Dicas de divulgação científica para jornalistas

porMarina Monzillo
Feb 19, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Fachada do Instituto Butantan em São Paulo

O campo da comunicação pública da ciência é efervescente, o debate sobre ele vem crescendo e, no contexto da pandemia de COVID-19, todos estão aprendendo. 

De um lado, jornalistas estão diante da necessidade de entender profundamente sobre o processo científico e acompanhá-lo de perto. Do outro, cientistas precisam cada vez mais saber se comunicar com a sociedade, principalmente, com o público leigo. 

Para participar do webinar “Divulgação científica para jornalistas” e abordar os caminhos que os dois tipos de profissionais podem percorrer para levar informações claras e honestas a um maior número de pessoas, em 18 de fevereiro o Fórum de Jornalismo sobre a Crise Global de Saúde convidou Luís Amorim, coordenador do curso de especialização em Divulgação e Popularização da Ciência da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz); e Sarah Azoubel, apresentadora e produtora do podcast 37 graus e professora do curso de especialização em comunicação da ciência da Amerek (UFMG).

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

  •  Azoubel começou dando sua visão de bióloga que migrou para a comunicação. “Há vários lugares para jornalistas que querem falar de ciência. São muitos nichos, não tem só a ciência pura, há várias interfaces, como o jornalismo de dados”. Ela listou que, na cobertura da ciência, existem os profissionais mais especializados, por estudo ou experiência; aqueles que estão no dia a dia da redação e caem pautas de ciência para fazerem; e ainda há pessoas como ela, que estão em veículos independentes. De qualquer forma, Azoubel acredita que é benéfico o jornalista entender o processo da ciência para informar de forma clara e honesta, sem que passe um estudo em construção como algo absoluto, um erro comum no jornalismo de ciência. 

  • A formação em jornalismo científico ainda é incipiente no Brasil, explicou Amorim. A matéria costuma aparecer como eletiva nos currículos dos cursos de comunicação das universidades. “Essa formação, muitas vezes, é feita na prática, o que é relevante; a gente tem inúmeros jornalistas muito qualificados que foram formados na prática e depois procuraram se especializar”. Ele disse que a Casa Oswaldo Cruz recebe cerca de 10 a 20% de alunos da área de jornalismo nas turmas. “Entender o método científico é muito interessante para você ser capaz de discuti-lo e, ao mesmo tempo, entender que ele não é seguido à risca como a gente pensa, porque a ciência é feita por seres humanos, têm disputas entre grupos e por financiamento. Tudo isso interfere na ciência ― é interessante pensar que ela é parte da sociedade”, afirmou. “Eu acho que o mais importante que um curso faz é trazer essa discussão da criticidade em relação ao seu papel como jornalista e esse empoderamento para poder se contrapor a cientistas e pre-releases", completou ele. 

  • Já Azoubel disse considerar valiosa a mistura de pessoas na sala de aula. “Eu convivia há mais de dez anos só com cientistas. Na especialização, metade da minha turma era de jornalistas; esse convívio, além das aulas, é muito importante. Meu conselho para quem quiser migrar da ciência para o jornalismo ou vive-versa, seja em um curso ou não, é começar a ter um canal de conversa com as pessoas do outro lado”. Ela comentou que para o jornalista, além de entender o método científico, falta saber na prática como é a vida no laboratório, como se publica um paper. “Entender a importância que você tem de dar para o contexto daquele paper que, às vezes, é mais importante que o paper em si. Qual o corpo de conhecimento que já foi construído em torno daquele tema? Esse paper inova, adiciona, é contestado, não é? É uma evidência tão nova que a gente só vai saber se isso, de verdade, se repete ou se sustenta daqui alguns anos? Pode ter sido publicado na Nature, mas tem um monte de paper publicado na revista que nunca mais alguém conseguiu repetir ou construir em cima. É assim que a ciência é feita e não a partir de pontos isolados no espectro”, explicou. 

  • Do lado dos cientistas, a vantagem é aprender como fazer uma comunicação clara, interessante e complexa. “Em geral, cientistas se comunicam muito mal, até mesmo com outros cientistas. Possuem muitos vícios de comunicação, não conseguem projetar o público. Os cientistas se beneficiam muito de entender como funciona a comunicação, qual informação têm de priorizar. São péssimos em editar, acham que tudo é interessante. Claro que existem exceções, mas em geral, são essas as principais tendências”, disse a especialista. Ela lembrou que a comunicação da ciência tem de ser clara, mas não pode ser simples. “Quando perde a complexidade, também perde o interesse. Uma das magias da ciência é ser complicada: a gente está falando de uma coisa que ninguém sabe a resposta ou é a primeira vez que alguém está procurando aquela resposta.”

Jornalismo científico x divulgação científica

  • Amorim, que fez o caminho inverso de Azoubel, é um jornalista que fez mestrado na área científica e hoje trabalha com a Fiocruz e o Museu da Vida. Ele comentou que alguns jornalistas que cobrem a área se enxergam fora da divulgação científica, por considerá-la uma espécie de publicidade. “É uma discussão relevante, que acontece mais fora do Brasil. O papel é de watchdog ou de cheerleader? Guardar os interesses da sociedade ou fazer torcida pela ciência?  Para mim, tanto no jornalismo como na divulgação, é preciso um olhar crítico sobre a ciência; entender seu modus operandi é fundamental”, opinou. 

  • Azoubel disse que, nestes tempos de COVID-19, viu exemplos dos dois comportamentos, animação com pequenos resultados positivos e muito alarmismo com coisas que estavam indefinidas ainda. “Vi ainda outra postura. Quando jornalistas criticaram o Butantan, por exemplo, na divulgação da eficácia da Coronavac, pessoas do âmbito da ciência disseram que estavam jogando contra. Não é para atacar sem motivo, mas o jornalista precisa ver a realidade e tentar passar, não apenas reproduzir o que vem da assessoria de imprensa”, comentou, acrescentando que o atual clima de anticiência, gera um impasse. “Parece que qualquer crítica é jogar contra a visão geral de que ciência é importante.”

  • “Não quero colocar uma dicotomia, você faz uma coisa ou outra, jornalismo ou divulgação científica. É mais complexo que isso. O que a gente está tentando fazer é pensar na recepção da mensagem. Como o público está vendo as informações, também de forma mais crítica? Qual o papel das redes?”, continuou Amorim. Ele contou que muitos estudos estão sendo feitos sobre a divulgação científica na pandemia; começou-se a mapear a tomada de atitudes a partir de diferentes fontes de informação. Dados preliminares mostram uma mudança na recepção: as pessoas estão tendendo a migrar das redes sociais para as informações do jornalismo profissional. “Há um estudo do Canadá de grande quantidade de tuítes e conteúdo de 19 sites jornalísticos, que percebeu que o público que era mais exposto aos sites de jornalismo científico tendia a concordar mais com afastamento social, por exemplo.” 

Relação entre jornalistas e cientistas

  • Amorim comentou que outros estudos mostram que o jornalismo científico não passa uma imagem estereotipada do cientista, o que o surpreendeu positivamente.  Por outro lado, outra pesquisa trouxe a ele uma surpresa negativa. “Na pesquisa sobre a importância da fonte de informação, a gente percebeu que há uma desvalorização do nome do veículo para os leitores, tanto para avaliação quanto para compartilhamento de informação. Espero que a COVID-19 faça que isso se modifique um pouco, como o estudo canadense parece mostrar.”

  • A percepção de ambos os convidados é que jornalistas e cientistas estão conseguindo se falar cada vez mais, há uma melhora na colaboraçã… acho que um dos maiores medos do cientista é ser mal interpretado na entrevista”, explicou Azoubel. Amorim acrescentou que a relação traz vantagens para ambos os lados. “Você ir para a mídia e fazer divulgação científica ajuda seus estudos a serem mais conhecidos, te beneficia academicamente, para conseguir financiamentos, parcerias.” 

  • Os dois especialistas também concordam que conseguir furos é difícil no jornalismo científico. “A gente já publicou matérias inéditas, mas vieram de relações que a gente já tinha com cientistas. Da rede que já temos dentro do jornalismo científico”, disse Azoubel, completando que, com matérias de contexto, você pode não ter um furo, mas está trazendo um aspecto importante para uma informação.

  • Eles listaram as fontes que consideram boas para buscar pautas, mas Amorim alertou que a ideia é que sirvam de base e sejam contextualizadas por pesquisadores nacionais. “A ciência do Brasil é forte, bem feita. Mais de 90% dela é feita nas universidades e institutos de pesquisa. A busca por pautas dentro dessas universidades, trocando diretamente com as assessorias de imprensa, é uma maneira relevante de você conseguir notícias frescas.” 

Divulgação científica nas redes sociais

  • Para Amorim, canais como o de Átila Iamarino são extremamente relevantes. “Esses novos formatos atingem o que a gente chama de não engajados”, comentou. Segundo ele, em eventos nas universidades e de divulgações, você conversa com quem já entende e gosta de ciência. Com os vídeos do Átila, se rompe essa barreira. “Por isso a gente defende que o telejornal tem de trazer mais ciência, porque é uma maneira de você atingir mais pessoas. 

  • Sobre a desinformação que rola nas redes, os convidados avaliaram que o principal papel das empresas de tecnologia é facilitar o acesso ao bom conteúdo e parar de promover conteúdos apelativos.  “A gente não consegue fazer a vida real cair no ponto ideal do algoritmo. É uma questão para este século, talvez”, disse Azoubel. Ela afirmou que não quer pregar apenas para convertidos e, para isso, o conteúdo sobre ciência não pode ser sabotado pelo algoritmo e a informação precisa ser parte de uma história interessante, checada, contextualizada. “Não é só porque a ciência está descobrindo alguma coisa, que isso automaticamente é interessante para muita gente. Devemos pensar no conteúdo e também no formato.” 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Flickr por Giuliano Maiolini