Como a mídia social está transformando o mundo árabe

porNicole Martinelli
Feb 19, 2011 em Diversos

A mídia social impulsionou os acontecimentos recentes no Egito e Tunísia, mas pouco se sabe sobre como as pessoas no mundo árabe vêm usando estas novas ferramentas de comunicação.

Para entender um mais sobre esse tema, a IJNet conversou com Jeffrey Ghannam, consultor de mídia internacional e advogado especialista em lei de mídia e expressão livre.

Ghannam também é o jornalista veterano com experiência no Oriente Médio e norte da África que recentemente escreveu um relatório "Social Media in the Arab World: Leading up to the Uprisings of 2011" sobre como a mídia social no mundo árabe para o Center for International Media Assistance do National Endowment for Democracy em Washington, D.C.

IJNet: Sua pesquisa mostra que cerca de 17 milhões de pessoas no mundo árabe usam Facebook. Qual é o atrativo dos sites de relacionamente social na região?

Jeffrey Ghannam: Minha pesquisa está em andamento; estes números podem ser ainda maiores agora. De acordo com uma fonte, estão em mais de 20 milhões. É uma situação em evolução, particularmente com a mídia social; estamos realmente na alvorada da mídia social e da era digital no mundo árabe.

Instrutores de desenvolvimento de mídia na região, não necessariamente no Egito, mas na Cisjordânia, disseram que as pessoas gostam de usar o Facebook como um microblog. É fácil de usar para um monte de gente que cria, atualiza e mantém um blog pessoal. Em uma situação como na Palestina, o Facebook oferece uma plataforma pessoal para se comunicar em uma ou duas frases; microblogging se encaixa nos horários das pessoas, suas redes e as dificuldades de vida sob a ocupação. Se você deixar de atualizar seu Facebook por uma semana, ninguém percebe, talvez alguns, mas se você tiver um blog, este precisa de novos conteúdos, manutenção, tempo e interesse em fazê-lo para manter o público e atrair novos leitores.

As duas plataformas - Twitter e Facebook - são muito diferentes. Twitter em particular, parece ser mais atual, mais fácil e mais sintonizado com as situações de eventos de rápida mudança como os que vimos na Tunísia e no Egito nas últimas semanas. O conteúdo do Facebook, por outro lado, é limitado a quem pertence aos grupos ou tem acesso a determinadas páginas. Na Tunísia, ativistas disseram que o conteúdo do Facebook foi agregado e depois retransmitido no Twitter para divulgação mais ampla .

IJNet: Você recomenda que jornalistas que na região árabe usem as mídias sociais para obter informações e encontrar fontes?

JG: Sim, certamente. Acho que o Facebook eo Twitter são o começo, que nem quando alguém liga para um repórter e diz: "Aqui está uma história que você realmente deve olhar." Da mesma forma, eu acho que os "tweets" ou atualizações do Facebook podem ter valor noticioso; é que nem quando alguém lhe diz algo na rua ou envia um e-mail com informação. Tudo isso faz parte do mix. Eu não acho que você pode confiar no Facebook ou no Twitter e pronto; não é realmente suficiente, mas é definitivamente uma fonte de notícias e informação que deve ser levado em conta.

IJNet: Você aponta na sua pesquisa que alguns governos estão monitorando as pessoas no Facebook. Ao entrar em contato com uma fonte através do Facebook, como fazer para convencê-los de que não há problema em falar?

JG: Essa é uma boa pergunta. Participei de um painel de debate no National Democratic Institute ontem (7 de fevereiro) em que um ativista político da mídia social falou sobre a alegada desinformação governamental através da criação de páginas no Facebook, blogs ou tweets.

A questão para os jornalistas é - e será sempre - que deve haver um vínculo de confiança entre você e suas fontes. Infelizmente, o Facebook e o Twitter não permitem necessariamente que você crie essa ligação física de confiança; e é difícil criar uma ligação virtual de confiança. Não é tão fácil fazer a reportagem estritamente através da mídia social, a menos que já tenha estabelecido um relacionamento.

IJNet: A mídia social pode nos dar a informação da maneira mais rápida, mas às vezes demora um século para apurar e verificar as informações.

JG: Leva tempo e realmente um jornalismo muito bom. Um bom jornalismo também requer fontes de confiança, de quem os jornalistas podem ter certeza de que terão informação correta. Da mesma maneira, as fontes confiam que os jornalistas mantenham suas palavras, por exemplo, protegendo o anonimato delas, obtendo a história corretamente e trabalhando para o bem público.

IJNet: Que papel vê a mídia social cumprir em lugares onde a agitação continua?

JG: Tanto no Egito como na Tunísia, a mídia social ganhou um espaço na sociedade. Não é um modismo. Continuará a ser uma fonte de notícias e informação e uma plataforma potencial mobilizadora para determinados grupos. Eu não posso prever o futuro, mas concordo com o que tem sido amplamente divulgado: o fator medo em lugares como o Egito e a Tunísia foi vencido, tanto antes dos protestos que levaram ao golpe de Estado na Tunísia como na mobilização e protestos no Egito. Não é que as pessoas não têm nada a temer. Pelo contrário, ainda há sérios perigos para blogueiros, jornalistas-cidadãos, e outros que estão ativos online; e os riscos têm que ser levados a sério.

Ainda é o início da era digital no mundo árabe, mas a mídia social alcançou um espaço como fornecedora de notícias e informações. É sempre um provedor confiável? Não. As pessoas são sábias em ver com ceticismo o que aparece online.

Um ativista tunisiano me disse que tunisianos estão cada vez mais pedindo pela documentação de notícias e informações online. Então, se alguém fala que alguma coisa aconteceu, deve fornecer a fonte. E se essa fonte é os seus próprios olhos, precisa dizer isso explicitamente. As pessoas estão se tornando mais exigentes sobre a documentação e provas para que possam acreditar na quantidade enorme de informações que chegam através destas plataformas. Isso é um passo muito positivo para uma maior vigilância e maior responsabilidade por parte daqueles que assumem esses papéis de fornecer notícias, informações e opinião. Como qualquer fornecedor ou prestador de boas informações, eles também precisam fornecer a autoridade para respaldar o que relatam.

IJNet: Em países onde a mídia estatal ou partidária domina, as pessoas são atraídas pela mídia social por ser uma fonte de informação independente?



JG: Certamente. Eu acho que a mídia social -- YouTube, microblogging e outros meios - permitiu que as pessoas e comunidades definam suas próprias agendas. Podem dizer: esta é a nossa experiência em um determinado dia; isto é o que aconteceu. Isso nem sempre era possível no mundo árabe e, em grande parte, ainda não é possível em muitos lugares da região. Mas a capacidade dos indivíduos de comunicar as suas próprias opiniões quando querem e como veem tem sido algo sem precedentes na mudança do status quo.

IJNet: Você acha que o mundo árabe está caminhando na direção de investir mais na mídia social ao invés do capital social e relações sociais? Você acha que isso é "saudável" ?

JG: Minha impressão do mundo árabe é que você nunca vai perder o mundo real das relações sociais. É uma cultura social: as pessoas gostam de encontrar com as outras; gostam de falar com as outras; gostam de se expressar.

Estou falando de uma perspectiva sirio-libanesa-palestina do Mediterrâneo Oriental - que é em grande parte a minha experiência. Mas também no Norte de África e no Golfo, as pessoas têm necessidade de estar com outras pessoas, falar cara a cara. Não acho que as plataformas de mídia social podem substituir essa necessidade. No entanto, isso não quer dizer que algumas pessoas não estejam gastando horas e horas clicando sobre estes tweets, atualizações de Facebook e mensagens de blog -- eles certamente estão -- e talvez os relacionamentos têm sofrido como resultado do tempo gasto online. É uma escolha pessoal.

Eu não acho que a atividade online vai substituir a necessidade de relacionamentos em pessoa, mas eu não acho que devemos ignorar o impacto sobre as relações, também.

Para ler mais ou baixar o relatório do CIMA (em inglês), clique aqui.