Escritora premiada diz que jornalismo deve ser uma missão

por omemarian
Oct 14, 2010 em Jornalismo básico
Deborah Campbell

A escritora e jornalista Deborah Campbell conversou recentemente com a  IJNet sobre tendências emergentes em jornalismo, jornalismo multimídia e o futuro dos meios de notícia.  Campbell é autora do livro This Heated Place sobre o confito entre Israel e Palestina e professora adjunta da University of British Columbia. Ela já escreveu para o Economist, New Scientist, Ms. magazine, Guardian e Asia Times, e recentemente para o Harper's sobre os dois meses que passou com refugiados iraquianos. Nos últimos sete anos, ela documentou extensivamente as áreas de conflito no Oriente Médio, do Irã à Palestina, imersa por períodos longos nas sociedades que cobriu.

Leia abaixo trechos da entrevista.

IJNet: Quais sãos as tendências principais do jornalismo hoje? Como estas tendências estão transformando o jornalismo?

Deborah Campbell: O jornalismo atual está em crise. Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas sabemos o modelo antigo está quebrado. Muito disso tem a ver, muito simplesmente, com o dinheiro. Quem quer pagar para obter notícias se agora podem ser obtidas gratuitamente através da Internet? Onde estão os dólares da publicidade? Assim, o modelo empresarial do jornalismo não está funcionando, mas ao mesmo tempo as pessoas estão consumindo mais notícias do que nunca -- apenas sem pagar por isso.

Ao mesmo tempo, a Web abriu novos modos de comunicação, como sabemos. E alguns blogueiros estão fazendo jornalismo fantástico. No Oriente Médio, por exemplo, acadêmicos como Juan Cole, fornecem uma análise que é melhor que a maioria do jornalismo. Mas não há realmente nenhum substituto para o envio de um jornalista em campo para fazer reportagens reais. Eu fiz recentemente uma matéria de profundidade em que entrevistei um diretor de comunicações do International Crisis Group. Ele estava preocupado que, sem informação de campo, sem jornalistas de verdade no terreno treinados e educados nas questões, sequer ouvimos falar de conflitos internacionais, tais como guerras pequenas. "O jornalismo cidadão é como um dentista", ele disse.

A matéria para a qual eu o entrevistei ("O Nome mais odiado em Notícias") foi sobre o Al Jazeera Inglês e suas ambições de ser a maior organização em jornalismo internacional. Agora eles estão dominando, porque todo mundo está cortando, não enviando repórteres, deixando uma enorme parte do mundo sem jornalismo.

Tony Burman, seu diretor, disse que as redes tradicionais americanas cortaram as suas agências até o osso. Eles estão, basicamente, apenas em Londres agora. Até a CNN tem cortado. Eu lembro que nos anos 80, quando cobria estes eventos, havia um caminhão de jornalistas americanos, equipes e editores, e agora a Al Jazeera supera todos eles. Então, aqui você tem um modelo totalmente diferente, com um rico país do Oriente Médio decidindo financiar um canal de notícias de seu próprio bolso. Mas é claro que não vai acontecer em muitos outros lugares.

IJNet: E o jornalismo freelance? Há alguma esperança de que as organizações de notícias paguem por boas matérias?

DC: Eu conheci Seymour Hersh uns anos atrás. Ele é um dos grandes jornalistas freelance - ele ainda é freelancer aos 70 anos - e quando ele cobriu a história do massacre de My Lai, no Vietnã, ninguém ia publicá-la. Então, um amigo se fez passar por trabalhor de agência de notícias e enviou a matéria para todos os jornais, assim um monte delas seria publicado. Você tem que ser inovador, mas ainda pode encontrar lugares que pagam bem, só que são poucos. E há menos espaço para o trabalho investigativo. Se você tiver que gastar meses em uma história, como Hersh fez, provavelmente passará muito tempo sem ser pago. Eu acho que há mais futuro em livros do que em jornal de informação, se você realmente quer fazer um trabalho de investigação.

IJNet: Em faculdades de jornalismo, os estudantes estão aprendendo a ser jornalistas multimídia. Isto está mudando a maneira como jornalistas trabalham?

DC: Eu vejo a tendência de transformar jornalistas em um tipo de "faz tudo". É muito provável que favoreça um certo tipo de jornalista - um que pode fazer doze coisas ao mesmo tempo. É ótimo se você pode fazê-lo. Os jornalistas devem certamente tentar ser ativos em mais de um meio de comunicação para alcançar um público mais amplo. Para mim eu gosto de narrativas longas, muito embora eu tenha também feito documentários para a rádio e tirado fotos em meu trabalho. Mas eu não gostaria de usar uma câmera de vídeo em todas as situações que encontro, principalmente porque eu exploro outras culturas, muitas vezes em zonas de conflito, e seria muito perigoso fazer isso. Preocupa-me que fazendo muitas coisas técnicas ao mesmo tempo, acabamos com uma cobertura mais superficial.

IJNet: Como isto tornaria as matérias mais superficiais?

DC: Talvez eu apenas esteja tentando entender por que a cobertura é muito superficial - é porque a pessoa que é enviada para fora é tecnólogo ao invés de jornalista? Será que é porque ele está preocupado com seu equipamento, luz e som ao invés de se concentrar no que o entrevistado está falando e o conteúdo real da história? Talvez eu esteja tentando entender por que vemos tão pouco jornalismo real (em contraste com as histórias geradas pelas assessorias de imprensa, celebridades, ou com base em medos inúteis e controvérsias fabricadas). Pelo menos em parte tem algo a ver com os orçamentos e os prazos restritos e o atrito de jornalistas qualificados que foram demitidos porque eram caros.

Conheço jovens "jornalistas" que me dizem que têm que re-escrever dois ou três comunicados de imprensa em um dia, talvez fazer um par de telefonemas para adicionar umas falas originais. É como o trabalho nas fábricas de Dickens. Isso não é jornalismo. É barato, mas não é jornalismo. É permitir que os grupos de interesse, os grupos que escrevem os comunicados de imprensa e grupos que dirigem os chamados "think tanks", essencialmente controlem o fluxo de informações. Os estudos que tenho visto sobre o jornalismo no Reino Unido, EUA e Canadá  descobriram que cerca de 80 a 90 por cento das notícias são originários de relações públicas - partiram de conferências de imprensa ou comunicados de imprensa. Assim sobram 10 ou 20 por cento que são provenientes do jornalista apurando e encontrando uma história - e quantas delas são matérias desafiantes que nos ajudam a compreender como navegar o mundo?

IJNet: Imagine que alguém lhe diz que vai estudar jornalismo. O que você diria?

DC: Eu li uma frase de Toby Young, autor do livro "How to Lose Friends and Alienate People" (sobre o seu tempo de trabalho para a revista Vanity Fair), e ele disse que quem segue para o jornalismo neste momento ou é um idiota ou um romântico - Provavelmente os dois. É uma frase engraçada e difícil de contestar.

Se você estiver indo para essa profissão precisa de ter uma vocação - missão - deve significar algo para você pessoalmente, e terá que trabalhar muito duro para fazer o trabalho que lhe interessa. Eu sei que pode ser feito, porque eu e outros estamos fazendo. Mas você não deve ter nenhuma expectativa de que será fácil ou que vai encontrar um trabalho pessoal bom, com um bom salário, pelo menos não por enquanto. Você também deve ter certeza de que está fazendo um trabalho importante para você. Esta é razão da opção freelance ser boa - talvez  a única opção, já que muitas pessoas que são muito mais velhas e qualificadas estão agora desempregadas. O modelo está mudando, mas você pode ser o futuro. Tente viver com seus pais enquanto você pode ou casar com alguém rico (novamente, estou apenas parcialmente brincando).

Os grandes jornalistas que eu conheço estão fazendo isso por conta própria. Eles estão indo atrás de histórias, muitas vezes sem o respaldo de um meio de notícia, muitas vezes se deslocam para países difíceis, se querem fazer a correspondência estrangeira, como eu, e depois produzindo trabalho que as pessoas querem e precisam. Eles não estão esperando ninguém que os envie para estes lugares.

IJNet: Eles deveriam estudar direito ou administração e esquecer jornalismo?

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DC: Acho que a faculdade de administração está parecendo tão promissora quanto a de jornalismo agora. O futuro é muito incerto na maioria das indústrias, mas as suas expectativas devem ser realistas e você deve estar preparado para fazer sacrifícios. A menos que seu pai seja dono de um conglomerado de mídia, você não vai começar com um salário de US$70.000 por ano e não terá trabalho constante nos primeiros anos. A menos que você seja muito produtivo e com muita sorte, pode ser que você tenha que ter um outro emprego a fim de se dar ao luxo de fazer o trabalho que quer fazer e gastar o tempo que demora para fazê-lo bem. Mas na minha experiência não há outro trabalho mais gratificante. É a melhor vida que eu possa imaginar.

Visite o site de Deborah Campbell aqui (em inglês).