Empreendedores de mídia em Porto Rico contam histórias de luta e resiliência após furacão Maria

porJosé Hernández Falcón
Feb 19, 2018 em Temas especializados

Maria começou a fustigar Porto Rico na noite de 19 de setembro de 2017. O furacão de categoria cinco teve ventos poderosos que atingiram 185 milhas por hora, e o desastre que causou ainda é evidente quatro meses depois.

Na primeira semana de janeiro de 2018, 43 por cento da população da ilha ainda estava sem eletricidade e 4 por cento sem água. A falta de ajuda e assistência lenta dos Estados Unidos (dos quais Porto Rico é um território) pioraram a situação.

Milhares de empresas tiveram que fechar, incluindo organizações independentes de mídia digital. A ilha não tem um número exato de quantas dessas startups de mídia existem ou quantas foram afetadas pela catástrofe, mas a falta de serviços de internet devido à queda de energia e danos nas torres de comunicação naturalmente afetaram esses projetos.

No entanto, apesar da escuridão que abrange o país, algumas mídias digitais foram a luz que as pessoas precisavam no meio do desastre.

Perla Sofía Curbelo é jornalista, educadora, empreendedora e fundadora da Agrochic, uma startup digital focada em jardinagem e agricultura urbana. "Antes do furacão, programei um pouco de conteúdo [com antecedência] porque sabia que ficaria sem eletricidade por vários dias", ela conta, "mas nunca imaginei o impacto do furacão e ficar tanto tempo sem serviços básicos."

Nos dias anteriores à tempestade, Curbelo usou as redea sociais da Agrochic, especialmente o Facebook, para compartilhar conteúdos e mensagens úteis em preparação para o que estava por vir. "Eu compartilhei um monte de conteúdo de terceiros que estavam recomendando recursos relevantes para os cidadãos", diz ela. "Assim que pude ter uma conexão com a internet, atualizei meu blog com um post sobre minha experiência e tentei compartilhar um pouco de ânimo em meio a tanta frustração no país."

Outro empreendedor de jornalismo que conseguiu continuar postando em meio à tragédia foi Rafy Mediavilla, editor-chefe do site de entretenimento digital Los Criticólogos. Los Criticólogos apresenta artigos e entrevistas sobre cinema, televisão, cultura popular e videogames para o público local e internacional. Foi um dos poucos meios que mantiveram a atualização de conteúdo nos dias que se seguiram ao Maria.

Mediavilla antecipou uma inevitável perda de eletricidade e comunicação e delegou temporariamente a responsabilidade de publicar seu conteúdo para colaboradores com sede em Tampa, Flórida.

"O problema real veio depois das duas primeiras semanas da tempestade. Nossa maior preocupação foi como fazer nossos programas ao vivo e produzir conteúdo original. Eu acho que foi isso que me motivou a conseguir um inversor ", explica Mediavilla. Um inversor é um aparelho eletrônico que muda a corrente contínua (como a gerada em automóveis) para corrente alternada, que é usada em estruturas residenciais. Isso permitiu que ele trabalhasse de casa.

Quando a internet finalmente voltou um mês depois, em meados de outubro, ele continuou a produzir o conteúdo que fazia parte de sua publicação fixa. No entanto, Mediavilla estava ciente de que seu maior mercado, Porto Rico, "permanecia no escuro e muitos não tinham como se comunicar para apreciar o conteúdo."

Ele não tinha expectativas sobre receber comentários de sua audiência porque sabia a situação que o país estava passando. "Meu objetivo era simplesmente manter o site atualizado e não perder o conteúdo", diz Mediavilla. "Para minha surpresa, embora nossos números tenham sido afetados pelo evento, após as primeiras duas ou três semanas, aumentaram exponencialmente quando percebi que meu conteúdo dava um respiro no fluxo de más notícias enquanto outros meios de notícias que geralmente consideramos nossos concorrentes tinham deixado de funcionar temporariamente."

La Isla Oeste é uma fonte de notícias localizada no oeste do país, que foi gravemente afetada pelo furacão. "Quando as comunicações entraram em colapso em Porto Rico após o furacão Maria atingir, LaIslaOeste.com também entrou em colapso", conta Daileen Joan Rodríguez, editora do site. "Perdemos imediatamente a capacidade de comunicação com nossos colaboradores ou fontes oficiais e não conseguimos descobrir os efeitos da tempestade... Foi difícil para a gente chegar rapidamente aos lugares onde queríamos fazer reportagens no terreno."

Rodríguez decidiu mudar para a emissora de rádio regional WKJB, em Mayagüez, para transmitir a informação que tinha em mãos.

"Publicar artigos virou um processo lento. Você precisava procurar lugares com internet e lugares para carregar equipamentos eletrônicos", explica Rodríguez. Ainda assim conseguiram publicar um artigo apenas seis dias após o furacão.

La Isla Oeste recebeu ajuda da ViTec, uma incubadora de empresas em Mayagüez, e do Centro de Jornalismo Investigativo, que lhes forneceu um inversor para carregar seus equipamentos através de um carro. "Um dos nossos repórteres continuou a enviar contribuições sem receber pagamento", diz Rodríguez, "para podermos manter o fluxo de informações locais."

Com tudo isso, a situação estava difícil. "O tráfego do site caiu drasticamente e permaneceu assim durante semanas. Só em dezembro que vimos uma recuperação favorável". conta Rodríguez. "Se antes era difícil encontrar anunciantes para o nosso projeto, agora é mais."

A equipe do La Isla Oeste aproveitou a oportunidade para reformular a imagem do site, além de atualizar seu plano de negócios e estratégias de marketing.

Ao mesmo tempo, Rodríguez e sua equipe estão se preparando para quando vir uma nova e inevitável tempestade. "Aprendemos que devemos investir em equipamentos de satélite para evitar ficar fora do ar de novo, em caso de emergência semelhante", diz ela. "Também é urgente angariar um fundo de emergência para ajudar os funcionários em suas necessidades imediatas nesses casos, e assim garantir que seus serviços não sejam interrompidos."

Cada um desses veículos de comunicação alcançou o que muitos outros em Porto Rico não conseguiram. Várias organizações de mídia digital anunciaram que fecharão devido à perda de propriedade de seus fundadores ou à falta de energia e serviços de conexão. Este ano definitivamente será um desafio para a mídia porto-riquenha, mas as histórias de resiliência de Curbelo, Mediavilla e Rodríguez são uma luz no final do túnel.

Este artigo foi publicado originalmente na SembraMedia e é reproduzido na IJNet com permissão. 

José Hernández Falcón é jornalista, blogueiro e amante da evolução da comunicação como resultado da internet. Ele é especialista independente em mídia social e diretor do Puerto Rico BloggerCon, um evento que reúne criadores de conteúdo digital para a Ilha. 

Imagem sob licença CC por U.S. DoD via Sgt. Jose Diaz-Ramos.