Desinformação nas redes costuma partir de líderes políticos, diz especialista

porFhoutine Marie
Jul 13, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Tela de códigos com a palavra fake news em destaque

Políticos influentes costumam ser o gatilho para o alastramento de desinformação nas redes, o que inclui as informações de baixa qualidade sobre a COVID-19. Apesar do senso comum acreditar que a “tia do Zap” é a maior disseminadora de notícias falsas no Brasil, os dados mostram um cenário bem mais complexo. “Para uma campanha desinformativa ter influência e abrangência ela precisa ser pública, tem que ser multiplataforma, tem que utilizar todos os meios de comunicação para atingir o maior número de pessoas possível”, diz Tai Nalon, diretora executiva da agência de fact-checking Aos Fatos, palestrante do quinto webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, realizado em 9 de julho.

Por meio de gráficos ela mostrou que após os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil citarem a hidroxicloroquina em seus perfis, os tweets com conteúdo desinformativo a respeito da substância cresceram substancialmente. Por isso, para combater a desinformação, mais importante que focar no conteúdo, é fundamental observar os comportamentos em rede, padrões de inautenticidade de perfis, de retroalimentação e de engajamento artificial. “O que existe de artificial é o espalhamento da desinformação. Não a desinformação em si. Isso você resolve, você checa, faz curadoria, dá mais informação para as pessoas. Mas a maneira como ela se espalha, isso é muito mais pernicioso”, avalia.

Nalon explica que a informação de baixa qualidade nem sempre é uma notícia falsa, pode contribuir para a desinformação quando inserida em um contexto mais amplo. 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Evolução da checagem e da desinformação no Brasil

  • Ela diz que as campanhas de desinformação hoje são diferentes de alguns anos atrás. Se nos governos anteriores havia sites e blogs que recebiam verba para publicar narrativas favoráveis ao governo, hoje essas campanhas estão muito mais institucionalizadas e complexas. Isso tem a ver com as mudanças da própria internet e seu uso no país. “A internet não era móvel, o smartphone não era a principal forma para acessá-la, não existia WhatsApp, as redes sociais eram muito diferentes, a prevalência de sites e blogs autorais era muito maior”. Tudo isso faz com que seja mais fácil a circulação de conteúdos de baixa qualidade. 

  • Nalon explica que hoje há um ecossistema de desinformação muito diferente do que existia nas eleições de 2018 e que atualmente há uma sensação de uniformidade narrativa entre os desinformadores. “Isso significa que cada influencer de determinado espectro da política vai utilizar padrões de linguagem muito semelhantes, mas com algumas variações”. Trata-se de um conteúdo muito opinativo, até mesmo agressivo, que não necessariamente consiste em um notícia falsa, mas vai fazer parte de um ambiente poluído e potencialmente desinformativo. 

Desinformação e pandemia

  • Nalon diz que a pandemia afetou o trabalho de checagem por várias razões, desde a adoção do trabalho remoto ― que tornou mais lento o processo de tomada de decisões e produção de conteúdo ― ao fato de tratar de uma situação psicologicamente complicada, uma vez que pessoas da equipe foram pessoalmente afetadas pela doença. “Não é como se fosse uma cobertura eleitoral, que é acelerada, tem muita fake news, mas a gente sabe quando vai acabar. Tem gente morrendo, são pressões externas muito grandes que atingem a gente de modo incontrolável.”

  • Contudo, no aspecto operacional, ela avalia que a equipe da agência estava muito preparada para cobrir os padrões desinformativos relacionados à politização da pandemia. “Ficou mais fácil cobrir a pandemia a partir do momento que ela foi politizada porque aí a gente já tinha um certo respaldo. A gente sabe como a lógica dos principais desinformadores negacionistas da pandemia e da ciência, de modo geral, operam. Quando a gente cobriu a crise das queimadas no Brasil, no ano passado, eram mais ou menos as mesmas articulações que aconteciam, eram mais ou menos os mesmo argumentos que prevaleciam, negando a ciência, negando evidências, colocando em xeque a credibilidade de base de dados.”

  • Ela diz que a maior dificuldade na checagem de fatos no contexto da pandemia é a parte da ciência, uma vez que as coisas mudam muito rapidamente neste campo, ainda mais se tratando de uma doença desconhecida. Ela cita como exemplo a questão das máscaras. “A Organização Mundial da Saúde falou no início que não era necessário [o uso de] máscara. Vários governos fizeram campanha contra máscara e depois voltou-se a falar que máscaras são necessárias… Agora existe uma nova onda negacionista sobre máscaras que usam argumentos que lá atrás profissionais da saúde diziam que eram verdadeiros.”

  • Outro ponto observado pela agência com relação à pandemia é a atuação de profissionais da saúde que usam sua autoridade para disseminar desinformação. “Hoje a gente vê uma série de médicos passando correntes via WhatsApp, vídeos no Facebook e no Instagram dizendo ‘olha, consulte o seu médico, mas o protocolo que eu estou recomendando é esse, com essa substância para você se prevenir’. Isso não faz sentido, não existe prevenção por remédio convencionada contra o coronavírus ainda, se é que vai existir.” 

  • Para desmentir notícias falsas sem amplificá-las, Nalon afirma que uma boa estratégia, principalmente em mídias regionais, é estabelecer canais de comunicação mais diretos com o público, como fazer lives, pequenos vídeos explicativos, algo diferente de uma produção editorial que demande muitos recursos. “Sei que parece um pouco de serviço ao consumidor, mas no fim das contas o jornalismo de checagem é um jornalismo de serviço e esse tipo de estabelecimento de elos mais próximos de disseminação de conteúdo verificado são muito mais eficiente do que sair publicando em veículos grandes.” 


Fhoutine Marie é jornalista e cientista política. Paraense radicada em São Paulo, trabalha como jornalista e pesquisadora freelancer com foco nas áreas de gênero, raça e movimentos sociais. Twitter: @DraFufu

Imagem sob licença CC no Flickr via Christoph Scholz