Estratégias para superar crise do jornalismo, segundo painel da SIP

porAna Luisa González
Jun 16, 2019 em Temas especializados
Good newspaper

A urgência em torno do futuro do jornalismo provocou muitos debates no ano passado. Embora alguns meios de comunicação digitais tenham sobrevivido ao pior dos problemas enfrentados pelos veículos de notícias atuais, outros responderam à crise financeira com demissões em massa.

No momento em que o jornalismo está enfrentando uma variedade de ameaças, a mídia independente requer não apenas mais financiamento, mas também encorajamento e orientação de outras organizações de mídia que implementaram estratégias de sucesso para sobreviver.

Durante três dias no final de março, editores e diretores de redações da América Latina, Estados Unidos, Caribe e Europa se encontraram em Cartagena, na Colômbia, para discutir essas ameaças a sua indústria na reunião semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, em espanhol).

Em um dos painéis de discussão da conferência, Jean François Fogel, diretor do programa de mestrado em gestão de mídia da Sciences Po em Paris, María Teresa Ronderos, ex-diretora do programa de jornalismo independente da Open Society Foundations, e Carlos Fernando Chamorro, diretor do Confidencial na Nicarágua, discutiram novas estratégias para o jornalismo para resistir aos desafios tecnológicos e de sustentabilidade  enfrentados hoje.

Aqui estão as estratégias recomendadas:

Desenvolva uma conexão

Equipes mesmo pequenas são capazes de produzir jornalismo que pode ter um impacto significativo em suas comunidades e além, de acordo com Ronderos. A chave para isso é que o jornalismo deve se conectar com seu público.

“O jornalismo tem que funcionar de forma diferente e não deve fingir ter todas as verdades. Tem que ser um jornalismo que se conecte com os cidadãos e trabalhe com eles”, explicou Ronderos.

Agregue valor

Como o público está sobrecarregado de informações, jornalistas devem pensar em como fazer com que prestem atenção às suas matérias, fazendo com que sejam não apenas verdadeiras, mas também confiáveis ​​e atrativas, explicou Ronderos.

“O jornalismo tradicional no passado se importava com a história e como aperfeiçoá-la; agora, os jornalistas precisam adaptar estrategicamente as matérias aos seus públicos-alvo”, disse ela.

Construa confiança através da transparência

Redações em todos os cantos do mundo estão enfrentando desafios significativos quando se trata de confiabilidade. "A mídia caiu de seu lugar privilegiado e está em uma situação muito difícil", observou Fogel, "especialmente quando os leitores têm a possibilidade de criticar a mídia em tempo real."

Ronderos acrescentou que a perda de confiança nos meios de comunicação de hoje trouxe consigo a atenção significativa das equipes editoriais. Dado esse desenvolvimento, os veículos de comunicação devem ser transparentes sobre seus processos.

"O jornalismo de maior sucesso é do tipo que demonstra muita transparência, mostrando como as matérias são feitas e de onde vêm os documentos e fontes", explicou ela. Ela apontou para Malasyakini, na Malásia, que se tornou uma das principais mídias do país ao usar sua transparência para gerar confiança entre os leitores.

Use a tecnologia tanto para entender seu público como para investigar melhor

É importante aproveitar a tecnologia para se conectar com os usuários. “É fundamental entender como os usuários pensam e incluí-los em sua reportagem, além de saber quem eles são. É aí que os algoritmos são muito importantes para ter acesso rápido aos dados", disse Ronderos.

Além disso, embora qualquer pessoa possa reportar acontecimentos atuais nas redes sociais, os cidadãos comuns não podem realizar um jornalismo investigativo eficaz. A utilização de tecnologia, como algoritmos de programação para rastrear informações, conduzir pesquisas e comparar fontes e dados, é deixada para organizações de maior peso do que os cidadãos comuns.

“Cidadãos comuns não podem contrastar fontes e investigar ou obter documentos por si mesmos. Como há tanta informação e confusão, o jornalismo investigativo é muito importante porque agrega valor, explica o porquê e tenta entender”, observou Ronderos.

Segundo Fogel, o jornalismo que está sobrevivendo é do tipo que trabalha com grupos comunitários locais e usa a tecnologia para contar suas histórias. Ele apontou para sites como El Pitazo na Venezuela, Efecto Cocuyo na Venezuela ou El Mostrador no Chile como exemplos que incorporam essa abordagem na América Latina, além de sites como De Correspondent na Holanda e Krautreporter na Alemanha.

Fogel continuou, acrescentando que o podcasting está crescendo em muitos países. Os podcasts que estão se tornando bem sucedidos não são sobre notícias de última hora, mas aqueles que se aprofundam em questões para esclarecer sobre uma pessoa ou um tópico que poderia ser ignorado.

Colabore com outras organizações

A liberdade de expressão se deteriorou na Nicarágua desde que a polícia suprimiu violentamente os protestos contra o regime de Ortega, na primavera de 2018. A Polícia Nacional invadiu o Confidencial, uma das principais agências de notícias do país; Carlos Fernando Chamorro, editor do Confidencial, é um dos mais de 60 jornalistas nicaraguenses que foram forçados a fugir do país nos últimos meses por razões de segurança.

"Quando essa rebelião começou na Nicarágua, percebi que não havia como fazer jornalismo se não nos conectássemos com o empoderamento dos cidadãos que cobriam a repressão, os protestos e o escopo nacional que detinha", disse Chamorro.

Essas colaborações com os cidadãos também se estendem ao trabalho em estreita colaboração com outras mídias de notícias. Ele acrescentou: "Tenho visto muitas colaborações entre a imprensa venezuelana durante sua própria crise. É muito importante para nós também trabalhar com os outros."

Um excelente exemplo

Fogel apontou para o PODER 360 como um exemplo de um meio de comunicação que está tendo sucesso hoje. Dirigido por Fernando Rodrigues, e baseado em Brasília, o PODER 360 começou como um blog político em 2000. Em 2016, Rodrigues o transformou em um dos sites de notícias mais populares do país, graças ao jornalismo de qualidade que produz e ao seu investimento em cobertura independente, séria e ampla do poder e política no Brasil.

Dirigida por cerca de 20 jornalistas, a operação é sustentada por meio da produção de uma newsletter chamada  Drive Premium, que fornece notícias e análises exclusivas antecipadamente aos assinantes pagos.

A equipe do PODER 360 também trabalhou recentemente em uma colaboração com o COMPROVA, em um projeto de fact-checking que verificou informações durante as últimas campanhas presidenciais do Brasil, em 2018.


Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Branden Harvey