Como combater a 'fadiga da pobreza' quando cobrir desenvolvimento e saúde

por IJNet
May 27, 2014 em Diversos
Rebecca Davis, vencedora do concurso African Story Challenge

Os jornalistas e organizações de mídia na África muitas vezes evitam matérias com foco em desenvolvimento, como saúde e justiça social, e optam por cobrir política.

A sul-africana Rebecca Davis do jornal online Daily Maverick, diz que as organizações noticiosas africanas "acham que matérias [sobre desenvolvimento] são chatas ou [que os leitores] têm 'fadiga da pobreza'."

Mas jornalistas como Davis estão trabalhando para mudar isso. No mês passado, a reportagem de Davis “Coughing up for Gold" (tussindo por ouro), que focou no preço que a mineração tem tido na saúde dos ex-trabalhadores das minas na África do Sul, foi vencedora de um concurso de reportagem de todo o continente, o African Story Challenge. Por seu trabalho, Davis ganhou uma viagem de reportagem internacional.

O African Story Challenge é um projeto da African Media Initiative (AMI), a maior associação do continente de proprietários e operadores de mídia, em parceria com o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês). Joseph Warungu, diretor de estratégias de conteúdo da AMI, criou o desafio durante sua bolsa do Knight International Journalism Fellowship. Ideias de pauta são selecionadas para receber bolsas de até US$20.000 para apoiar os jornalistas na produção de reportagens multimídia abrangentes em três categorias que são organizadas em ciclos --agricultura e segurança alimentar, prevenção e tratamento de doenças, e negócios e tecnologia. Davis ganhou na categoria de prevenção e tratamento da doença.

"O African Story Challenge me faz pensar na importância dos africanos contando suas próprias histórias", disse Davis em entrevista sobre a realização de sua reportagem vencedora. Ela exortou os jornalistas a "sempre colocar um rosto humano no centro da história, e é assim que você pega o seu público, não importa quão árido seu assunto possa parecer no início."

Mais de sua entrevista é publicada abaixo com a permissão do African Story Challenge:

African Story Challenge: Como você descreveria sua experiência como finalista e vencedora da competição?

RD: O African Story Challenge tem sido uma oportunidade inestimável para mim. O treinamento que recebi durante o Story Camp em Lagos foi particularmente útil, pois eu aprendi muito sobre o jornalismo de dados. Agora eu tenho algumas habilidades para fazer meus próprios gráficos. Eu trabalho para uma organização de notícias que não tem um monte de recursos, então qualquer coisa que podemos fazer nós mesmos, fazemos. Acima de tudo, o apoio financeiro foi inestimável. Hoje em dia, poucas organizações têm tempo ou dinheiro para fazer tais reportagens de investigação em profundidade. Se não tivéssemos recebido este subsídio a partir do African Media Initiative, não teríamos conseguido fazer esta reportagem.

ASC: Você teve seis semanas para trabalhar na sua reportagem. Como foi sso?

RD: Quando trabalhei no "Coughing up for Gold", quis olhar para a complexa questão da silicose entre os antigos mineiros, cuja situação tem sido negligenciada pelo governo e outros envolvidos na indústria. A silicose mexe com tudo: política, dinheiro, raça, uma espécie de África do Sul um microcosmo; e é por isso que eu achei esse tema tão fascinante. Meu cinegrafista, colaborador local e eu viajamos para o Cabo Oriental, às vezes por muitos quilômetros em áreas muito remotas e para as montanhas para encontrar esses ex-mineiros. Encontramos doentes que vivem em condições de pobreza comovente. Eles não podiam trabalhar por causa da doença e se receberam compensação, foi muito pouco. Eles foram acolhedores e dispostos a conversar com a gente, e foi uma lição de humildade experimentar sua hospitalidade, considerando as dificuldades de suas condições de vida.

Foi muito difícil conseguir acesso às próprias minas, mas a curto prazo, conseguimos visitar o Ouro de Sibanye, um dos maiores produtores de ouro. Queríamos ter uma ideia geral das condições de mineração. Nós fomos capazes de falar com altos funcionários de mineração de lá que, obviamente, nos deram uma versão higienizada, mas ainda era interessante ouvir o que as minas tinham a dizer sobre a situação. Realizamos outras entrevistas com especialistas em mineração da câmara de minas e outros funcionários que não quiseram falar oficialmente e nos deram insights interessantes sobre exatamente o que a indústria sabe sobre o problema e o que estão fazendo a respeito.

Um dos nossos maiores golpes de sorte em fazer o projeto foi encontrar dois especialistas em saúde ligados ao instituto nacional de saúde ocupacional, Dr. Jill Murray e Dr. Tony Davis, que nos deram uma entrevista. Eles realizam autópsias em ex-mineiros há anos e estavam em uma melhor posição para refutar o discurso dos assessores de imprensa, porque são eles que examinam os pulmões dos mineiros e podem mostrar os gráficos de como as incidências de silicose e tuberculose estão aumentando ano após ano. Todo jornalista deveria ter tanta sorte de encontrar tais entrevistados experientes que não estão com medo e estão dispostos a conversar longamente e explicar o assunto para um leigo.

Terminamos entrevistando os advogados que decidiram assumir os casos de compensação para saber a perspectiva legal.

ASC: Qual tem sido a reação à reportagem?

RD: O feedback tem sido bastante positivo, mesmo de pessoas dentro da indústria da mineração. Nós tivemos algumas pessoas se manifestando para dizer que, embora a história seja dura, é essencialmente válida. Os advogados dos mineiros pediram para usar parte do projeto, como os vídeos, na sua própria documentação, o que foi bastante animador. Espero que possa ser útil a eles na luta por compensação.

Em geral, um monte de gente disse que, embora estivessem cientes da questão da silicose, não tinham visto isso em um pacote tão completo antes, e "Coughing up for Gold" conseguiu informá-los dessa forma, e isso foi de muito valor.

O African Story Challenge me fez pensar na importância dos africanos contando suas próprias histórias. Um monte de jornalistas e organizações de mídia coíbe matérias de desenvolvimento, especialmente sobre saúde e justiça social, porque acham que essas histórias são chatas ou têm "fadiga da pobreza". Parte do que eu aprendi com a jornada do African Story Challenge é "sempre colocar um rosto humano no centro da história, e é assim que você pega o seu público, não importa quão árido seu assunto possa parecer no início."


Imagem: Rebecca Davis recebe o troféu do prêmio de Dr. Anil Deelchand, Ag. Diretor da Serviços Gerais de Saúde do Ministério da Saúde e Qualidade de Vida, República da Mauritius.


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