Especialista dá dicas para evitar transmissão de COVID-19 nas festas de fim de ano

porMarina Monzillo
Nov 18, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Reveillon em praia do Rio de Janeiro, com fogos de artifício ao fundo

De um lado, a vontade de estar junto das pessoas queridas e celebrar uma tradição. Do outro, o receio de que as comemorações de fim de ano resultem em toda a família infectada com o novo coronavírus. Diante da proximidade do Natal e do Ano Novo e de uma possível segunda onda de contágio em curso, o Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde realizou, em 17 de novembro, o webinar “A transmissão de COVID-19 e as festas de final de ano”. 

Para analisar os riscos dos encontros de amigos e familiares e orientar sobre as melhores formas de seguir os protocolos de segurança nessas ocasiões, o evento online contou com a presença de Vitor Mori, físico e engenheiro biomédico que atua no Observatório COVID-19 BR, iniciativa independente e colaborativa voltada à divulgação científica de informações de qualidade baseada em dados.

Para o especialista, será entre a segunda e a última semana de janeiro que veremos os efeitos das festas de fim de ano nos números da pandemia, mas é possível tomar medidas de precaução para minimizá-los.

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa:

Conhecendo as formas mais comuns de transmissão 

  • Mori recordou que a transmissão de COVID-19 acontece por três vias principais: superfícies inanimadas, contaminadas por perdigotos; gotículas, que têm trajetória balística de até dois metros; e aerossóis, as gotículas mais leves, que não caem, ficam no ar e se acumulam.  “No começo, as superfícies tiveram mais atenção de todos, desinfetávamos tudo, mas essa via é menos prevalente do que se imaginava”, explicou. Para as gotículas, a melhor prevenção é o distanciamento, e para os aerossóis, o uso de máscara.

  • “A gente deveria estar com políticas públicas para incentivar atividades ao ar livre. É um contrassenso os parques terem permanecido fechados enquanto shoppings e restaurantes já estavam abertos”, disse. Entre as sugestões, ele citou expandir o conceito da Avenida Paulista aberta aos pedestres para outros locais e restaurantes começarem a colocar mesas na área de estacionamento aberto.

Como adaptar as festas de Natal

  • Como é difícil fazer uma previsão de como estará a taxa de contaminação durante o período de festas de fim de ano, Mori reforçou que o importante é tomar o máximo de medidas de prevenção. “É normal ter uma fadiga depois de todo esse tempo, querer nossa vida de volta, mas vamos lembrar que há coisas mais e menos seguras. Ficar em casa até a vacina é ideal, mas não é viável. As pessoas precisam sair para trabalhar, precisam sair pela saúde mental. Não aguentam mais essa tensão. Fazer o que está no nosso alcance é melhor do que fazer previsões.”

  • Ele chamou a atenção para os eventos de superespalhamento: quando uma pessoa contaminada passa o vírus para várias outras, geralmente em ambientes fechados, sem distanciamento e máscaras, onde se fala alto e se emite mais partículas. “Encontros familiares e de amigos são exatamente assim, dentro de casa, grupos maiores, pessoas mais relaxadas e próximas”, disse. 

  • Portanto, as festas de fim de ano são eventos de grande risco, com potencial de superespalhamento. “O Natal, o encontro familiar, é muito forte na cultura brasileira. Não adianta falar para não fazer. Então, vamos dar dicas: se tiver condições, faça quarentena antes do Natal, mas não adianta todo mundo fazer e uma pessoa não”. Quanto mais o período de quarentena, menor o risco. 

  • Mori também falou para organizar festas com menos convidados, deixar a festança com tios e primos para o próximo ano. O ideal é o encontro ser em lugar aberto, como jardim, garagem, laje ou varanda. Se não for possível, a recomendação é abrir todas as janelas e portas. “Deixe o ambiente bem arejado, use o ventilador virado para a janela: ele puxa o ar de dentro, rico em aerossóis, e leva pra fora. Se conseguir fazer uma ventilação cruzada, melhor ainda, o fluxo de ar será constantemente trocado”, recomendou. Se a reunião já está acontecendo, tocar, abraçar, cumprimentar, não vai trazer um risco extra, explicou o especialista. “É cruel não poder abraçar as pessoas, algo tão forte na nossa cultura. Abrace usando máscara e evite falar nesse momento”, orientou Mori. 

  • Um dos maiores desafios é a hora da refeição, que não é só o ato de se alimentar, mas de socializar e interagir. O ideal é que, neste ano, no momento da ceia, cada um vá para o seu cantinho, sem conversar. “Está longe de ser o que a gente queria, mas são tempos únicos. Acho que a gente consegue passar um Natal assim, eu tomaria muito cuidado com esse momento da refeição  e o consumo de álcool, porque acaba se tirando a máscara o tempo todo e também ficando mais relaxado”, disse. Ele ressaltou que não se refere a Natal abstêmio, mas a não abusar. 

  • Sobre as viagens, a orientação é evitar ônibus e avião, dando preferência aos carros particulares. O ideal é viajar antes e fazer quarentena no local de destino. Outra opção é quarentenar em casa e viajar no dia da festa, já que existe um tempo entre a exposição ao vírus, tornar-se infeccioso e ter sintomas. Para aeroportos, rodoviárias e, especialmente, para os grupos de risco, Mori recomendou o uso da máscara PFF2, que tem maior vedação. Para funcionar, porém, é preciso não estar de barba nem molhar a máscara em hipótese alguma.


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Flickr via PortoBay Experiences