O sentido mais amplo do "onde" é um problema comum nas reportagens de saúde. Estudos com amostras pequenas são reportados sem ressalvas adequadas. Experiências de psicologia são tidos como verdades globais quando as pessoas estudadas eram limitadas a alunos de um colégio de elite.

Por quê: Será que a fonte possivelmente tem motivos que vão além de uma simples busca pela verdade? No caso do número do martírio cristão, o centro é filiado a um seminário. A BBC não indica qualquer razão para suspeitar de parcialidade. No entanto, a análise dos dados do grupo se limita a estudar o cristianismo. Citar um número de mártires cristãos levanta questões sobre números semelhantes para outras religiões (e sobre a relação entre esses números com o total de crentes). No entanto, porque o CSGC não estima contagens para outras religiões, tentar fazer comparações pode ser difícil ou impossível.

Como: Esta é a pergunta mais aberta e também a mais importante. Como esse número foi calculado? Neste caso, perguntar "como?" revelou que o número foi completamente enganoso. Primeiro, é uma média baseada em um chute de cerca de 1 milhão de mortes ao longo da década. Em segundo lugar, 90 por cento dessas mortes vêm de um país. Em terceiro lugar, o número de mortes por esse país é calculado tomando um relato total de todas as mortes na guerra civil da RDC --mais de 4 milhões-- e arbitrariamente, supondo que 20 por cento das pessoas que morreram eram cristãs (uma suposição baseada em uma estimativa de 30 anos sobre a percentagem de cristãos em um país médio africano). A RDC é um país africano médio a este respeito? Provavelmente não -- a República Democrática do Congo é um país cristão, a BBC informou. Será que esse número de 20 por cento ainda se aplica? Foi correto algum dia, ou apenas um número cuspido por alguém em sua origem, a Enciclopédia Cristã Mundial?

Mas isso não é tudo. Mesmo se todas as suposições acima estavam corretas, apenas diz que cerca de 900 mil cristãos perderam a vida na violência da RDC. Eram mártires? A BBC observou que os especialistas disseram que a guerra da RDC foi baseada em etnia, não afiliação religiosa. E foi cristãos matando outros cristãos. Isso ainda pode ser constituído como martírio, é claro --a Igreja Católica tem uma longa lista de pessoas que afirma como mártires nas mãos de protestantes ingleses, enquanto que os protestantes têm uma lista de tamanho semelhante de mortos pelos monarcas católicos. Mas quando você cita uma figura dos mártires cristãos, naturalmente, espera que seus assassinos eram contra o cristianismo como um todo.

Conclusão: De acordo com a análise feita pela BBC e alguns especialistas de fora: o número real de cristãos martirizados por sua fé a cada ano é, provavelmente, cerca de 10.000, de um total mundial de 2,18 bilhões, segundo o Pew Research.

As perguntas básicas do jornalismo são ensinadas a cada jornalista. Mas, muitas vezes, os jornalistas fazem essas perguntas apenas superficialmente --certificando-se, por exemplo, que uma nota sobre um concerto inclua a data, hora, local e preço. Se os repórteres realmente entendessem e aplicassem as perguntas básicas rigorosamente, Steve Buttry não precisaria de uma oficina inteira para explicá-las. (Correção: Steve ressalta que a oficina em questão visava não-jornalistas. Então, é um exemplo ruim para o meu argumento --mas seu post é uma boa explicação sobre o assunto, vale a pena ler.) Se os editores realmente insistissem em aplicá-las em matérias, você nunca veria histórias que tratam as pesquisas de candidatos políticos tão a sério como as de grupos apartidários, e não veria pesquisas relatarem unicamente com base no que foi incluído em um comunicado à imprensa, sem referência às questões específicas feitas e o método pelo que selecionaram os participantes.

O fato triste é que mesmo grandes jornalistas são vítimas do erro de não deixar que os fatos atrapalhem uma boa história. O elemento mais decepcionante da história da BBC é o seu fim. Ruth Alexander falou com John Allen, um repórter do Vaticano, cujo trabalho muito admiro. Ele escreveu um livro que cita o número enganoso do martírio. Quando apresentado com as conclusões da BBC, ele disse:

Eu acho que seria bom ter números confiáveis ​​sobre o assunto, mas eu não acho que realmente importa em termos do ponto do meu livro, que é o de romper a narrativa que tende a dominar a discussão no Ocidente --que os cristãos não podem ser perseguidos por pertencerem à Igreja mais poderosa do mundo.

A verdade é que dois terços dos 2,3 bilhões de cristãos no mundo de hoje... vivem em bairros perigosos. E são muitas vezes pobres. Muitas vezes pertencem a minorias étnicas, linguísticas e culturais. E estão muitas vezes em perigo e, finalmente, eu acho que dar essa mensagem é mais importante do que ser preciso sobre o número de mortes.

Quando um bom jornalista diz que usar um número que infla um problema em cerca de 900 por cento é imprecisão aceitável, sabemos que as perguntas básicas do jornalismo estão sofrendo seu próprio martírio.

John Kroll é um jornalista digital com experiência em edição, treinamento, criação e gerenciamento de conteúdo. Este post foi publicado originalmente no blog do autor, John Kroll Digital, e é traduzido para a IJNet com permissão.

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