6 dicas para turbinar suas reportagens sobre mudanças climáticas

porDestiny Alvarez
Jul 17, 2019 em Temas especializados
Manifestação sobre o clima

Quando Rosalind Donald começou a pesquisar como a comunidade entendia as mudanças climáticas em Miami, Flórida, ela estava interessada em aprender como os efeitos das mudanças climáticas e os impactos eram comunicados à comunidade local.

"As mudanças climáticas são um desastre em câmera lenta", disse Donald, ex-jornalista e agora pesquisadora e estudante de doutorado na Universidade de Columbia.

Ao ouvir as pessoas na comunidade de Miami, ficou claro para Donald que as mudanças climáticas não são  levadas tão a sério quanto precisariam ser. E, mais importante, as histórias que são escritas muitas vezes ficam de lado ou limitadas a um público restrito.

"Muitos jornalistas incríveis cobrem as mudanças climáticas", disse Donald. “A maioria de suas histórias aparece nas seções de ciência e meio ambiente no final do jornal ou online.”

Donald acredita que há uma maneira muito mais positiva e multidisciplinar de cobrir as mudanças climáticas.  Jornalistas em todas as editorias têm uma oportunidade única de escrever histórias ligadas às mudança climáticas que abordam novos ângulos fora da narrativa padrão, orientada pela ciência.

Rosalid Donald
Rosalind Donald, doutoranda e pesquisadora da Universidade de Columbia, fala na Universidade de Oregon como parte da série “Demystifying Media”. Imagem via OR Media

A luta de informar sobre as mudanças climáticas

O problema com a reportagem sobre as mudança climáticas é que a maior parte da cobertura em torno do tópico é negativa, disse Donald, e “reforça [as mudança climáticas] como algo que está longe e que não os afeta.”

Normalmente, a reportagem das mudanças climáticas envolve a tentativa de informar e educar o público sobre a ciência e os números por trás dela. Com tanto foco nos dados, os jornalistas podem perder de vista a parte mais essencial da história: as pessoas.

"As formas como as pessoas falam sobre isso realmente têm a ver com a identidade e a maneira como pensam que uma vida boa pode ser vivida", disse Donald, que promove o encontro com as pessoas para ouvir suas histórias.

Ela argumentou que quando os jornalistas reservam um tempo para ouvir as pessoas envolvidas, se os efeitos são tangíveis em sua área de abrangência ou não, uma narrativa nova e mais proativa é criada. Colaboração e conexão com as pessoas é a chave para efetivamente cobrir e normalizar as mudanças climáticas. Afinal, é um tópico que afeta a todos.

Pew research results
Opiniões públicas sobre a cobertura das mudanças climáticas nos EUA. Imagem via Pew Research Center 

Melhore sua cobertura das mudanças climáticas 

Cada editoria tem uma história que pode ser conectada às mudança climáticas. A chave é olhar para as histórias de um ângulo diferente. Nem toda matéria precisa focar em ciência ou estatística para ser uma parte importante da conversa.

(1) Foque na infraestrutura

Toda a infraestrutura é vulnerável às mudanças climáticas, e uma infraestrutura fraca é mais uma ameaça imediata do que o aumento do nível do mar ou o derretimento de geleiras.

Nem todas as empresas levam em consideração as mudanças climáticas quando estão construindo, e, como explicou Donald, mais concreto significa menos área para a água ser absorvida no caso de inundações. Por outro lado, alguns edifícios e estruturas do início do século 20 estão se desintegrando.

Todas essas coisas impactam as pessoas e suas vidas diárias.

(2) Seja criativo com artes e cultura 

Com foco em reportar o lado negativo das mudanças climáticas, é fácil perder as coisas positivas que estão sendo feitas para conscientizar e educar o público.

Artistas como Xavier Cortada estão usando seus talentos para conscientizar sobre os efeitos das mudanças climáticas. Trabalhando com proprietários de casas na área de Miami, cujas casas ficam em uma altitude baixa, Cortada criou uma instalação de arte em dezembro de 2018, chamada "Associação de Residentes Subaquáticos".

Os proprietários mostraram placas marcando o número de pés que o nível do mar deve subir para colocar a casa debaixo d'água, como forma de aumentar a conscientização sobre as mudança climáticas. Cortada, desde então, fez uma parceria com cientistas e líderes comunitários para realizar reuniões públicas para educar os proprietários de imóveis na área sobre como lidar com os efeitos das mudança climáticas.

(3) Pense em comida e bebida

As matérias da editoria de alimentos são uma maneira eficaz de abordar as mudanças climáticas em nível local e internacional.

As mudanças climáticas afetam as estações e os impactos de como, quando e onde os alimentos são cultivados. Como resultado, as cadeias de fornecimento de alimentos estão sob ameaça, os agricultores e a força de trabalho agrícola estão sendo deslocados e os meios de subsistência estão sendo ameaçados.

A comida é um mecanismo chave para trazer as pessoas para a conversa em torno das mudanças climáticas. As pessoas podem ver — ou provar — o que oferece oportunidades para jornalistas.

Underwater Homeowners Association
Imagem via Xavier Cortada, Associação de Residentes Subaquáticos.

(4) Foque no jornalismo comunitário

As matérias sobre mudanças climáticas são muitas vezes repletas de dados e ciência, e falta envolvimento emocional. As histórias precisam ser relacionáveis ​​para os leitores se envolverem com o problema.

Donald incentivou jornalistas a aproveitarem suas próprias experiências e comunidades ao cobrir as mudanças climáticas. Amarrar a história de volta a coisas que importam para a comunidade, como o jardim de rosas local ou o lago, pode realmente ser útil. Os jornalistas devem considerar o que chamaria a atenção dos leitores em um jornal da comunidade.

"Comece por você mesmo", disse Donald. "Pense em como você vê e se conecte com sua comunidade."

(5) Aprenda sobre mudanças climáticas

É importante que os jornalistas tenham uma compreensão básica da ciência do clima, e há vários recursos projetados especificamente para eles. Por exemplo, a Climate Communication oferece os treinamentos Climate Matters in the Newsroom nos Estados Unidos e fornece recursos para jornalistas interessados ​​em aprender mais. Outras organizações, como a Sociedade de Jornalistas Ambientais, a Earth Journalism Network e mais, oferecem guias ou cursos sobre o assunto.

Mesmo com pesquisas, os jornalistas não podem entender tudo. Donald sugeriu que colaborem ou procurem cientistas para entender assuntos desafiadores. Muitas das informações que os jornalistas de mudanças climáticas têm para trabalhar são muito complexas, e ouvir de pessoas com diferentes áreas de especialização pode facilitar a compreensão.

(6) Peça ajuda ao seu editor 

Editores podem ajudar a mudar a cultura da redação promovendo um ambiente colaborativo e incentivando várias editorias para cobrir as mudanças climáticas. Também podem ajudar fornecendo treinamento e garantindo que um grupo diversificado de jornalistas e designers trabalhe nessas histórias.

“Quando mais pessoas com mais experiência cobrem as mudanças climáticas ou conversam sobre o tema, as discussões e conversas sobre isso se tornam muito mais sofisticadas”, disse Donald.


Imagem principal por Denise Silfee, manifestação sobre mudanças climáticas 29 de outubro de 2018, em Eugene, Oregon.

Em cada semestre, a Universidade de Oregon convida palestrantes da mídia acadêmica e profissional para participar da série de seminários “Demystifying Media”. A série oferece aos professores, alunos e funcionários a oportunidade de explorar os impactos da revolução da mídia do século 21 por meio de práticas e pesquisas de ponta.

A doutoranda e pesquisadora Rosalind Donald apresentou a primeira palestra da série de 2019 sobre “como as mudanças climáticas podem fazer parte de qualquer editoria”. A cobertura das palestras é fornecida por meio de uma parceria com a Universidade de Oregon.

Destiny Alvarez é estudante de pós-graduação em jornalismo na Escola de Jornalismo e Comunicação da Universidade do Oregon (SOJC). Alvarez é editora-chefe de 2019 da revista Flux Magazine, premiada pela OSJC.