Como contar histórias da mudança climática com vídeo 360°

porDaria Sukharchuk
Jun 11, 2018 em Diversos

Hoje, não há dúvida de que as histórias sobre mudança climática devem ser contadas; tanto jornalistas quanto cientistas concordam com isso. No entanto, a mudança climática continua sendo um dos temas mais desafiadores a serem cobertos. Os dados científicos mais recentes muitas vezes não são acessíveis aos jornalistas, e pode ser difícil escolher os especialistas e personagens certos para incluir nas matérias.

O vídeo de 360° pode ser uma ótima maneira de contar essas histórias, já que oferecem mais engajamento e imersão para o público. Duas dessas matérias em vídeo de 360° sobre mudanças climáticas foram apresentadas este ano na Global Editors Network Summit, em Lisboa.

A IJNet conversou com as jornalistas por trás delas: Flavia Martins y Miguel do Portal R7 Minas e Sonia Narang da Public Radio International (PRI).

Ambas as histórias foram desenvolvidas com a ajuda da Lookout Station, um projeto da Global Editors Network e do European Forest Institute, que reúne jornalistas que querem contar histórias sobre mudança climática e cientistas que têm histórias para contar.

Este ano, o Lookout Station lançou um acelerador de seis meses para jornalistas que queriam fazer vídeos de 360° sobre a mudança climática, mas não tinha feito antes. Doze jornalistas de todo o mundo foram convidados para um curso de dois dias na Finlândia para aprender o básico, depois foram colocados em contato com experientes jornalistas de realidade virtual de diferentes redações com as quais mantiveram contato durante todo o trabalho durante as matérias.

Flavia trabalhou em uma história sobre o rio São Francisco, um dos principais rios do Brasil que está sofrendo com uma seca de sete anos.

Para Flavia, que já fazia documentários e reportagens em vídeo, a principal vantagem do vídeo de 360º é que permite que o espectador se envolva com os personagens da história e tenha muito mais controle sobre a narrativa: olhando onde quer, não apenas onde a câmera está apontando.

A matéria de Flavia foca nos pescadores cujas vidas são drasticamente afetadas pela falta de água no rio.

“A parte mais difícil foi desistir do controle da entrevista porque você não pode estar lá conversando com o entrevistado. Você faz as perguntas, depois sai e se esconde”, disse ela. “Nós entrevistamos os pescadores primeiro, depois colocamos a câmera no barco, e eles saíram para pescar por meia hora ... Eu só peguei meu material quando estava no hotel [naquela noite]; eu não sabia, até então, se estava bom ou não," ela contou.

Sonia tem uma impressão semelhante: o vídeo de 360º permite mais engajamento dos espectadores, mas tira o controle do cinegrafista. É impossível aumentar e diminuir o zoom e não há grandes planos com vídeo de 360°.

Para ela, a iniciativa Lookout 360 foi uma experiência intensa de aprendizado. "Isso realmente me levou a experimentar coisas novas: coisas que eu não experimentaria sozinha."

A matéria de Sonia, que mostra a vida de uma família Navajo no Arizona, foi publicada recentemente no PRI.

As duas jornalistas --assim como seu mentor, Thomas Seymat, do Euronews.com-- disseram que o vídeo de 360º é barato de produzir; tudo o que se precisa é de uma pequena câmera de 360°, alguns cartões de memória, um tripé e um gravador de som.

Elas também concordam que as melhores histórias de 360​​° estão centradas nos personagens.

“Idealmente, você encontraria um personagem forte, alguém que seus espectadores gostariam de conhecer e que estivesse à vontade na frente da câmera”, disse Sonia. "No meu caso, eu também tive o benefício da natureza bonita: o Arizona é lindo."

Para o Portal R7, a matéria de 360º não trouxe muitos novos leitores, mas definitivamente gerou mais feedback e atraiu mais comentários do que o normal.

"As pessoas disseram que choraram quando assistiram a nossa matéria", disse Flavia. Sua redação está planejando produzir mais matérias de 360​​°, e ela está planejando filmar em Mariana, uma cidade que foi enterrada sob lama depois que uma represa explodiu em 2015, um dos maiores desastres naturais do Brasil.

Sonia disse que planeja continuar cobrindo histórias sobre mudanças climáticas. Seu vídeo foi amplamente partilhado nas redes sociais e gerou mais feedback do que o habitual. Ela quer continuar contando as histórias sobre indígenas americanos que foram afetados pela mudança climática, já que suas comunidades são frequentemente ignoradas pela grande mídia e estão se adaptando e encontrando soluções para a mudança climática de maneiras únicas.

Imagem principal sob licença CC no Wikimedia