Como está o jornalismo cultural em tempo de pandemia?

por Rafael Gloria
Jul 19, 2021 em Diversos
Teatro vazio com imagens das cadeiras

A Covid-19 transformou os hábitos e as rotinas de diversos profissionais. No jornalismo, a necessidade de sair da redação, assumir o home office e a adaptação às ferramentas tecnológicas foram algumas das mais marcantes. Neste contexto, é importante pensar em como o jornalismo que cobre cultura, um dos setores mais afetados, está atuando durante a pandemia. Conversamos com jornalistas da área sobre esta questão.

O caderno Na Quarentena já dura mais do que o esperado 

Em março de 2020, logo no início da pandemia, o jornal O Estado de São Paulo criou o caderno Na Quarentena, que reúne conteúdo das editorias de Cultura, Aliás, Casa, Viagem e Paladar. O editor Ubiratan Brasil conta que a ideia era que fosse um caderno intermediário: “Mas já estamos com ele há pelo menos um ano e quatro meses, então, essa foi a primeira grande mudança, juntamente com todo mundo da redação indo trabalhar de casa”, diz. 

Capa do caderno  Na Quarentena

Com a proibição de espetáculos, exposições, exibições de filmes, as pautas mais focadas em agenda foram minguando. “Então, em um primeiro momento nossa ideia foi retratar a vida radicalmente mudada dos artistas, o que cada um estava tentando fazer, os seus planos adiados”, explica o editor. 

Em uma segunda etapa, os artistas começaram a usar carros para fazer espetáculos e conseguir alguma renda. “Chegamos a ter peça encenada dentro de estacionamento de prédio, exposição de arte, exibição de filmes e shows em drive thru”, resume. O terceiro momento é o atual em que alguns eventos presenciais estão voltando com os devidos cuidados.

A ideia do caderno e da estrutura de conteúdo durante esse período era também mostrar um lado mais positivo. “Queríamos mostrar aqueles profissionais da cultura que estavam conseguindo de alguma maneira driblar a falta de trabalho da sua área específica com alguma coisa ligada a sua própria área ou de um modo bem original”, revela. Entre algumas matérias deste porte, está a de dubladores de desenhos que improvisaram e instalaram estúdios de gravação em suas casas. 

A revista Continente e a necessidade da digitalização

Capa da revista ContinenteA Continente é uma publicação impressa de jornalismo cultural com periodicidade mensal produzida em Pernambuco, desde 2000, mas com assinantes e circulação em todo Brasil. Fora do eixo Rio-São Paulo, é uma revista que vem resistindo às oscilações editoriais do país, mas que também acabou sofrendo com a pandemia de Covid-19. A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) é a responsável pela publicação e pela impressão, mas durante cinco meses de 2020, o parque gráfico não funcionou devido ao isolamento social, e a Continente não pode ser impressa.  

A editora da revista, Adriana Matos, conta que foi preciso fazer uma maior digitalização da marca, explorando também o site, as redes sociais, e a própria revista que circulou apenas no formato digital. “Ou a gente realmente fazia uma maior aproximação com o público mediado pelas redes sociais, estimulando os nossos leitores, assinantes, compradores avulsos a lerem também a versão digital, ou não seríamos lidos”, diz. A revista ficou sem rodar fisicamente de junho a novembro, mas depois que a gráfica voltou a funcionar esses números foram impressos e distribuídos gradualmente. 

Matos diz que o período pandêmico acaba sendo refletido nas pautas. “Se você olhar as edições do ano passado para cá, isso vai estar sempre presente. Por exemplo, nessa edição agora de julho, nossa capa traz uma reportagem sobre feminicídio, que aumentou violentamente durante o período da pandemia”, explica. A cultura, para a Continente, é abordada no sentido amplo, diverso e complexo da palavra.

Revista Noize e a preocupação com os artistas músicos

A revista Noize é uma publicação especializada em jornalismo musical, que tem sua sede no Rio Grande do Sul, mas com abrangência nacional. Publicada desde 2007, a partir de 2014 sua curadoria musical deu origem ao NOIZE Record Club. Desde então, a revista tornou-se exclusiva para assinantes e vem sempre acompanhada de um disco de vinil com grande representatividade na história da música brasileira.

A captação de vídeos e fotos sempre foi essencial para a publicação, mas durante a pandemia houve mudanças. “Chegamos ao extremo de realizar ensaios fotográficos e captações de vídeo dirigidas totalmente à distância, sem contato físico entre a equipe de captação e a artista”, diz o editor da publicação, Ariel Fagundes.

A Noize lançou recentemente o edital GIRA! NRC, para ajudar artistas que estão começando suas carreiras e que tiveram seus planejamentos impossibilitados devido a pandemia. Com os discos de vinil que ficaram em estoque das edições anteriores ao longo dos anos, foi feita uma venda solidária por um valor abaixo de custo. “A partir daí, iremos dividir o valor levantado em cotas de ajuda de R$3 mil para artistas emergentes. Por mais que seja uma ajuda financeira limitada, foi a forma que achamos de auxiliar a cadeia como um todo”, completa Fagundes. 

Edital da Revista Noize

 

Foto: Claire P em Unsplash

Rafael Gloria é jornalista, mestre em comunicação, editor-fundador do site de jornalismo cultural  Nonada e sócio da Agência Riobaldo.