Com Ojo Público, jornalista peruano busca dar um salto para o jornalismo digital

porJames Breiner
Dec 30, 2015 em Jornalismo digital

Oscar Castilla passou 12 anos no El Comercio, o mais importante jornal diário do Peru, aperfeiçoando suas habilidades de reportagem com investigações do crime organizado e corrupção.

Então, em 2014, Castilla e alguns colegas da unidade de investigação decidiram sair do jornal por razões editoriais.

"O editor na época tinha uma visão de jornalismo e nós, outra", ele me disse em uma entrevista. "Nós queríamos fazer algumas coisas inovadoras e a organização foi contra."

Então, eles decidiram lançar sua própria publicação de notícias online, Ojo Público (Olho Público). Sua primeira investigação, sobre os conflitos de interesse entre os prefeitos na região metropolitana de Lima, recebeu em junho em Barcelona o Prêmio de Jornalismo de Dados da Global Editors Network.

Muito a aprender

Castilla, 35, admite que no início não estava preparado para todos os desafios que teve de enfrentar na criação de uma publicação online. Ele não sabia muito sobre codificação para criar páginas na web. Mal utilizava as redes sociais, a chave para a distribuição de conteúdo web. Enquanto trabalhava no diário, ele deixava todas essas coisas para especialistas em outros departamentos.

Nem sabia como financiar uma operação de notícias. Ele descobriu que é especialmente difícil arrecadar dinheiro para publicações especializadas em expor a corrupção. Esse tipo de jornalismo exige a responsabilização dos poderes constituídos na política e nos negócios, que não gastam dinheiro com publicações que expõem suas relações.

Castilla descreveu sua transformação durante "O Primeiro Encontro Caribenho de Jornalistas Investigativos", em San Juan no mês passado. Ele fez parte de uma mesa redonda que eu presidi sobre sustentabilidade. Mais de 40 jornalistas de 17 países participaram do evento.

Contando histórias com dados 

Castilla disse que ele e sua equipe começaram um grupo local de Hacks/Hackers, que  desenvolve colaborações entre jornalistas ("hacks") e programadores ("hackers"), porque "você não pode fazer jornalismo digital na web sem especialistas em programação. Nosso objetivo é contar histórias com alto impacto para o público -- seja gerenciando dados ou produzindo reportagem clássica -- em formatos audiovisuais inovadores."

No ano passado, Ojo Público gerou US$110.000 em receita, que sustenta uma equipe de 13 pessoas, incluindo jornalistas, programadores e pessoal administrativo, alguns deles a tempo parcial e alguns estagiários.

As fontes de receita são:

  • US$50.000 do Hivos da Holanda, National Endowment for Democracy e Knight Foundation dos EUA (ICFJ-HacksLabs).
  • US$20.000 em contribuições dos fundadores do Ojo Público (95 por cento) e seu Club de Amigos (5 por cento em seis meses).
  • US$35.000 do desenvolvimento de tecnologia ou conteúdo editorial para organizações sem fins lucrativos que compartilham dos mesmos valores editoriais do Ojo Público.
  • US$5.000 de palestras e workshops.
  • Apoio no uso de instalações, das principais universidades de Lima.

A publicação não aceita publicidade ou doações de empresas privadas.

"Fazer a transição para o digital foi realmente ótimo, uma boa forma de aprender", disse Castilla. "Eu a recomendo para qualquer jornalista, desde que tenha em mente o modelo de negócio -- como gerar receita, como sobreviver, como você vai produzir o conteúdo que quer."

Alguns exemplos de reportagem que eles fizeram no primeiro ano: um aplicativo chamado Cuidados intensivos, que mostra como as empresas farmacêuticas e os poderosos grupos de interesse controlam o financiamento dos cuidados de saúde; o impacto ambiental negativo da mineração ilegal de ouro e como o crime organizado refina minério na Suíça e EUA; e Sala del poder, que examina a influência das corporações sobre política e vida cotidiana dos cidadãos comuns.

No próximo ano, Castilla está planejando se concentrar mais sobre os aspectos financeiros e o marketing de Ojo Público, especialmente na diversificação das fontes de receita.

"A necessidade é a mãe da invenção", ele brincou.

Entrevista em vídeo com Oscar Castilla, em espanhol:
 

 

Este post foi publicado originalmente no site News Entrepreneurs de Breiner e é traduzido para a IJNet com permissão.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Defence Images